Ruído branco

fevereiro 2013 / Ruído branco / Encontro com o autor-personagem (2)

Texto publicado na edição #98

Encontro com o autor-personagem (2)

O autor-personagem é o indivíduo indivisível repartido em muitas personas, ele é a entidade que instaura ao seu redor outro […]

> Por LUIZ BRAS

O autor-personagem é o indivíduo indivisível repartido em muitas personas, ele é a entidade que instaura ao seu redor outro plano da realidade, mais rico, mais instigante, mais genuíno, no qual a razão abre espaço e a fantasia tem sua importância reconhecida e sua existência legitimada. Conhecer pessoalmente Índigo é conhecer pessoalmente seus personagens fora do palco, vestidos à paisana, indo à feira ou ao supermercado.

Essas personagens têm muito a contar. Todas elas — não devemos esquecer nem mesmo as princesas missivistas: Branca de Neve, Cinderela e Bela Adormecida — estão passando pelo momento mais decisivo de sua existência: a inocência foi quebrada e pela primeira vez na vida elas estão sendo realmente ameaçadas pelo mundo codificado, regrado, burocrático, utilitarista, industrializado, muito mais opressor do que o mundo em que viviam quando ainda estavam mergulhadas na mais abençoada ignorância. Antes tudo era acolhedor e harmonioso, agora as coisas e as pessoas parecem injustas e cruéis. O processo que está subterraneamente em desenvolvimento na alma dessas personagens é o da aquisição de autonomia e maturidade.

Os livros de Índigo me fazem pensar no conceito de estranho, já teorizado por Freud, Todorov, Cortázar e outros interessados no assunto, conceito regularmente aplicado, por exemplo, aos contos de Hoffman, Poe e Kafka. É claro que agora é preciso tomar bastante cuidado, pois a natureza da ficção de Índigo é muito diferente da natureza da ficção dos três nomes apontados. A autora brasileira não escreve histórias de suspense gótico, seus contos e romances não pertencem ao gênero fantástico, ou ao sobrenatural, ou ao realismo mágico. Digamos que o elemento estranho aparece em suas narrativas de modo bastante atenuado, mas nem por isso menos incômodo, aprisionando delicadamente as pessoas e os acontecimentos numa bolha de desconforto e solidão.

Na vida e na literatura o estranho se caracteriza justamente por algo ou alguém que é normal, amistoso e familiar e se torna subitamente anormal, misterioso, excêntrico. Essa mudança às vezes inexplicável, provocada pelo estreitamento dos limites entre a realidade e o imaginário, faz surgir no sujeito o angustiante sentimento de estranhamento, sentimento que é alimentado não por uma fonte distante ou desconhecida, porém, ao contrário, por algo ao mesmo tempo familiar e anormal, conhecido e desconhecido, agradável e desagradável, que supera qualquer esforço do indivíduo para se separar dele. No seu grau máximo a experiência do estranho, que é terrificante justamente porque não pode ser adequadamente explicada, é o que alimenta muitos livros e filmes de terror e de ficção científica.

O reencantamento do mundo
Raríssimas histórias escritas para as crianças dão à moleira um papel relevante na trama. N’A maldição da moleira, quando o recém-nascido Ígor tem sua moleira fechada pela avó, ele não ganha apenas consciência e discernimento. Ele também ganha uma passagem sem volta para outra realidade. Para uma realidade estranha, muito estranha. O pequeno Ígor, assim que desperta para essa nova e definitiva realidade (sua maldição), percebe que o mundo é levemente perverso e as pessoas que o povoam, tanto os adultos quanto as crianças, são meio esquisitos. Apesar do recém-adquirido poder de reflexão, no momento da ação narrada — a história é contada no tempo passado — Ígor ainda não fala, apenas pensa, rumina, reflete, comenta, pondera, analisa em silêncio. A maneira atrapalhada ou exagerada como a avó, o pai, a mãe, o irmão maior (Comandante Oscar) e seus amigos (na verdade, seus soldados), os bonecos no berço (Cubo, Crock, Coelho e Laa-Laa) e o felino da família (Gato Selvagem) aparecem na sua história indica, mesmo que Ígor nunca afirme isso com todas as palavras, que não se trata de criaturas normais. É como se o dom da reflexão e a perda da inocência tivessem aguçado os sentidos do bebê da casa, que agora consegue perceber os desvios de comportamento, as neuroses, os medos e as obsessões de todos. Mas Ígor vê tudo isso nos outros, jamais em si mesmo. Por não poder partir para outro lugar nem mudar radicalmente a situação na qual está preso, o bebê aceita os fatos e segue vivendo da melhor maneira possível sua vida na companhia da família. Mas o leitor sabe que ele não pertence totalmente a esse grupo. Ígor é o herói mitológico que, graças a um fenômeno mágico, foi subitamente transportado para um território encantado, às vezes absurdo, às vezes grotesco. Apesar de ele também cometer seus desatinos, sendo Ígor o herói da própria narrativa é natural que aos seus próprios olhos todos sejam meio distorcidos, meio estranhos, menos ele mesmo. Aliás, isso facilita a identificação do leitor com o protagonista.

A maldição da moleira trata de certas dificuldades provocadas pelo crescimento e pelo estressante pressentimento de que o fim da infância está se aproximando depressa demais. Perdendo perninhastambém trata do mesmo assunto: a pressão que as mudanças sempre fazem. Para Ágata, ter que deixar o útero confortável e acolhedor da quarta série para enfrentar o mundo hostil e assustador da quinta série, isso é traumatizante. O que ocorreu com o pequeno Ígor também ocorre com ela: assim que põe os pés nessa nova e definitiva realidade (o primeiro ano do ensino fundamental), Ágata percebe que o mundo é levemente perverso e as pessoas que o povoam, tanto os adultos quanto as crianças, são meio esquisitos. Diferente de quando era apenas um bebê entre bebês, agora ela tem que lidar com as pequenas perversões dos colegas e dos professores, e com a desgastante e cotidiana defesa de seu território emocional, sempre que está com as amigas Mirela, Cíntia e Alexandra. Nesse momento ocorre também o questionamento religioso e o profundo conflito existencial em torno da figura de Deus. Então tudo começa a parecer muito estranho, principalmente o demônio verde que, surgindo nos momentos de tédio, passa a dar palpite na vida da menina.

No início do primeiro capítulo de Saga animal, livro de estréia de Índigo, o protagonista se apresenta já reclamando: “Meu nome é Ígor, tenho dez anos de idade e portanto sou considerado um criança. Tenho uma vida restrita por um monte de obrigações, regras e, acima de tudo, proibições. Muitas proibições”. São essas obrigações, regras e proibições impostas de cima para baixo (principalmente pela Dona da Casa, sua mãe) que dão a Ígor — ele não compreende essas leis e esses limites — a sensação de viver em liberdade condicional, vigiada, restrita. Ígor não entende, por exemplo, por que não pode ter um bicho de estimação. As leis e os limites tornam seu mundo estranho, e sua imaginação aumenta mais ainda essa sensação: Ígor decide pedir ajuda a Deus, logo em seguida sua mãe engravida, Ígor relaciona as duas coisas e, desconfiando de que Deus realmente age de maneiras misteriosas, conclui que sua mãe está grávida de Conan, o Cão, seu futuro irmão-cachorro de estimação. Bizarro? Muito. E esse é só o primeiro capítulo dessa saga cheia de bichos temperamentais e observações ácidas sobre o totalitarismo dos adultos, que continuará em Um dálmata descontrolado.

A leitura mais simplista diria que os dilemas e a inquietações dos protagonistas desses e dos outros livros da autora parecem indicar o caminho do consultório do psicólogo ou do psicanalista. A leitura mais simplista diria que esses protagonistas, por estarem passando por uma séria crise de amadurecimento, por estarem enfrentando graves dificuldades de adaptação à dura realidade do mundo contemporâneo, precisam de ajuda profissional, do contrário nunca encontrarão a satisfação e a felicidade. A leitura mais simplista, essa leitura precisa ser deixada pra lá. Porque a adaptação à dura realidade do mundo contemporâneo, por meio de qualquer tipo de terapia, é o castigo que nenhum desses heróis merece receber, tampouco a autora que os criou, testadora e herdeira de todas as suas estranhas e delicadas idiossincrasias. Nossa época terrivelmente materialista e burocrática tem sido muito cruel com a fantasia e a imaginação, duas de nossas faculdades mentais mais estimulantes. Em toda parte, esse modo pacífico e sutil de interagir com a realidade — o prazeroso exercício da fantasia e da imaginação — tem sido sistematicamente desestimulado e desvalorizado. Ninguém merece ter as arestas da imaginação aparadas apenas para melhor se encaixar no espaço pré-determinado que a sociedade reservou para cada um de nós. Nossa sociedade quer indivíduos bem construídos e bem acabados, quando na verdade o grande sinal de saúde é estar sempre em construção, é estar sempre em busca do melhor acabamento. Os protagonistas de Índigo, provando dessa experiência poética genuína, vivendo na realidade resultante da mistura da razão com a fantasia, estão em perpétua construção emocional e intelectual, e não devem ser cerceados.

Na vida imaginária ou na vida real a construção dessas fantasias também pode ser uma atividade irreverente e bem-humorada. No Diário da Odalisca, Índigo escreveu, no dia 23 de Abril de 2008 (quarta-feira):

Voltando de Marte
Ontem um homem da NET veio aqui em casa me ensinar a usar o controle remoto. Minhas perguntas eram tão imbecis que, para me sentir um pouquinho melhor, expliquei que havia passado muito tempo em coma, tinha acabado de voltar e agora estava me inteirando das novas tecnologias. O bom de gente que trabalha com televisão o dia inteiro é que eles acham tudo normal. Primeiro ele parou de usar gírias. Depois ele começou a falar muito lentamente comigo. Quando passamos por um canal com o Ronald Reagan, pedi a ele que voltasse. Ouvi durante alguns minutos e disse que tudo bem, ele podia prosseguir. Mas o moço não entendeu a piada, ou ficou com dó mesmo.

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