Dom Casmurro

setembro 2014 / Dom Casmurro / Poemas de Diane di Prima

Texto publicado na edição #173

Poemas de Diane di Prima

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert Poeta feminista, pornográfica, contestadora e uma das poucas mulheres entre os Beats. Diane Di […]

> Por DIANE DI PRIMA

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

dianne

Poeta feminista, pornográfica, contestadora e uma das poucas mulheres entre os Beats. Diane Di Prima (Nova York, 1933) é normalmente apresentada desse jeito. Por que não se diz, simplesmente, “uma grande poeta”? Não sei ao certo, mas a própria autora, mais citada do que lida, ajudou a alimentar o mito sobre si. Veja-se, por exemplo, seu primeiro livro autobiográfico, Memórias de uma beatnik, de 1969 (a única obra dela publicada no Brasil, pela Veneta, em 2013), que foi escrito “no calor da hora” e se concentra na juventude nova-iorquina, cujo tom é dado logo nas primeiras páginas: “Lá estava eu e, pensei com ironia, este é apenas um dos muitos apartamentos estranhos em que acordarei. Os músculos das coxas estavam doloridos. Passei a mão por eles, sentindo a aspereza da porra seca aqui e ali. Depois deslizei a mão por entre as pernas e toquei de leve os lábios da vagina…” (trad. de Ludimila Hashimoto). Por outro lado, o livro Recollections of my life as a woman: The New York Years (em tradução livre: Recordações de minha vida enquanto uma mulher: os anos de Nova York), de 2001, que traz uma bem posterior e mais serena visão de Di Prima sobre sua juventude, é muito menos citado, talvez, justamente, por ser infinitamente menos escandaloso.

A verdade é que Diane Di Prima, como uma digna herdeira de avô italiano e anarquista, tentou viver intensamente, e sem filtros, tudo o que cabia a uma mulher de sua geração. Defendeu o sexo livre, protestou contra o Vietnã, lutou pelas liberdades civis, foi viver na Califórnia, frequentou a cadeia por publicar obras consideradas obscenas, experimentou todas as drogas, virou hippie, tornou-se budista, defendeu o aborto, casou e se divorciou duas vezes, teve cinco filhos, deu aulas e palestras. Ao longo de todo esse percurso, porém, ela jamais deixou de escrever poemas absolutamente excepcionais. Artesã minuciosa e sofisticada da forma e dona de um estilo peculiar, Diane Di Prima, ao contrário do que se poderia pensar, não foi uma poeta que se tenha deixado atrapalhar pela tentação fácil da poesia de “mensagem”. Embora sua obra poética tenha claramente uma voz feminina (e não necessariamente feminista), sendo por vezes (mas nem sempre) explicitamente política e militante, ela é muito, mas muito mais, do que cada uma dessas coisas. Aliás, os poemas aqui traduzidos — Montezuma e, principalmente, Brief Wyoming Meditation — mostram que é possível escrever verdadeiros manifestos políticos emoldurados em poemas de grande beleza.

Diane Di Prima vive atualmente no norte da Califórnia e continua escrevendo, além de pintar, ensinar literatura e seguir lutando pelas causas em que acredita.

REQUIEM
I think
you’ll find
a coffin
not so good
Baby-O.
They strap you in
pretty tight

I hear
it’s cold
and worms and things
are there for selfish reasons

I think
you’ll want
to turn
onto your side
your hair
won’t like
to stay in place
forever
and your hands
won’t like it
crossed
like that

I think
your lips
won’t like it
by themselves

RÉQUIEM
eu acredito
que você não vai
achar o caixão
assim tão bom
Baby-O.
Eles te amarraram
tão apertado

eu ouço
aí é frio
e os vermes e as outras coisas
estão aí por motivos próprios

eu acredito
que você vai querer
virar de lado
seu cabelo
não deverá
ficar onde está
para sempre
e as suas mãos
não vão querer
ficar cruzadas
assim

eu acredito
que seus lábios
não gostarão disso
por eles mesmos

 

FOR ZELLA, PAINTING

1.
what are you.
thinking.
at night/these nights/night
when
(unsleeping)
the red.
the hills
where you walk.

and who could tolerate that sky.

2.
what blue is that
your eyes
your lumpy shirt

while you.
stand.
slumping in dawn light
(same blue)

and from your hands the cadmiums run, shouting.

PARA ZELLA, PINTANDO

1.
o que é você.
pensando.
à noite/nessas noites/noite
quando
(acordada)
o vermelho.
as colinas
onde você caminha.

e quem poderia tolerar aquele céu.

2.
que azul é aquele
seus olhos
sua camisa despedaçada

enquanto você.
permanece.
se desfaz na luz da manhã
(o mesmo azul)

e de suas mãos escapa o cádmio, gritando.

 

BEFORE COMPLETION
like wind, dispersing, like some huge
blood offering to the North American landscape
we are being eaten, our puny
European arts ground to powder as the Rockies
erode, the desert
spreads to the sea

ANTES DE TERMINADO
como o vento, dispersando, como alguma grande
oferenda de sangue à paisagem norte-americana
nós estamos sendo devorados, nossas
pequenas artes europeias viram pó enquanto as Rochosas
erodem, o deserto
se espalha para o mar

 

CHRONOLOGY
I loved you in October
when you hid behind your hair
and rode your shadow
in the corners of the house

and in November you invaded
filling the air
above my bed with dreams
cries for some kind of help
on my inner ear

in December I held your hands
one afternoon; the light failed
it came back on
in a dawn on a Scottish coast
you singing us ashore

now it is January, you are fading
into your double
jewels on his cape, your shadow on the snow,
you slide away on wind, the crystal air
carries your new songs in snatches thru the windows
of our sad, high, pretty rooms

CRONOLOGIA
eu te amei em outubro
quando você se ocultou atrás de seu cabelo
e conduziu sua sombra
pelos cantos da casa

e em novembro você invadiu
preenchendo o ar
acima da minha cama com sonhos
gritos por algum socorro
lá no fundo em meu ouvido

em dezembro eu segurei suas mãos
numa tarde; a luz falhou
e voltou num amanhecer na costa da Escócia
você cantando para a terra e para nós

agora é janeiro, você se dissolve
em seu duplo
joias em seu colar, a sua sombra na neve,
você desliza para longe no vento, o ar cristalino
carrega suas novas canções em soluços através das janelas
de nossos tristes, altos, lindos quartos

 

THE WINDOW
you are my bread
and the hairline
noise
of my bones
you are almost
the sea

you are not stone
or molten sound
I think
you have no hands

this kind of bird flies backward
and this love
breaks on a windowpane
where no light talks

this is not time
for crossing tongues
(the sand here
never shifts)

I think
tomorrow
turned you with his toe
and you will
shine
and shine
unspent and underground

A JANELA
você é meu pão
e o fino
ruído
dos meus ossos
você é praticamente
o mar

você não é rocha
ou som derretido
eu penso
você não tem mãos

esse tipo de passarinho voa para trás
e este amor
se quebra numa vidraça
onde nenhuma luz fala

esta não é a hora
de cruzar as línguas
(a areia aqui
nunca muda)

eu penso
amanhã
se virou para você com seu casco
e você irá
brilhar
e brilhar
escondido e sem ser consumido

 

THE YEOMAN OF THE GUARD
the simplicity of it, you said, a different universe
what we were led to expect
drinking ale from blue glass in the dark
the couch dark, too

grapes grew in clusters from the ceiling, yet
somehow the satyrs, if that’s what they were,
in the corners,
the satyrs had a decadent air
bald & lined like old fags
lurking in dull bars
if any beasts walked they were deadly

tomorrow, I said, I shall polish the floor,
make curtains
tomorrow I shall come to the door w/ my hair down
the mistress par excellence
            & offer you brandy

you shall brush my hair
like Charles Boyer in a movie
& I (like Hedy Lamarr) shall tilt back my head
& suddenly smile

O CHEFE DA GUARDA
a simplicidade disso, você disse, um universo diferente
aquilo que éramos levados a esperar
bebendo cerveja em copos azuis no escuro
o sofá escuro, também

uvas cresciam em cachos no teto, ainda
que de alguma maneira os sátiros, se é isso que eles eram,
nos cantos,
os sátiros tinham um ar decadente
carecas e oleosos como velhos exaustos
espreitando em tediosos bares
se quaisquer bestas entrassem eles estariam mortalmente

amanhã, eu disse, eu irei encerar o chão,
fazer cortinas
amanhã eu irei até a porta c/meus cabelos soltos
a amante par excellence
            & lhe oferecerei um brandy

você irá escovar meu cabelo
como Charles Boyer num filme
& eu (como Hedy Lamarr) inclinarei para trás minha cabeça
& e repentinamente sorrirei

 

BRIEF WYOMING MEDITATION
I read
Sand Creek massacre: White Antelope’s scrotum
became tobacco pouch
for Colorado Volunteer;
I see
destitute prairie: short spiny grass & dusty wind
& all for beef too expensive to eat;
I remember
at least two thirds of you voted for madman Nixon
were glad to bomb the “gooks” in their steamy jungle
&             I seek
I seek
I seek
the place where your nature meets mine,
the place where we touch

nothing lasts long
            nothing
                                    but earth
            & the mountains

BREVE MEDITAÇÃO DO WYOMING
eu leio
Massacre de Sand Creek[1]: o saco escrotal de Antílope Branco
virou bolsa de tabaco
para um Voluntário do Colorado;
eu vejo
a pradaria destituída: mato rasteiro espinhoso & vento poeirento
& tudo por bifes caros demais para se comer;
eu me lembro
pelo menos dois terços de vocês votaram no Nixon maluco
ficaram felizes em bombardear os viets na sua quente úmida floresta
&            eu busco
eu busco
eu busco
o lugar onde a sua natureza encontrará a minha,
o lugar onde nós nos tocaremos

nada dura muito
            nada
                                    apenas a terra
            & as montanhas

 

MONTEZUMA
to give it away, give it up, before they take it from us.
not to go down fighting.

the hard part comes later
to see the women taken, the young men maimed
the city
no city is built twice
the long wall down at Athens, the olive threes
five hundred years of tillage
burning. “not these but men”
i.e. mourn
not these

and yet no city is ever built again

MONTEZUMA
para se desfazer disso, desista disso, antes que tirem de nós.
para não cair lutando.

a parte difícil vem depois
em ver as mulheres roubadas, os homens mutilados
a cidade
nenhuma cidade é erguida duas vezes
o longo muro derrubado em Atenas, as oliveiras
quinhentos anos de terra lavrada
queimando. “não isto mas os homens”
i.e. velar
não isto

e, ainda, nenhuma cidade é jamais construída de novo

 

AN EXERCISE IN LOVE
for Jackson Allen

My friend wears my scarf at his waist
I give him moonstones
He gives me shell & seaweeds
He comes from a distant city & I meet him
We will plant eggplants & celery together
He waves my cloth

Many have brought the gifts
I use for his pleasure
silk, & green hills
& heron the color of dawn

My friend walks soft as a weaving on the wind
He backlights my dreams
He has built altars beside my bed
I awake in the smell of his hair & cannot remember
his name, or my own.

UM EXERCÍCIO DE AMOR
para Jackson Allen

Meu amigo tem meu xale preso a sua cintura
Eu dou a ele pedras da lua
Ele me dá conchas & algas
Ele vem de uma cidade distante & eu o encontro
Nós juntos plantaremos berinjelas e aipo
Ele agita minha roupa

Muitos trouxeram os presentes
Que eu uso para o seu prazer
seda, & colinas verdes
& garças da cor da manhã

Meu amigo caminha macio como uma trama do vento
Ele ilumina os meus sonhos
Ele construiu altares ao lado da minha cama
Eu acordo como o aroma de seu cabelo & não consigo lembrar
o seu nome, ou o meu.

 

POETICS
I have deserted my post, I cdnt hold it
rearguard/ to preserve the language/lucidity:
let the language fend for itself.
it turned over god knows enough carts in the city streets
its barricades are my nightmares

preserve the language! —there are
enough fascists &
enough socialists
on both sides
so that no one will lose this war

the language shall be my element, I plunge in
I suspect that I cannot drown
like a fat brat catfish, smug
a hoodlum fish
I move more & more gracefully
breathe it in,
success written on my mug till the fishpolice
corner me in the coral & I die

POÉTICAS
eu desertei de meu posto, eu não poderia mantê-lo
retaguarda/preservar a linguagem/lucidez:
deixe que a linguagem se defenda sozinha.
ela entregou sabe deus quantas cargas nas ruas da cidade
suas barricadas são meus pesadelos

preservem a linguagem! —existem
suficientes fascistas &
suficientes socialistas
nos dois lados
e então ninguém vai perder esta guerra

a linguagem será meu elemento, eu mergulho nela
eu suspeito que não conseguirei me afogar
como um gordo fedelho bagre, confiante
um  peixe rufião
eu me movo mais e mais delicadamente
respiro-a fundo,
o sucesso estampado na minha face até que a polícia dos peixes
me cerque no coral & eu morra

 

TASSAJARA, 1969
Even Budha is lost in this land
the immensity
takes us all with it, pulverizes & takes us in

Bodhidharma came from the west.
Coyote met him

TASSAJARA, 1969
Até mesmo Buda se perde nesta terra
a imensidão
nos carrega com ela, nos pulveriza & nos carrega para dentro dela

Bodhidharma veio do oeste.
E o Coiote o encontrou

 

 TO THE SPECTRE OF THE LECTURER, LONG DEAD
Why it shd all
come clear to me now:   betrayal
I sit here, elbows
leaning on thighs
legs spread, stomach hangs thru them
full, slightly painful
I look at
the flesh my hands are:   thinking
you probably havent aged/
at all,
I wd be ashamed
to face you:   lines
around my eyes
low breasts &, just now
bigbelly for the fifth time,    I go
over it, in this S.F. room,
big fog
coming in, grey sky, grey street, shouts
of black kids, playing late, now
8 yrs after & for the first time it come as pain
comes clear
what I walked out on
To turn one’s back on love
& walk away
like Casablanca,
I hear the roar
of your pain/ my pain that I never
touched, or acknowledged,
my hands
pressed over eyelids, hair short too
not at all
what you remember

PARA O ESPECTRO DO CONFERENCISTA, MORTO HÁ TEMPOS
Pq deveria tudo
ficar claro para mim agora:            traição
eu me sento aqui, cotovelos
apoiados em coisas
pernas abertas, estômago travado entre elas
total, com um pouco de dor
eu olho para
a carne que minhas mãos são:            pensando
você provavelmente não envelheceu/
nem um pouco,
eu ficaria envergonhada
diante de você:            linhas
em volta dos meus olhos
peitos caídos &, bem agora
um barrigão pela quinta vez,            eu
passo por isso, neste quarto em San Francisco
neblina densa
chegando, céu cinzento, rua cinzenta, gritos
de garotos negros brincando até tarde, agora
8 anos depois & pela primeira vez isso vem como dor
fica claro
por que eu saí andando
Para fazer alguém amar de novo
& ir embora
como Casablanca,
eu escuto o rugido
de sua dor/minha dor a qual nunca
toquei, ou admiti,
minhas mãos
apertadas contra as pálpebras, e também cabelo curto
de maneira alguma
o que você se lembra

 

BUDDHIST NEW YEAR SONG
I saw you in green velvet, wide full sleeves
seated in front of a fireplace, our house
made somehow more gracious, and you said
“There are stars in your hair” — it was truth I
brought down with me

to this sullen and dingy place that we must make golden
make precious and mythical somehow, it is our nature,
and it is truth, that we came here, I told you,
from other planets
where we were lords, we were sent here,
for some purpose

the golden mask I had seen before, that fitted
so beautifully over your face, did not return
nor did that face of a bull you had acquired
amid northern peoples, nomad, the Gobbi desert

I did not see those tents again, not the wagons
infinitely slow on the infinitely windy plains,
so cold, every star in the sky was a different color
the sky itself a tangled tapestry, glowing
but almost, I could see the planet from which we had come

I could not remember (then) what purpose was
but remembered the name Mahakala, in the dawn

in the dawn confronted Shiva, the cold light
revealed the “mindborn” worlds, as simply as that,
I watched then propagated, flowing out,
or, more simply, one mirror reflecting another.
then broke the mirrors, you were no longer in sight
nor any purpose, stared at this new blackness
the mindborn worlds fled, and the mind turned off:

a madness, or a beginning?

CANÇÃO DE ANO-NOVO BUDISTA
eu vi você de veludo verde, mangas longas
sentado em frente à lareira, nossa casa
de alguma maneira tornada mais bonita, e você disse
“Há estrelas em seu cabelo” — era verdade eu
as trouxe lá de cima comigo

para este lugar taciturno e sombrio que devemos tornar dourado
tornar de algum jeito precioso e mítico, é da nossa natureza,
e é verdade, eu cheguei aqui, eu lhe disse,
vindo de outros planetas
onde nós éramos os senhores, nós fomos enviados para cá,
com algum propósito

a máscara dourada que eu tinha visto antes, que se encaixou
tão lindamente sobre sua face, não voltou
nem voltou aquela cara de touro que você conseguiu
entre os povos do norte, nômades, o deserto de Gobbi

eu não vi mais aquelas tendas, nem as carroças
infinitamente lentas nas infinitamente ventosas planícies,
tão frias, cada estrela no céu tinha uma cor diferente
o céu em si uma emaranhada tapeçaria, cintilando
e quase, eu pude ver o planeta de onde nós viemos

eu não pude me lembrar (então) qual tinha sido o propósito
mas me lembrei do nome Mahakala, ao amanhecer

ao amanhecer confrontei Shiva, a luz fria
revelei os “universos da mente”, tão simples assim,
eu então as vi se propagarem, fluindo,
ou, mais simplesmente, um espelho refletindo o outro.
então quebrei os espelhos, você não mais estava ao alcance dos olhos
nem qualquer propósito, olhei para esta nova escuridão
os universos da mente se foram, e a mente desligou:

uma loucura, ou um começo?

 

 I CHING
for Cecil Taylor

:mountain & lake
the breakup
of configurations.
all the persian rugs in the world
are doing a dance,
or conversely smoke.

outside my window the hoods are shouting
about Ty Cobb
on Friday nite it was girls
& they were drunk.
But the white car stays the same
that they lean against.

I CHING
para Cecil Taylor

:montanha & lago
a quebra
de configurações.
todos os tapetes persas do mundo
estão fazendo uma dança,
ou inversamente fumaça.

do lado de fora de minha janela os garotos aos berros
falam de Ty Cobb[2]
na sexta à noite eram meninas
& elas estavam bêbadas.
Mas ainda é o mesmo carro branco
sobre o qual eles se apoiam.

 

 NOVEMBER
for John Braden

if there’s one pain that I can’t bear
it’s this pain of early parting
for our first sorrow had ended
and our first joy was just starting
and the loss that filled our bed, love
was the loss of children meeting
and the joy that filled our house
had come to stay
if you hear me where you’re wandering
then know I send you greeting
and if you’ll turn back
I’ll wait another day

but the tall grass where you wander
holds no path back to my door
and the whisper of your hair upon the wind
for the past three days has told me
I’ll be seeing you no more
and the fancy we called love has made an end

for the giant of the mountain
waits your footstep on his land
and the princess of the fountain
teaches more than I had planned
there’s a skeleton on fire
that will lead you by the hand
to the caves beyond the grasses
rising from the leaden sand
where jewels shine in the dark
and ivory boats embark
for Avalon
from which there’s no returning…

I know, like a living statue
you move with marble feet
through the towns that dot the grasses on your way
and you hide in cloak of iron
from the children on the street
and you tell yourself your flesh will warm someday

but the giant of the mountain
waits your footsteps on his land
and the princess of the fountain
teaches more than I had planned
and the tall grass where you wander
holds no path back to my door
and the whisper of your hair upon the wind
for the past three days has told me
I’ll be seeing you no more
and the fancy we called love has made an end

NOVEMBRO
para John Braden

se há uma dor que eu não consigo suportar
é  esta dor da partida precoce
porque nossa primeira tristeza havia terminado
e nossa primeira alegria estava só começando
e a perda que preencheu nossa cama, amor
era a perda de crianças se encontrando
e a alegria que preencheu nossa casa
tinha vindo para ficar
se você me escuta por aí onde está vagando
então saiba que eu lhe mando saudações
e se você se voltar para cá
eu esperarei por mais um dia

mas a grama alta por onde você vaga
não mostra o caminho de volta para minha porta
e o suspiro que o vento faz em seu cabelo
nos últimos três dias me contou
que eu não verei mais você
e a fantasia que chamávamos de amor chegou ao fim

porque o gigante da montanha
espera por suas pegadas na terra dele
e a princesa da fonte
ensina mais do que eu havia panejado
existe um esqueleto em chamas
que o conduzirá pelas mãos
para as cavernas além dos campos
erguendo-se da areia plúmbea
onde joias brilham no escuro
e barcos de marfim rumam
para Avalon
de onde não se retorna…

eu sei, como uma estátua viva
você se move com pés de mármore
através das cidades que salpicam a grama em seu caminho
e você se escondendo num manto de ferro
das crianças nas ruas
e você diz a si mesmo que sua carne se aquecerá algum dia

mas o gigante da montanha
espera por suas pegadas na terra dele
e a princesa da fonte
ensina mais do que eu havia planejado
e a grama alta por onde você vaga
não mostra um caminho de volta para a minha porta
e o suspiro que o vento faz em seu cabelo
nos últimos três dias me contou
que eu não verei mais você
e a fantasia que chamávamos de amor chegou ao fim

NOTAS
[1] O Massacre de Sand Creek foi um ataque-surpresa feito por 700 soldados da cavalaria dos EUA em 29 de novembro de 1864 contra uma aldeia na qual viviam pessoas de sete nações indígenas, principalmente Cheynne e Arapaho. O número de mortos entre os indígenas é incerto, mas acredita-se que tenha chegado a 163 pessoas (de 200 que viviam na aldeia), a maior parte mulheres e crianças. O chefe Antílope Branco estava entre os mortos, e seu saco escrotal foi arrancado por um dos oficiais do Regimento de Voluntários do Colorado para fazer uma bolsa de tabaco.
[2] Ty Cobb (1886-1961) foi um polêmico jogador norte-americano de basebol. Se por um lado ele é, até hoje, o detentor de alguns importantes recordes no esporte, por outro, ele ficou famoso por seu comportamento violento e racista.

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