Entrevistas

dezembro 2016 / Entrevistas / Dar um nome ao desejo

Texto publicado na edição #200

Dar um nome ao desejo

Em "Simpatia pelo demônio", Bernardo Carvalho trata do mal, do amor e de guerra

> Por MARCIO RENATO DOS SANTOS

Bernardo Carvalho, autor de Simpatia pelo demônio

Bernardo Carvalho, autor de Simpatia pelo demônio

A crise de um funcionário de uma agência humanitária é o que movimenta Simpatia pelo demônio, o mais recente romance de Bernardo Carvalho. O funcionário, no caso, é o personagem chamado Rato — e a narração, em terceira pessoa, apresenta principalmente o ponto de vista dele. O Rato sofre a crise da meia-idade no momento em que, após se separar da esposa, passa a se relacionar com um neurocientista mexicano apresentado como chihuahua (assim mesmo, em minúscula) que, por sua vez, mantém uma relação com um ator que, no livro, se chama Palhaço.

A exemplo do que os nomes das personagens sugerem, Simpatia pelo demônio pode ser entendido como uma fábula, mas não uma fábula clássica. “Embora não haja a rigor uma estrutura de fábula nem uma moral clara no fim do livro, a fábula foi o gênero literário com o qual eu quis dialogar nesse romance. A fábula no sentido da ficção como parábola, como ilustração não de uma tese já defendida, mas de um problema a resolver. […] O romance não é propriamente uma fábula, mas usa elementos da fábula, como os nomes e as características dos animais, para definir os personagens e dar a entender que o que está em jogo ali, apesar do realismo da forma e da escrita, não é exatamente um romance realista”, explica Carvalho, que concedeu entrevista ao Rascunho por e-mail.

Dividida em cinco capítulos, a longa narrativa apresenta, inicialmente, o Rato em uma zona de conflito, em um país do Oriente Médio em que há uma guerra civil entre facções de rebeldes e jihadistas. Em determinado momento o livro se transforma, seja porque a linguagem inicial, próxima do jornalismo, passa — então — a oferecer aos leitores análises e reflexões a respeito do relacionamento do Rato com o chihuahua. Alguns dos encontros desses personagens se dão em Berlim — cidade onde autor viveu durante um período em que foi contemplado com uma bolsa de residência literária.

Não existe o mal absoluto, isolado, individual. O mal não se vê, não se percebe. É preciso que alguém sofra o mal para reconhecê-lo.

Simpatia pelo demônio também trata do mal, e isso se evidencia a partir da relação entre o Rato e o chihuahua. O primeiro é, pelo menos profissionalmente, forte, mas se demonstra frágil ao se envolver com o segundo — é possível ler, mesmo nas entrelinhas, que um relacionamento afetivo pode ser um jogo tão complexo, e até destrutivo, como uma guerra. Carvalho observa que não existe o mal absoluto, isolado. “O mal não se vê, não se percebe. É preciso que alguém sofra o mal para reconhecê-lo”, diz o escritor, acrescentando que o chihuahua tem a ver com gente que conheceu e com histórias que ouviu de outras pessoas.

Para ter uma ideia do modus operandi do chihuahua, e de como as ações dele atingem o Rato, basta conferir um fragmento do livro, por exemplo, um parágrafo da página 184:

O chihuahua fazia o elogio mal dissimulado do autoaniquilamento, do egocídio, como tinha estudado em manuais de literatura e de filosofia contemporânea. Repetia chavões e palavras de ordem, enquanto se esmerava na autopromoção. Sua missão era uma só: destruir o ego dos outros, enquanto promovia o seu. Quanto mais egos aniquilados, melhor.

O chihuahua manipula, maltrata e suga a energia do Rato — e o impacto de suas ações é tão forte, perverso e, porque não?, demoníaco, que não é exagero associá-lo à letra de Sympathy for the Devil, canção dos Rolling Stones, em especial num fragmento que pode ser traduzido para o português da seguinte maneira: “Prazer em conhecê-lo/ Espero que adivinhem meu nome/ Mas o que está te intrigando?/ É a natureza do meu jogo”.

O livro traz, especificamente na página 181, um trecho em que se evidencia o embate entre o chihuahua e o Rato:

O chihuahua se esmerava em reconhecer expressões e gestos e seguia uma cartilha de causas e efeitos, obtendo em geral os resultados desejados. Mas, além do fato de jogar na cara do outro a própria imagem por meio desse estranho mecanismo especular de um homem que não se revela, não sente nada e é apenas reflexo, o que mais horrorizou o Rato não foi a falsidade das palavras ou a perversão especular, mas o entendimento de que o chihuahua o elegera e sobretudo a suspeita de que não reservara o mesmo papel a outras pessoas do seu círculo, e muito menos ao Palhaço. O que mais horrorizou o Rato foi a possibilidade de que, ao contrário do que havia concluído e generalizado por autodefesa, com base na própria experiência, e ao contrário de tudo o que dissera à terapeuta, o chihuahua no fundo pudesse amar. E que amasse o Palhaço de verdade. Aquela era enfim uma humilhação pessoal e intransferível.

O que está em jogo nesse romance, explica Bernardo, é uma relação claramente perversa, com a consciência e o consentimento da vítima, que de certa forma é a condição de possibilidade para que esse tipo de interação ocorra. “Acho que o que me interessava nesse aspecto era mais o Rato do que o chihuahua ou o Palhaço. Como eu disse, esses dois podem ser vistos como meras projeções ou fantasias do Rato. Nada garante que eles sejam reais, que existam realmente do jeito que ele os vê”, afirma o escritor que, a exemplo do Rato — “essa figura em princípio forte, mas que se torna absolutamente vulnerável ao longo do romance” — diz que também enfrentou dificuldade de se reinventar como homem de meia-idade “e a crise que isso acabou detonando”.

O autor de Simpatia pelo demônio acrescenta que o Rato talvez seja um personagem com o qual ninguém deseja se identificar, mas é com ele que Carvalho mais se identifica, necessariamente, nem que seja pela idade. “Foi a partir da consciência de estar no meio da vida e de entender que no meio da vida, quando o corpo, o sexo e o amor já não são como antes, você precisa se reinventar para sobreviver, que eu tive a ideia do romance.”

Foi a partir da consciência de estar no meio da vida e de entender que no meio da vida, quando o corpo, o sexo e o amor já não são como antes, você precisa se reinventar para sobreviver, que eu tive a ideia do romance.

Nesta entrevista, Carvalho também explica que o seu mais romance é formado por um texto híbrido, que mistura o aparente relato jornalístico de livro de aventura na primeira parte com um esforço ensaístico cada vez mais obsessivo conforme o Rato se encaminha para o final. Tudo isso, acrescenta o ficcionista, na tentativa desesperada de dar um nome ao desejo, para tentar escapar e sobreviver. “O livro acompanha a tentativa desesperada desse personagem de dar nome ao desejo”, ressalta o autor, entre outros, de Mongólia (2003), obra vencedora do Prêmio APCA da Associação Paulista dos Críticos de Arte em 2003 e do Prêmio Jabuti na categoria romance em 2004 — ele também conquistou o Jabuti, em 2014, com o romance Reprodução.

Ilustração: Bernardo Carvalho por Ramon Muniz

Ilustração: Bernardo Carvalho por Ramon Muniz

• O chihuahua representa o mal? Como você o elaborou? A partir de outros personagens da literatura? Caso sim, quais? Também se valeu de características de algumas pessoas?
Ele representa o mal, mas do ponto de vista do Rato, que é sua vítima. Não existe o mal absoluto, isolado, individual. O mal não se vê, não se percebe. É preciso que alguém sofra o mal para reconhecê-lo. É claro que você pode fazer mal a si mesmo, mas em geral o mal existe na relação entre no mínimo dois indivíduos, como consequência, resultado de uma ação de alguém sobre outra pessoa. O chihuahua tem a ver com gente que eu conheci e com histórias que ouvi de outras pessoas. Olhando de fora, é um personagem bastante banal e comum. Do ponto de vista do Rato, entretanto, ele corresponde a um tipo clínico que não chega a ser comum, mas tampouco é uma raridade, e que costuma ser definido como perverso narcisista. É a encarnação do demônio. Quando você dá nome às coisas, elas ficam mais simples, mais fáceis de ser entendidas e enfrentadas, mas também menos interessantes do ponto de vista romanesco e literário. Muita coisa se perde com as definições. Para mim, era importante manter o mistério próprio das relações amorosas. Queria que houvesse uma ambiguidade e uma opacidade nesse personagem, que o chihuahua, mais do que uma pessoa real, pudesse ser a projeção e a fantasia do sujeito apaixonado. É por isso que, embora a história seja narrada em terceira pessoa, esse narrador indefinido precisa estar o tempo todo colado ao Rato, compartilhando o olhar do Rato. O leitor só vê e só sabe o que o Rato vê e sabe. Poderia ser um olhar subjetivo, se não fosse um certo distanciamento irônico do narrador, que também permite ao leitor ver o Rato como um tolo, a vítima perfeita. Boa parte do livro é resultado do esforço de entendimento dele em relação a esse objeto do desejo, opaco e ambíguo, que é o chihuahua. É a tentativa desesperada de dar um nome a esse personagem, uma tentativa de defini-lo e compreendê-lo, para conseguir escapar dele. Existem muitos personagens como o chihuahua na literatura. Dois deles, em especial, me chamaram a atenção enquanto eu escrevia esse livro: o sedutor de um conto do Musil, A consumação do amor, que é citado na epígrafe da segunda parte do meu romance, e um personagem secundário, Morel, também um sedutor, que aparece em Sodoma e Gomorra, de Proust.

Aparentemente, o Rato tem maturidade, no caso, em sua atividade profissional, mas se revela frágil e inexperiente ao se relacionar com o chihuahua. Como você elaborou o Rato?
Por um lado, meu interesse por essa figura em princípio forte, mas que se torna absolutamente vulnerável ao longo do romance, teve a ver com a minha própria dificuldade de me reinventar como homem de meia-idade e a crise que isso acabou detonando. Por outro lado, ele representa um aspecto suicida do homem em geral, que me assombra desde sempre, mas que ganhou uma nova consciência quando li a definição que o Sebald dá a esse traço constitutivo da humanidade, em Os anéis de Saturno, quando ele diz que, graças ao fogo, à queima dos combustíveis fósseis, o homem ao mesmo tempo garantiu sua sobrevivência e decretou sua morte. O homem não poderia sobreviver sem o fogo, mas vai morrer de tanto queimar combustíveis fósseis. A condição de sobrevivência do homem é também o germe da sua extinção. O Rato incorpora esse paradoxo na sua relação pessoal com o chihuahua. Ele sabe que a paixão vai matá-lo, mas para ele não existe vida sem paixão. Isso está no DNA dele. Quando ele escolhe trabalhar em zonas de guerra, é como se tentasse escapar a esse destino e a essa maldição, a esse horror pessoal que o define. Tenta escapar por meio da visão e do contato com o horror dos outros, por meio da relação profissional com uma violência que não é sua, uma violência já nomeada, definida, circunscrita e exterior, e que serve durante um tempo como escudo protetor contra essa zona indefinida de risco pessoal para a qual ele sabe que não tem defesas. A crise da meia-idade, que coincide com o encontro do chihuahua, vai obrigá-lo a encarar de novo esse horror íntimo (o romance deixa em aberto a possibilidade de ele ter vislumbrado essa vulnerabilidade amorosa durante uma viagem de juventude, quando tomou a decisão de se tornar agente humanitário e trabalhar profissionalmente em zonas de conflito). De repente, no meio da vida, querendo renovar a vida com uma paixão adolescente, ele vai entrar num processo autodestrutivo, suicida, sem nunca perder a consciência do que está fazendo e do que estão fazendo com ele. Quanto mais ele tenta se afastar da morte, mais se aproxima dela. É aquela história: para viver, você tem que correr risco de vida. Há vários precedentes literários para o personagem do Rato, como o Aschenbach de Morte em Veneza. Ele sabe o que está acontecendo, mas não consegue resistir. O desejo aí é como uma pulsão de morte contra a qual a consciência não é suficiente. Não há vida sem esse desejo. É o que o Sebald diz sobre a espécie: nós temos consciência de estarmos caminhando para o precipício, mas nem assim conseguimos parar. Continuamos correndo para lá.

•  “Ora, porque um palhaço disfarça a melancolia. Mas a melancolia desponta e ele já começa a fazer graça. É melhor do que ficar com o melancólico em pessoa, não é?”, a terapeuta comenta com o Rato, a respeito do Palhaço, o companheiro do chihuahua. Poderia falar sobre o processo de composição do personagem Palhaço? Também poderia comentar sobre a personalidade dele?
Na verdade, o que mais me fascinou na ideia de incluir um palhaço nesse livro foi a figura ambígua e sinistra que, de uns tempos para cá, passou a representar a ameaça do terror por meio de uma imagem ligada à infância, que irrompe mascarada no espaço público para perpetrar atos violentos como um vírus que se disfarça para invadir e destruir uma célula. São indivíduos que se fantasiam de palhaço para produzir algum mal público, um atentado, etc. O palhaço, com sua máscara de sorriso eterno e silencioso, carrega essa ambiguidade potencial. Como é dito no livro, muito desse aspecto sinistro vem dos filmes de horror de Hollywood. O meu fascínio tinha a ver com essa figura ao mesmo tempo familiar e ameaçadora, capaz de fazer confundir o bem e o mal, o riso e o horror, o terrorismo, a violência, a piada e as fantasias de infância num único indivíduo.

• Apresentar uma ficção na qual as personagens têm nomes de animais é uma maneira de sugerir que a narrativa tem algo ou é uma fábula? Caso sim, que fábula é Simpatia pelo demônio?
A primeira parte do livro se passa num país do Oriente Médio que não é nomeado, mas pode ser facilmente reconhecível como Síria ou Líbia, um lugar em guerra civil entre diversas facções de rebeldes e jihadistas. Eu não queria que o leitor entrasse aí como num relato jornalístico, embora o texto seja muito realista e direto. Só isso não explica o nome dos personagens, mas foi um elemento que me encorajou a adotá-los. Eu queria que o leitor entrasse no livro já entendendo que, embora a linguagem fosse muito simples e realista, o que estava em jogo ali era uma perspectiva reflexiva, como numa parábola, era a apresentação de um problema. E embora não haja a rigor uma estrutura de fábula nem uma moral clara no fim do livro, a fábula foi o gênero literário com o qual eu quis dialogar nesse romance. A fábula no sentido da ficção como parábola, como ilustração não de uma tese já defendida, mas de um problema a resolver. Penso nos filmes do Rohmer, por exemplo, que não têm muito a ver com esse livro, mas que de alguma forma também brincam com provérbios para desenvolver a ficção. Então, o romance não é propriamente uma fábula, mas usa elementos da fábula, como os nomes e as características dos animais, para definir os personagens e dar a entender que o que está em jogo ali, apesar do realismo da forma e da escrita, não é exatamente um romance realista. É um texto híbrido, que mistura o aparente relato jornalístico de livro de aventura na primeira parte com um esforço ensaístico cada vez mais obsessivo conforme o Rato se encaminha para o final, na tentativa desesperada de dar um nome ao desejo, para tentar escapar e sobreviver. O livro acompanha a tentativa desesperada desse personagem de dar nome ao desejo.

O homem não poderia sobreviver sem o fogo, mas vai morrer de tanto queimar combustíveis fósseis. A condição de sobrevivência do homem é também o germe da sua extinção.

Os relacionamentos entre as personagens de Simpatia pelo demônio, pelo menos entre as centrais — Rato, chihuahua e Palhaço — se dão por meio de jogadas, táticas, manipulação, chantagens, demonstração de poder. Toda, ou quase toda, relação a dois — às vezes incluindo um terceiro [ou quarto] elementos — acontece de forma semelhante, por meio de jogadas, táticas, manipulação, chantagens, demonstração de poder?
Acho que não. Existe sempre algum tipo de poder e de vício nas relações, mas costumam ser benignos nas relações amorosas saudáveis. O que está em jogo nesse romance é uma relação claramente perversa, com a consciência e o consentimento da vítima, que de certa forma é a condição de possibilidade para que esse tipo de interação ocorra. Acho que o que me interessava nesse aspecto era mais o Rato do que o chihuahua ou o Palhaço. Como eu disse, esses dois podem ser vistos como meras projeções ou fantasias do Rato. Nada garante que eles sejam reais, que existam realmente do jeito que ele os vê. Por mais que o manipulem, eles também servem a um desejo do Rato, do qual ele vinha fugindo desde a juventude e que tem a ver com essa ambiguidade entre a vida e a morte, um aspecto suicida do desejo. Falando assim, tudo acaba ficando muito psicanalítico. É verdade que o livro tem uma perspectiva psicanalítica muito presente, mas que está mediada pela ironia, porque é uma terapeuta específica quem informa o Rato a partir do que ele lhe conta. Ela tenta lhe dar instrumentos para que ele compreenda o que está narrando. É a psicanálise, mas pelos olhos de uma terapeuta que também é personagem e que reflete sobre o que lhe diz outro personagem. Não é um discurso absoluto da psicanálise como verdade ou expressão do que pensa o autor.

Em Simpatia pelo demônio, a terapeuta do Rato explica: “Talvez seja só isso o amor, a possibilidade entre um parasita e seu hospedeiro. Não adianta querer entender”. Poderia comentar a frase, seja no contexto de sua obra literária, e também num sentido mais amplo? Isso vale para os relacionamentos de modo geral ou há casos e casos?

Acho que nunca vale generalizar o que é dito nos romances. Uma das graças do romance realista é você poder pôr frases nas bocas dos personagens sem ter que assinar embaixo, sem se comprometer. Às vezes, essas frases podem até corresponder a alguma ideia ou sentimento do autor, mas estão circunscritas àquele momento e àquele contexto. A terapeuta diz um monte de coisas ao longo do livro, e eu aproveitei para pôr na sua boca, sem me preocupar com coerência ou rigor psicanalítico, desde os lugares-comuns mais primários até coisas que eu ia lendo sobre a personalidade do perverso narcisista e que me pareciam interessantes mas que eu jamais repetiria. A frase do amor como uma relação entre parasita e hospedeiro tem algum efeito e pode até ser verdadeira, mas eu diria que está mais para o lugar-comum. O fato é que toda relação estabelece vícios que podem ser vitais ou fatais para os indivíduos envolvidos. Só depende deles.

• Na página 206 de Simpatia pelo demônio, o leitor se depara com a frase: “Toda crise é um acerto de contas entre uma promessa e uma realidade. A dos cinquenta é a primeira claramente irreversível”. O Rato enfrenta uma crise durante a narrativa, a chamada crise da meia-idade. Como você elaborou a crise da meia-idade do Rato?
Como eu disse, embora não seja um romance autobiográfico nem terapêutico, e embora o Rato seja um personagem com o qual ninguém deseja se identificar (ele cai de cabeça, como um pato, numa esparrela amorosa), é com ele que eu mais me identifico, necessariamente, nem que seja pela idade. Foi a partir da consciência de estar no meio da vida e de entender que no meio da vida, quando o corpo, o sexo e o amor já não são como antes, você precisa se reinventar para sobreviver, que eu tive a ideia do romance. Conheci gente que teve crises semelhantes aos 30 anos e que acabou se matando. Eu nunca tive crise nenhuma relacionada à idade, mas os 50 foram diferentes. Há um monte de coisas embutidas aí, mas a principal é que você tem de escolher entre se acomodar com o que já fez, administrar o que já viveu e o que já realizou, ou continuar se arriscando, correndo o risco de pôr tudo a perder. O Rato faz a opção de continuar se arriscando, continuar vivendo. E faz uma opção radical. O erro dele é entender risco e vida como reedição de uma paixão adolescente. Ele continua olhando para trás, buscando a saída no que no fundo já viveu, no que já conhece, em vez de olhar para a frente. E é claro que acaba quebrando a cara.

• “O chihuahua usava o sexo como instrumento de poder na sua relação com os homens mais velhos, não só porque, a despeito da idade, em geral era mais experiente do que eles, mas porque sabia que o sexo para eles, ao contrário da insensatez da juventude, era uma obsessão consciente.” Poderia comentar essa estratégia de sedução, de manipulação do chihuahua? Sexo é poder?
Acho que sim. A sedução é sempre uma forma de testar o seu poder, mas isso não precisa ser, necessariamente, um problema. O problema é menos o chihuahua querer exercitar seu poder de sedução do que o Rato estar disposto a cair na armadilha para continuar vivendo, como condição de vida. É isso que me interessava, essa confusão entre vida e risco de vida. É a diferença de você se apaixonar desesperadamente na adolescência e na meia-idade, como se fosse pela primeira e pela última vez. Porque aí, ao contrário da adolescência, de fato são maiores as chances de que seja a última vez. A crise se acirra com essa consciência da última chance e da irreversibilidade da perda do amor. A loucura do Rato tem a ver com esse desejo de reeditar a maior intensidade que ele conheceu (uma paixão adolescente) como se fosse da primeira vez, para provar que ainda está vivo. Ele quer fazer da meia-idade uma segunda adolescência, em vez de se reinventar de acordo com a idade que tem.

• Há várias aproximações de amor com violência no romance. Uma encenação, mencionada na obra, “sobre a violência era na verdade sobre o amor”. A profissão do Rato o aproxima da violência. Além que já está apresentado em seu livro, poderia falar sobre os pontos de contato entre amor e violência?
No caso do Rato, como eu disse, a opção por trabalhar com uma violência nomeada, nas guerras, nas zonas de conflito, serviu para afastá-lo e protegê-lo de uma violência não nomeada com a qual ele não saberia lidar e para a qual não tem defesas. Essa violência e essa vulnerabilidade íntimas têm a ver com a estrutura amorosa do Rato. Como o narrador segue o ponto de vista do Rato, a relação entre amor e violência, embora aludida, permanece indefinida, como um ponto cego, pairando como um fantasma ao longo de todo o livro. É como se não só o chihuahua e o Palhaço, mas todo o mundo descrito no romance pudesse ser uma projeção dos fantasmas do Rato. Esse é o mistério da personalidade dele, uma relação entre amor e violência que ele não consegue nomear e que só se manifesta por alusões e menções aproximativas ou por distorções da realidade que ele enxerga. Por outro lado, do ponto de vista coletivo, social, o fato recente de indivíduos perpetrarem, com o respaldo ou a desculpa do discurso fanático da religião, ataques terroristas contra grupos de jovens que se divertem numa sexta à noite em Paris ou gays numa boate na Flórida, aponta para uma relação óbvia entre violência e frustração íntima, sexual e amorosa. O prazer do outro passa a ser insuportável, porque revela a frustração pessoal de quem fica de fora, de quem está excluído. Isso também tem a ver, de certo modo, com a crise da meia-idade e a perda de uma experiência amorosa vital que o sujeito continua a ver entre os jovens, agora como falta, como aquilo que ele perdeu.

• “Berlim se convertera numa Disneylândia para adultos depois da queda do Muro. Tudo era possível, experimentar todas as drogas, todos os tipos de sexo, andar à noite, em qualquer lugar, por mais ermo que fosse, sem a realidade do perigo. Berlim era o frio no estômago, sem consequências.” Por que ambientar, uma parte significativa do romance, em Berlim?
Primeiro, porque partes do livro, antes mesmo de eu saber que escreveria esse romance, foram concebidas e escritas lá, como fragmentos. Ganhei uma bolsa de residência literária em 2011 e vivi um pouco mais de um ano em Berlim. As cenas de teatro incorporadas no livro, por exemplo, foram escritas lá, quando eu ainda achava que eram parte de peças de teatro de verdade. Ao longo do caminho, as coisas foram mudando e essas cenas entraram no romance como espetáculos encenados pelo Palhaço. Foi em Berlim também que eu tomei contato pela primeira vez com essa história, que à primeira vista pode parecer um absurdo, fruto da mais desvairada imaginação, de um projeto de pesquisa em neurociência para converter o mal em bem por meio da força do olhar. É numa pesquisa semelhante que o chihuahua trabalha. Em segundo lugar, porque Berlim é esse lugar aparentemente neutro, onde todas as fantasias são possíveis. Era o cenário ideal onde projetar a paixão do Rato pelo chihuahua. É uma cidade com uma cena teatral muito forte e isso também era importante no romance. Há muitas referências ao teatro. Não é fortuito que o encontro entre os dois protagonistas aconteça na antessala de um teatro. Em Berlim, quando ainda não tinha consciência do romance, escrevi trechos que depois incorporei ao livro, como as peças de teatro. E depois, numa nova residência, em Bruxelas, quando já sabia exatamente o que queria fazer com aquilo tudo, com as histórias e as anotações que eu tinha acumulado ao longo da crise, esbocei a narrativa tal qual ela acabou ficando.

• Quando escreveu Simpatia pelo demônio?
Foi aí que eu comecei a dar uma ordem narrativa mais sistemática a esses fragmentos. Eu cheguei à forma final depois de quebrar o pé e precisar ficar com o pé imobilizado durante três meses. Aproveitei esse tempo para me concentrar numa primeira versão do romance. Depois disso, ainda houve muita edição. Com sugestões dos meus editores na Companhia das Letras e de uma amiga, acabei cortando 20% do livro.

• Na página 23 de Simpatia pelo demônio podemos ler: “É possível visitar o horror alheio e sair ileso, mas ninguém escapa ao próprio horror”. Vivos, e sobrevivendo, seguindo, então, estamos condenados ao horror?
A frase diz respeito à experiência do Rato na guerra. Ela expressa aquela característica da personalidade do Rato da qual eu vinha falando, de não conseguir lidar com um ponto cego que o deixa vulnerável para uma experiência não nomeada com o mundo. Ele se refugia na guerra, no trabalho humanitário, como uma forma de evitar outra ameaça (maior, para ele pelo menos) que no caso tem a ver com a vida amorosa, para a qual ele sabe não ter defesas. É como o Super-homem, capaz de enfrentar todo tipo de inimigos, mas totalmente indefeso quando entra em contato com a kriptonita. Eu acho que todo mundo tem alguma forma de ponto fraco, todo mundo é vulnerável a algum tipo de experiência. É a esse horror que a frase alude.

O fato é que toda relação estabelece vícios que podem ser vitais ou fatais para os indivíduos envolvidos. Só depende deles.

Bernardo Carvalho

• Como você elaborou a sequência narrativa na qual o Rato viaja em uma missão até se ver diante de uma situação-limite? Situação apresentada sinteticamente: “Um homem estava sentado no chão, trêmulo, com a cabeça empapada de suor, as mãos segurando uma das pernas ensanguentada, o tronco coberto de explosivos”.
Escrevi o romance na ordem dos capítulos e essa cena acontece no fim da primeira parte. Escrevi essa cena antes da história de amor propriamente dita, embora já soubesse que essa primeira parte era só um preâmbulo e que a alma do livro estava no confronto e na relação entre o Rato e o chihuahua. A primeira parte situa o Rato no mundo, profissionalmente. Ao mesmo tempo, já é uma missão suicida, que ele só recebe e só aceita, porque já está completamente alterado depois de sua experiência com o chihuahua. Por um lado, é uma missão suicida, mas por outro é a única estratégia que ele conhece para tentar se livrar da armadilha na qual caiu. Ele volta para a guerra para tentar esquecer, mas aí depara com a figura do homem-bomba, do suicida, que de algum jeito é ele mesmo, uma espécie de espelho. A única coisa que eu tinha na cabeça em relação a essa cena era um texto do Conrad, que me persegue há anos e que é citado numa passagem do Nove noites. Chama-se O companheiro secreto (The secret sharer) e trata do duplo, de um jovem capitão que acolhe um desconhecido em sua cabine, um desconhecido que só ele vê e que passa a vestir suas roupas e a comer sua comida. E por quem ele vai arriscar a vida, o destino do próprio navio que ele comanda, contra todo o bom senso. Eu tinha pensado nesse homem-bomba como um companheiro secreto que ninguém mais vê além do Rato e que o Rato acolhe em seu quarto de hotel, como um duplo, a quem ele vai narrar o que lhe aconteceu, sua história com o chihuahua, e que vai acabar vestindo suas roupas.

• A frase “Sempre que precisar de uma sombra, pode contar a minha”, uma das epígrafes, de Malcolm Lowry (À sombra do vulcão), seria uma das chaves do seu romance?
A frase remete tanto à vítima como ao duplo. Ela dá conta do desejo do Rato. O livro do Lowry é uma dessas monstruosidades maravilhosas que acontecem de vez em quando na literatura. Foi um livro que se confundiu com a vida e a autodestruição dele. Ele passou anos escrevendo o romance. E o protagonista, o cônsul, também afunda num processo suicida, desencadeado pela bebida e pela frustração amorosa, na meia-idade. Foi um livro que eu reli pouco antes de começar o Simpatia pelo demônio e que me eletrizou. Um pequeno diálogo em espanhol no final do meu romance (que não dá para reproduzir aqui, por razões de compostura, mas que me faz rir muito cada vez que o releio) veio como um eco da citação de dimensões bíblicas que encerra o romance do Lowry: “Le gusta este jardín? Que es suyo? Evite que sus hijos lo destruyan!”.

• Reprodução (2013), a sua obra anterior, trata do mal-estar do nosso tempo, a partir das possibilidades sombrias das redes sociais, da mesma maneira que Simpatia pelo demônio também problematiza o mal-estar contemporâneo. E o próximo livro? Já pode falar algo a respeito?
Prefiro não falar por enquanto. Se eu falar antes de escrever, escrever perde o sentido. Mas posso adiantar que tem a ver com uma retomada de coisas que foram esboçadas no Nove noites, com a relação com o pai.

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Simpatia pelo demônio
Bernardo Carvalho
Companhia das Letras
236 págs.

 

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