Simetrias dissonantes

fevereiro 2019 / Simetrias dissonantes / Convite à convergência (final)

Texto publicado na edição #226

Convite à convergência (final)

As diferenças entre ficção fantástica, científica e sobrenatural

> Por NELSON DE OLIVEIRA

Ilustração: Teo Adorno

Ilustração: Teo Adorno

Ficção fantástica.
Ficção científica.
Ficção sobrenatural.

Essas três ficções se realizam principalmente no plano do enredo, ou seja, no plano do conteúdo (assunto).

Na ficção fantástica, na ficção científica e na ficção sobrenatural a subversão das leis da natureza é sempre o centro do conflito, que por sua vez é o centro do enredo.

E aqui surge o problema clássico da literatura contemporânea e de toda a Estética: o atrito entre conteúdo e forma.

Minha maior crítica à ficção erudita realista (chamada também de mainstream) aponta a pobreza de conteúdo em textos que potencializam a forma literária. Só escapam desse lugar-comum umas poucas obras-primas do gênero fantástico.

Minha maior crítica à ficção de massa (chamada também de entretenimento) aponta a pobreza formal em textos que veiculam conteúdos fascinantes. Também só escapam desse lugar-comum umas poucas obras-primas, justamente a mínima exceção que confirma a regra.

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Exemplo. Uma gritante diferença formal: ao longo do século 20, a ficção erudita criou um cardápio com oito tipos de narrador:

  1. Narrador em primeira pessoa protagonista
  2. Narrador em primeira pessoa coadjuvante
  3. Narrador em segunda pessoa
  4. Narrador em terceira pessoa onisciente discreto ou neutro
  5. Narrador em terceira pessoa onisciente intruso ou intrometido
  6. Narrador em terceira pessoa onisciente polifônico ou em transe
  7. Modo dramático
  8. Narrador-montador

No entanto, a ficção científica e a ficção sobrenatural ainda insistem em trabalhar apenas com dois tipos, exatamente os mais convencionais:

  1. Narrador em primeira pessoa protagonista
  2. Narrador em terceira pessoa onisciente discreto ou neutro

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Outra gritante diferença formal: a linguagem literária.

A ficção erudita não trabalha apenas com o discurso direto e o discurso indireto, mais convencionais. Ela também trabalha com a fragmentação discursiva, o discurso indireto livre, os neologismos e a sintaxe estrábica, o monólogo interior e o fluxo de consciência.

No entanto, a ficção científica e a ficção sobrenatural ainda insistem em trabalhar apenas com os maçantes discurso direto e discurso indireto.

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Seja escrevendo ficção fantástica ou ficção científica, reafirmo, em minha literatura eu tento ficar com o melhor dos dois mundos: conteúdos incomuns numa forma incomum.

Esse meu constante interesse pela forma e pelo conteúdo raros, quase sempre excêntricos, surgiu de minha admiração antiga pela obra iconoclasta dos artistas e escritores mais rebeldes e transgressores.

Sempre fui apaixonado pelo impressionismo.
Também aprecio muito o simbolismo.
A lista é grande:
Cubismo.
Expressionismo.
Dodecafonismo.
Dadaísmo.
Surrealismo (minha vanguarda artística predileta).
Modernismo de 22.
Música eletroacústica.
Concretismo.
Minimalismo.
OuLiPo.

Sempre me interessou e influenciou qualquer ismo que bagunçasse o equilíbrio e a harmonia da tradição clássica na arte e na literatura.

Os escritores de ficção sobrenatural e ficção científica contemporâneos produziriam obras muito mais interessantes se aprendessem com essas vanguardas artísticas e literárias a fugir do lugar-comum formal, a expressar seus conteúdos fascinantes numa forma mais sofisticada.

Já os escritores de ficção erudita realista, que dominam há bastante tempo o rico cardápio de possibilidades formais, produziriam obras muito mais interessantes se aprendessem com as obras-primas da ficção fantástica, da ficção científica e da ficção sobrenatural a fugir dos enredos triviais e maçantes, a expressar conteúdos menos banais na forma sofisticada que já estão acostumados a praticar.

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Uma das ilusões do mainstream:

Não sei se foi um sábio ou um estúpido quem afirmou que “na arte e na literatura de qualidade a forma é mais importante do que o conteúdo”.

A afirmação é estúpida, disso eu tenho certeza. Mas às vezes até os mais sábios soltam um ou dois disparates de grosso calibre.

(Parece que foi Immanuel Kant o primeiro formalista a incentivar esse disparate.)

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Os grandes teóricos da estética — entre eles meu mentor, o italiano Luigi Pareyson — alertam que conteúdo e forma são instâncias coincidentes e inseparáveis numa obra de arte.

São elementos que nascem juntos, sendo impossível falar em conteúdo sem falar em forma, e vice-versa.

Perfeitíssimo. Quem sou eu pra discordar?!

Mas em minha defesa eu posso dizer que — na contramão do que faz Luigi Pareyson em Os problemas da estética — empreguei nesta breve reflexão a palavra conteúdo como sinônimo de assunto.

Uma licença poética.

Apenas uma separação didática.

Pra facilitar um pouco minha vida.

Ou então podemos considerar que a inseparabilidade de conteúdo e forma é somente um de dois estados possíveis e antagônicos. Fenômeno quântico semelhante ao do gato morto e vivo de Schrödinger, conteúdo e forma são separáveis e inseparáveis ao mesmo tempo.

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A representação realista da realidade é uma bola de ferro.

Uma bola de ferro de cem toneladas, com uma corrente.

O tornozelo de noventa e nove vírgula noventa e nove por cento da literatura brasileira sempre esteve preso a essa bola de ferro.

A bola de ferro pode ser azul, verde, vermelha, fúcsia, prateada, dourada, não importa: ela continua sendo uma bola de ferro de cem toneladas.

Escritores medíocres mal conseguem arrastá-la.

Escritores geniais fazem embaixadinha com ela, dão piruetas, surfam, praticam pesca submarina, saltam de paraquedas, mandam bem em todos os estilos de dança. Mas ainda assim estão com a bola de ferro presa ao tornozelo.

O que estou propondo é que mais escritores se libertem dessa bola de ferro.

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