Paiol Literário

novembro 2018 / Paiol Literário / Cíntia Moscovich

Texto publicado na edição #223

Cíntia Moscovich

“Tenho plena convicção de que as pessoas têm que ler para se construir. Para ser gente.”

> Por PAIOL LITERÁRIO

Fotos: Guilherme Pupo

Fotos: Guilherme Pupo.

Cíntia Moscovich foi a quinta convidada da temporada 2018 do Paiol Literário — projeto do Rascunho, com patrocínio da Caixa Econômica Federal, apoio da Fundação Cultural de Curitiba e do hotel Centro Europeu. O bate-papo aconteceu em 2 de outubro, no Teatro Paiol, em Curitiba (PR), com mediação do jornalista e escritor Rogério Pereira.

Gaúcha de Porto Alegre, Cíntia Moscovich nasceu em 1958. Antes de estrear na ficção com os contos de O reino das cebolas, em 1996, passou vários anos trabalhando como jornalista. “A literatura era um vago sonho, uma quimera distante para a qual eu tinha de abanar e dar tchau”, diz a autora de Duas iguais — Manual de amores e equívocos assemelhados (novela, 1998) e Anotações durante o incêndio (contos, 2000), ambos vencedores do Prêmio Açorianos de Literatura.

Ao frequentar a oficina de criação literária do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUCRS, Cíntia assimilou os mecanismos desse ofício: “Quando o cara falou em ação, pimba!, caiu a ficha”. A partir disso, publicou contos e romances com consistência, além de participar de várias antologias nacionais e estrangeiras. Com seu livro mais recente, Essa coisa brilhante que é a chuva (contos, 2012), venceu o Prêmio Portugal Telecom de Literatura e o Prêmio Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional.

Na conversa a seguir, Cíntia discute, entre outros assuntos, a importância da ficção em sua formação (“a literatura sempre serviu para eu ser eu”), fala sobre a dificuldade e o ridículo do câncer que operou há 10 anos, do rótulo de “escritora judia” e deixa um aviso aos escritores de primeira viagem: “Afeto é péssimo conselheiro literário”.

• Ler para ser gente
A literatura é o troço mais inútil que existe. Não tem utilidade nenhuma. Do ponto de vista prático, não é igual a uma cadeira: tu faz uma cadeira, a pessoa senta nela. Ou, então, tu fabrica um sabonete e a pessoa lava as mãos, toma banho. Um livro, tu lê porque lê. Ou lê em busca de instrução, entretenimento. Pelo prazer da leitura. Tenho plena convicção de que as pessoas têm que ler para se construir. Para ser gente. Era uma crença que o meu pai tinha. Meu pai, como filho de imigrantes, de gente que veio fugida das perseguições religiosas na Rússia, chegou aqui com uma mão na frente e outra atrás, e assim viveu durante muito tempo. O que ele tinha para nos dar, para os três filhos, era uma biblioteca. Ele instalou uma biblioteca e, em torno dela, uma casa. Dizia o seguinte: “Se a gente tiver que fugir desse país, como tivemos que fugir da Rússia, ao menos vocês podem fugir com uma fortuna portátil. Vocês têm condições de armazenar conhecimento, de ter uma coisa por dentro, e reiniciar a vida em qualquer lugar”. Não entendi muito a princípio, mas hoje em dia dá para entender plenamente. Ele queria que a gente fosse gente, que tivesse estofo. Queria esse recheio de humanidade. De autonomia. Meu pai tinha ideais muito elevados acerca de como queria os filhos. A literatura sempre serviu para eu ser eu. As pessoas devem ler para que sejam elas mesmas, com autonomia de pensar, escolher. Meu pai dizia assim: “Ninguém vai mandar em ti. Tu tem que ter autonomia pra fazer tuas próprias escolhas, e tu vai fazer o teu caminho”. Judeu é foda, né? A gente não gosta de ter patrão. A leitura era uma maneira de eu ter autonomia, de ninguém mandar em mim. Se alguém perguntar: por que tenho que ler? Para ninguém mandar em ti.

• Prazer da leitura
A leitura é uma coisa que me move em todos os sentidos. Busco primeiro o prazer, esse prazer que só um leitor conhece, o prazer completo. Sensorial. Lendo um texto, consigo me transportar em termos sensoriais — gosto, olfato, tato, visão, audição. Gosto de textos que convoquem todos os sentimentos. Gosto de textos complexos que me fazem participar. Quando abro um texto, procuro ser incluída. Que aquilo me faça participar. E que seja esteticamente bonito, com uma boa história. Adoro boas histórias.

• Confronto inicial
A gente se preparava para o vestibular, era hora de escolher a carreira. Para variar, fui confrontada. Tinha um desejo familiar de que os filhos fossem ou advogados, ou médicos, para que ganhássemos muito dinheiro. Medicina, direito, engenharia e arquitetura, para todo mundo, eram carreiras promissoras. Comecei a me sentir confrontada. Falei para o meu pai: “O negócio é o seguinte: quero ser jornalista”; “Quero ser jornalista e professora de literatura”. Foi então que me apossei da coisa. Escolhi. Ainda mais que ele me disse: “Não, senhora. Não paguei todos esses anos de colégio para você escolher essas carreiras que vão te deixar miserável”. Aí mesmo que me apossei da coisa, que decidi ser jornalista e professora.

• Literatura e jornalismo
O grande embate sempre foi o que fazer com a literatura dentro do jornal. São duas coisas que realmente parecem não se afinar. E não se afinam mesmo. A única paz que encontrava era quando eu podia, e ainda posso, fazer resenhas de livros de ficção. São duas coisas que parecem ser muito parecidas, mas não são irmãs em nada. Jornalismo e literatura estão cada uma num barco, se abanam distantemente e vão se afastando. Não se aproximam. Trabalhei em várias editorias, porque tinha sempre problema de pessoal, e era ainda pior quando tinha que ir à polícia ou cobrir o Big Brother Brasil. A literatura era um vago sonho, uma quimera distante para a qual eu tinha de abanar e dar tchau.

• Primeiros passos
Queria ser escritora, mas não sabia como. Ninguém sabe como vai fazer. Tinha faculdade de jornalismo, então “bom, vou lá aprender a ser jornalista”. Na faculdade de letras, “bom, vou lá aprender a ser professora”. Agora, como é que tu vai ser escritor? Não tinha a mínima ideia. Mas eu fazia poesia. Cento e vinte entre 90 autores começam com poesia. É muito comum. Desde 8, 9 anos queria ser poeta. Só que tinha o seguinte: como era boa leitora, sabia o que era um bom ou um mau poema. Eu era péssima como poeta. Aquilo me saía com facilidade, era um negócio assim: “amor” com “flor”, “Brasil” com “varonil”. Eu lia aquele troço e tinha vontade de cometer suicídio. Tu intensamente quer uma coisa, quer realizar alguma coisa esteticamente, e a tua mão não corresponde. É um divórcio entre a tua ação e o teu pensamento. Chegaram a me premiar em poesia, e sempre me achei um claro embuste. Não queria ir à premiação, na primeira vez que me premiaram. Não queria receber aquele troço. Eu fazia terapia naquela época. O psiquiatra me falou: “Tu tá maluca”. Falei: “Bom, eu estou aqui por quê?!”. Estou falando com um pouco de graça, mas era muito doloroso. Desejava ardentemente fazer aquilo, e tinha noção exata do meu fracasso. Claro que fui à premiação. Mas sabe quando o cara, na última hora, se dá conta de que não é dele o prêmio, que todos se enganaram? Eu tinha essa sensação. Foi quando, aos 35 anos, uma amiga veio com um recorte de jornal e disse: “Cíntia, olha aqui, tem essa oficina de criação literária na PUC, e lá eles ensinam a fazer prosa, contos”. Parei com a poesia — que nunca me levou a lugar nenhum, muito pelo contrário — e tentei fazer prosa de ficção.

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“Jornalismo e literatura estão cada uma num barco — se abanam distantemente e vão se afastando.”

• Compreendendo a ficção
Até os 35 anos eu era ótima leitora de romance, conto, mas nunca me ocorreu fazer prosa de ficção. A ideia de produzir literatura se limitava às tragédias que perpetrava com poesia. Estava sempre fazendo poesia, buscando o significado da palavra. Quando entrei na oficina de criação literária do [Luiz Antonio de] Assis Brasil, que vai para 33 anos de funcionamento ininterrupto, a primeira coisa que ele disse foi o seguinte: “Interessa para a gente a ação, o movimento. O personagem se desloca, o personagem senta, abre a geladeira, abre isso, abre aquilo. Nesse movimento que mora a narrativa”. Não sei dizer como é que foi essa compreensão, mas foi um insight. A coisa devia estar há muito tempo querendo sair de mim. Foi essa a compreensão de como é que as coisas se davam que me fez escrever. Até então, teatro, cinema, eram narrativas que eu acompanhava, mas de forma distante. A partir daquele momento que ele falou em ação, em movimento do personagem, me fez um sentido absurdo e pude, então, escrever. Me lembro que escrevi de cara um conto, intuitivamente, atendendo às características do gênero. Ele entrou na sala de aula meio absurdado, éramos 15, e balbuciou: “Tu é uma escritora”. Me lembro de ter olhado para trás para ver com quem ele estava falando. Foi no segundo ou terceiro dia de aula. Mas claro, fazia 30 e poucos anos que eu estava buscando sentido na coisa. Quando o cara falou em ação, pimba!, caiu a ficha. Aí só fui para frente. Queria tanto aquilo.

• Em busca da perfeição
Quero escrever aquilo que gostaria de ler. Quero fazer uma coisa absolutamente perfeita. Isso acho que é um depoimento que todos os autores vão dar. Quando a gente começa a escrever, que tu começa a mirar uma coisa que vai dar uma história — conto, romance ou mesmo poesia, o mais difícil dos gêneros —, tu sempre busca a realização daquela coisa que é boa, que é bonita. Tu quer fazer uma coisa maravilhosa. Se tu fosse ler aquilo, sendo de outra pessoa, aquilo ia te encantar. O que busco ao escrever, e graças a Deus nunca consegui, é algo tão perfeito que me tocasse até o fundo. Me comovesse. Me movesse. Que troço mais pirado, né? Completamente. Mas é isso, um sentimento de que tu quer fazer uma coisa absolutamente perfeita. Como não é possível, tu é sempre motivado a fazer, a tentar.

• Literatura contemporânea
Acho uma produção meio errática. Errática no sentido de que não se pode falar de forma geral sobre ela, sob pena de cometer grandes pecados. Sempre procuro, embora não consiga, me manter atualizada em relação à produção atual. Vários autores me pedem que eu faça orelha, prefácio. Consigo, mais ou menos, estar ombreada com os lançamentos. Alguns autores me chamam muito a atenção. Estou lendo Com armas sonolentas, da Carola Saavedra, e gostando muito. Estou encantada com a literatura dela.

• Desafios
Tenho uma oficina de criação literária, e uma das questões que a gente procura solucionar é esta: como tu consegue seduzir, cooptar alguém para a leitura? Como é que tu consegue seduzir um adolescente para ler? Não tenho a mínima ideia. A leitura te convoca — esse termo é legal, “convoca” — tão completamente, em termos de sentidos, que acho é difícil um menino de 12 ou 13 anos conseguir se entregar ao que ela exige. É complicado. Vou explicar. O teu maior rival hoje em dia é uma merdinha como o celular, ou o iPad, ou uma Smart TV. São coisas que se movimentam, que têm cor. Daqui a pouco vai ter cheiro. É inegável o atrativo que exercem sobre a gente. Filme-catástrofe, por exemplo, eu adoro. Comprei um home theater para ver filme-catástrofe. Vou dizer para as crianças que não vejam aquilo? Como? Vão se divertir. É essa a competição. Quando uma pessoa lê um texto, o que ela faz é a coisa mais difícil: tem que criar uma imagem mental das coisas. A capacidade de abstração que é exigida de um ser humano diante de um texto escrito é a máxima possível. Tem que imaginar personagens se mexendo, atirando, o outro lá sangrando. Tem que imaginar o cheiro da cozinha, do mofo. Tem que ter estofo para formar imagem mental do que lê. Entre um trocinho que te dá pronta a coisa e tu formar a imagem mental, evidente que a gente — por preguiça, por inércia — vai buscar o mais fácil.

• Competição desleal
A competição é desleal [entre as facilidades da tecnologia e a leitura]. Agora, realmente tem uma questão de educação. Não sei como estão vocês aqui, mas, lá no Rio Grande do Sul, a gente tem lutado pelo seguinte: não só para formar público leitor, mas para formar plateia. As pessoas de repente se desacostumaram a assistir peças de teatro, a ir ao cinema, ouvir concertos, ler. As pessoas não sabem mais apreciar qualquer coisa. O público fica inquieto. Uma matéria me inquietou: o QI das pessoas tem caído. Na última década, caiu de 10 a 12 pontos. As pessoas estão mais burras. Quer dizer que não é impressão minha. Está lá, é um estudo científico. No momento que tu passa a exigir menos do teu cérebro, é evidente. Porra. Tudo que não é usado…

• Oficinas literárias
Logo que comecei com a oficina de criação literária, enfrentava um anátema, uma acusação muito séria de que as oficinas em geral — e naquela época existia a do Assis Brasil, no Sul, e a do [Raimundo] Carrero, no Nordeste — padronizavam toda a produção dos alunos. Todo mundo passa a escrever igual ao ministrante. Não tem nada a ver com isso. A oficina é uma máquina de destruir sonhos. Ela frustra. Noventa e cinco por cento dos autores que chegam lá saem frustrados. Descobrem que não vão ser autores na segunda aula. Mas saem ótimos leitores. Se tu perguntasse para um arquiteto por que ele fez escola de arquitetura, ele vai te responder que queria aprender. A arte, sem a ciência, não é nada. Tem que ter os mecanismos para poder produzir. Fiz a minha oficina porque o Assis Brasil tem sempre um excedente — 120 alunos o procuram por ano, ele consegue atender 15. Vi esse nicho, estava precisando de grana. Tem um cara que está fazendo oficina comigo, e chegou lá pronto. É um autor brilhante. De tanto ler, sabe escrever. Ele precisa da oficina para quê? Para guiá-lo. “Vai por aqui, não vai por ali. Cuida o eco, cuida a assonância. Olha o tempo, olha o ritmo.” É isso que a oficina ensina. Encurta um trabalhão que tu teria se fosse sozinho, solitário. É para isso que serve a oficina.

• Escritora judia
Não que eu quisesse que ficasse marcado, mas ficou [ser de origem judaica]. Isso é uma coisa que pensei a posteriori. Como usei o universo judaico para compor a literatura, e usei o universo judaico porque é um universo muito rico, folclórico, divertido, assim como são folclóricos e divertidos os universos das famílias árabes, italianas, alemãs — cada povo, cada sistema tem o seu folclore. Tem a sua mãe judia. Por usar isso, que me era mais familiar, fiquei marcada como a escritora judia. Agora que perdemos o [Moacyr] Scliar, o que pediriam a ele, pedem para mim. Respondo por isso, “a escritora judia”. Acho divertido porque a gente tem um folclore muito rico. Dá para explorar, e todo mundo se identifica.

“Os teus demônios têm que conversar com os demônios do leitor.”

• Rotina avacalhada
Quando comecei a escrever, tinha uma rotina mais definida. Mas era muito punk. Eram umas dez horas por dia entre leitura e escrita. Não consegui manter. A coisa foi ficando, como diria o Assis Brasil, avacalhada. Mais relaxada. Escrevo nas horas que dá para escrever. Ao longo dos anos, esse sistema de trabalho ficou muito mais dedicado a ler do que a escrever. Tenho lido muito mais do que escrito. Se me sobra tempo, rabisco alguma coisa. Cada vez mais me sinto menos estimulada a escrever. Tenho lido coisas tão boas. Estou voltando para as leituras iniciais da minha vida — [Isaac Bashevis] Singer, [Italo] Calvino, [Jorge Luis] Borges. Fico fascinada com aquilo. Vou escrever o quê, né?

• Hipocondria
Sou uma hipocondríaca clássica. Não é que vou espirrar agora e já estar com tuberculose. Me interesso pelo funcionamento do corpo humano. Quase fui médica. Só não fui por causa do sangue. Tenho fascínio por doenças — como elas funcionam, como o organismo se defende. Eu era louca por biologia. Esse negócio do organismo vivo é troço de maluco. Sou fascinada por isso. Tenho muitas plantas em casa, bichos, cachorros. Quando falha o organismo vivo, para mim parece que Deus errou. Isso é uma prepotência de autor: corrigir Deus. A hipocondria tem um pouco disso, o temor de que Deus falhe logo contigo, e tu vai te ralar e vai morrer. Mas não é uma coisa que me mobiliza. É uma curiosidade muito sadia para quem é escritor. Muito sadia. Várias páginas pude escrever, e ensinar, e corrigir alunos, por causa da hipocondria.

• Câncer
Tenho tentado [escrever sobre o câncer]. No dia 8 de setembro fez 10 anos que me operei. Foi um câncer de amídala com metástase nos linfonodos. Tive que tirar a amídala e toda a cadeia de linfonodos. Foi quimioterapia, radioterapia, aquelas coisas todas. É um dos tratamentos mais punks, o de câncer de pescoço e garganta. Seca a saliva, queima a língua. Eu era fumante. Segundo o médico que me atendeu, o câncer foi por causa do tabagismo. Foi um troço demolidor. Até hoje, passados 10 anos, sinto os refluxos do tratamento, da doença, do padecimento que foi. De ver todo mundo a minha voltado apavorado. Talvez isso tenha sido o mais penoso. O mais complicado é ver todo mundo apavorado, com medo que tu vai morrer. É um negócio que não dá para explicar. Tento escrever sobre isso há anos. Escrevo e apago. Escrevo e apago. Sempre me parece ou piegas demais, ou uma autoajuda barata e baixa, ou parece que não estou levando a sério a doença. Parece que estou fazendo alguma coisa errada. Não cheguei ainda ao ponto que pudesse escrever sobre o câncer. Quero fazer um romance sobre o câncer, sobre a palhaçada e a dor da doença. Ela tem facetas impressionantemente ridículas.

• Demônio interior
As pessoas têm vários demônios. Mas o escritor tem que tratar com muito mais liberdade seus demônios. Deixar que eles atuem com muito mais liberdade. Por exemplo, esse rapaz que é um médico superconceituado, casado, com três filhos, começou a escrever um romance homossexual. É absolutamente fantástico. O guri está pronto, mas tem receio. O problema é que tu não vai escrever mais nada se começar a se autocensurar. Tem que tratar com liberdade teus demônios. A criação é o lugar de maior liberdade. Teus demônios têm que circular com toda a liberdade do mundo. Os teus demônios têm que conversar com os demônios do leitor. Sou povoada por uma enormidade de diabinhos. Mas, pelo que tenho visto em 60 anos de vida, todo mundo tem uma legião de diabos dentro de si. Muito maiores do que os meus, inclusive. Chega a dar inveja.

• Romance ou conto?
O romance dá mais trabalho. Tenho a tendência sempre de consista, de contenção, de apostar muito no subentendido. E o romance pede que tu te desdobre — trama paralela, trama acessória, vários personagens. Volta e meia, crio personagem e o esqueço. Tenho que ter um organograma para ele voltar. Preciso dele de vez em quando. Tu não pode usar um personagem acessório só como bengala, porque fica muito evidente o truque. Tu tem que fazer com que ele entre na narrativa de forma sistêmica. Acho o romance muito mais complicado do que o conto.

• Concepção do romance
O maior segredo para escrever um romance é ler muito. Depois, cada autor segue uma técnica. Tem autor que faz um planejamento, como se fosse fazer um roteiro. Fazem um roteiro genérico, depois um roteiro das várias cenas que vão escrever, depois cada cena mencionada é decupada, desdobrada em cenas outras. Tem gente que não sabe como o livro vai começar nem acabar. Que escreve de forma intuitiva. O que acontece, daí, é que tu fica esquecendo personagem pelo caminho. Cada um tem um sistema. O Erico Verissimo fazia mapas, plantas baixas dos lugares por onde se movimentavam os personagens. Gosto muito da planta baixa, até para conto. Cada um descobre uma maneira de fazer. Não tem receita.

Curitiba, Parana, Brasil, 02 de outubro de 2018.                   Legenda:  A escritora gaúcha Cíntia Moscovich no Paiol Literário.                   Foto: Guilherme Pupo

“Afeto é péssimo conselheiro literário.”

• Liberdade criativa
Se eu escrevo coisas que meu pai gostaria de ler? Acho que não. O pai faleceu aos 56 anos de idade, eu tinha 20. Muito precocemente. Só fiquei com minha mãe. A primeira história que escrevi era de duas meninas, homossexualidade. Hoje, o pessoal da área LGBT diz que fui precursora ao escrever sobre isso. Nem sabia. Minha mãe quase teve um troço: “Como é que tu vai escrever sobre isso? O que é isso?”. Eu digo: “É ficção, mãe. Não tem nada a ver comigo. Quem conta é um narrador”. Ela saiu, foi chorar no quarto. Quando voltou, disse: “Se vai seguir essa carreira, nunca vou ler essas putarias que tu escreve”. A mãe nunca leu um livro meu. O que me deu uma liberdade tremenda. Imagino que o pai fosse me censurar barbaramente, muito embora cada livro que lanço deixo no túmulo dele. Realmente é o terreno em que mais sou livre. É ali que tem que ser. Prefiro pensar que ele seria igual minha mãe e não leria as putarias que escrevo.

• Inspiração
Esse negócio de inspiração não funciona muito. Sinto muito avisar, mas não funciona. Depois que te ocorre uma ideia, e não estou falando só de mim mas de 100% das pessoas que se dedicam a escrever, tu para e a partir dali tem que trabalhar. Aquele clichê sobre a criação ser 1% de inspiração e 99% de transpiração é a mais pura verdade. Não deixa de ser verdade por ser clichê. Ser tomado por uma Musa, isso não existe. Tem gente que até toma um vinho antes de escrever. Eu tenho que estar absolutamente sóbria. Quanto mais desperta e consciente estiver, melhor.

• Oralidade e escrita
Tem uma coisa que é preciso saber, e saber muito bem sabido: a gente usa uma região do cérebro específica quando conversa, um registro de linguagem específico, um padrão de comunicação que não é, em absoluto, o mesmo que se usa quando se está escrevendo. É uma outra área do cérebro, outro padrão linguístico, outro padrão de comunicação. Dificilmente, mas dificilmente mesmo, vou usar a palavra “troço” em literatura, por exemplo. Por quê? Porque sempre quando estou escrevendo faço o inverso do que faço falando. Na escrita, a linguagem tem que ser super, hiper, mega cuidada e tem que ter uma precisão absurda. Quando tu escreve, teu registro obrigatoriamente tem que ter a palavra que corresponda com eficiência e precisão à ideia que tu quer transmitir.

• Observação do mundo
Vou ao mercado e tem uma senhora que me chama atenção. Eu sigo a senhora. Não vou esfaquear ela. Tu percebe que ela pode sintetizar, sei lá, uma senhora humilde. Como é que observando ela tu pode descrever, montar um personagem? Como é o gesto da pessoa, como ela caminha, para, de onde é que ela tira o dinheiro para pagar a comida? São coisas que paro para ver. Uma ida ao supermercado demora às vezes duas horas. Vou buscar leite e fico. É um negócio meio doido. Observação do mundo é isso aí.

• Prazer de escrever
Várias vezes me ocorre: “Para onde é que vou levar isso?”. Tenho dois sentimentos, o do conto e o do romance. Esses dois sentimentos precedem o ato escrito. Sei o que vou fazer. Como é que vou acabar, várias vezes não sei. Quando não consigo acabar, volto para o início. Só consigo avançar quando está bonitinho o início. Mas várias vezes sentei sem saber como ia acabar, só pelo prazer de escrever.

• Leitores cativos
Afeto é péssimo conselheiro literário. O familiar sempre vai achar que está bom, lindo, maravilhoso. E, na verdade, não tem nada disso. Tu tem que procurar quem vai te massacrar. Para achar bom, bonito, vão ter 30 mil. Para te ajudar a achar defeito tem três ou quatro. Eu tenho meus leitores cativos de sempre. Nada sai para a rua sem que esses leitores passem os olhos. Nada, nada. São bem pouquinhos. Tu tem que eleger alguém da tua confiança plena, que possa te xingar. Para te elogiar, há um mundo de gente. Depois tu vai passar vergonha na rua, porque não tiveram coragem de dizer que estava ruim.

• Autocrítica
Gosto do ritmo que consigo imprimir às frases. É uma coisa que tenho orgulho. E tem o que me desagrada. Às vezes, tenho uma tendência ao barroquismo, ao excesso. Isso é uma coisa que me irrita profundamente — em mim e muito nos outros. Minha tendência, ao longo do tempo, tem sido cortar. Limar. Me tornar mais essencial.

• Ponto final
Nem eu, nem nenhum dos meus colegas, sabem quando está pronto [um trabalho literário]. A gente fica cansado. Tu desiste. Ou tu desiste, ou teu editor fica incomodando, ou teu agente, ou a própria vida te chama. É muito difícil dar por finda alguma coisa, completar alguma coisa. O Dalton Trevisan tem 45 edições de um livro — tem 45 revisões, 45 versões diferentes do mesmo livro. O Sergio Faraco tem a mesma neurose. É uma neurose sadia, tanto quanto a hipocondria. Sempre tem o que melhorar. E isso é outra coisa unânime: sempre que tu vai escrever, tu dá para o leitor o melhor possível. O melhor. E sempre pode melhorar. Não é por outro motivo que eu escrevo, escrevo, escrevo — ainda mais agora — e nunca me satisfaço. Sei que sempre posso fazer melhor.

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