Dom Casmurro

julho 2017 / Dom Casmurro / Chantal Maillard

Texto publicado na edição #207

Chantal Maillard

Três poemas de Chantal Maillard

> Por ADRIANA LISBOA

Chantal Maillard, autora de Lógica borrosa

Chantal Maillard, autora de Lógica borrosa

Tradução: Adriana Lisboa

No existe el infinito:
el infinito es la sorpresa de los límites.
Alguien constata su impotencia
y luego la prolonga más allá de la imagen, en la idea,
y nace el infinito.
El infinito es el dolor
de la razón que asalta nuestro cuerpo.
No existe el infinito, pero sí el instante:
abierto, atemporal, intenso, dilatado, sólido;
en él un gesto se hace eterno.
Un gesto es un trayecto y una trayectoria,
un estuario, un delta de cuerpos que confluyen,
más que trayecto un punto, un estallido,
un gesto no es inicio ni término de nada,
no hay voluntad en el gesto, sino impacto;
un gesto no se hace: acontece.
Y cuando algo acontece no hay escapatoria:
toda mirada tiene lugar en el destello,
toda voz es un signo, toda palabra forma
parte del mismo texto.

Não existe o infinito:
o infinito é a surpresa dos limites.
Alguém constata sua impotência
e logo a prolonga para além da imagem, na ideia,
e nasce o infinito.
O infinito é a dor
da razão que assalta nosso corpo.
Não existe o infinito, mas sim o instante:
aberto, atemporal, intenso, dilatado, sólido;
nele, um gesto se faz eterno.
Um gesto é um trajeto e uma encruzilhada,
um estuário, um delta de corpos que confluem,
mais que trajeto um ponto, um estalido,
um gesto não é início nem fim de nada,
não há vontade no gesto, somente impacto;
um gesto não se faz: acontece.
E quando algo acontece, não há escapatória:
todo olhar tem lugar num lampejo,
toda voz é um signo, toda palavra forma
parte do mesmo texto.

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Para que algo acontezca no basta un accidente,
no es suficiente un muerto,
ni dos, ni dos millones.
Un acontecimiento es un olor que espera
que alguien lo respire,
una herida que aguarda encarnarse,
el agua de un torrente
inundando los poros,
una mirada que cruza el aire
y encuentra a alguien que le hace señas
y en la seña, en ella, se reconoce.
Uno puede negarse al acontecimiento
y convertir su historia en un simple resumen
de lo ocurrido, pasos que no devienen cruce
y se apagan en vida, o se secan.
Uno puede negarse a saberse en el otro,
basta con acercarse a todo con un walkman
conectado a la carne,
enfundado el cerebro en aquella sustancia
impermeable que nos inmuniza,
basta con refugiarse en un desmayo a tiempo,
en el deseo de amar, u ocultarse
en la furia o el número de una cuenta bancaria.
De hecho, lo más frecuente es
que llevemos cosida el alma a su forro
como los trajes nuevos sus bolsillos,
para evitar que se deformen
por el peso.

Para que algo aconteça não basta um acidente,
não é suficiente um morto,
nem dois, nem dois milhões.
Um acontecimento é um odor que espera
que alguém o respire,
uma ferida que aguarda encarnar-se,
a água de uma torrente
inundando os poros,
um olhar que cruza o ar
e encontra alguém que lhe acena
e no aceno, ali mesmo, se reconhece.
É possível negar-se ao acontecimento
e converter sua história em simples resumo
do ocorrido, passos que não se tornam travessia
e se apagam em vida, ou secam.
É possível negar-se a saber que se está no outro,
basta aproximar-se de tudo com um walkman
conectado à carne,
fundido o cérebro naquela substância
impermeável que nos imuniza,
basta refugiar-se num desmaio oportuno,
no desejo de amar, ou ocultar-se
na fúria ou no número de uma conta bancária.
De fato, o mais frequente é
que levemos cosida a alma a seu forro,
como as roupas novas seus bolsos,
para evitar que se deformem
com o peso.

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Yo no soy inocente. ¿Lo es
usted?
La realidad está aquí,
desplegada. Lo real acontece
en lo abierto. Infinito. Incomparable.
Pero el ansia de repetirnos
instaura las verdades.
Toda verdad repite lo inefable,
toda idea desmiente lo-que-ocurre.
Pero las construimos
por miedo a contemplar la enorme trama
de aquello que acontece en cada instante:
todo lo que acontece se desborda
y no estamos seguros del refugio.

Bien pensado, es posible que Platón
no sea responsable de la historia:
delegamos con gusto, por miedo o por pereza,
lo que más nos importa.

Não sou inocente. Você é?
A realidade está aqui,
desdobrada. O real acontece
no aberto. Infinito. Incomparável.
Mas a ânsia de nos repetir
instaura as verdades.
Toda verdade repete o inefável,
toda ideia desmente o-que-ocorre.
Mas construímo-nas
por medo de contemplar a enorme trama
daquilo que acontece em cada instante:
tudo o que acontece transborda
e não estamos seguros do refúgio.

Pensando bem, é possível que Platão
não seja responsável pela história:
delegamos com prazer, por medo ou preguiça
o que mais nos importa.

Chantal Maillard
Nascida em Bruxelas e naturalizada espanhola, a poeta, ensaísta e tradutora Chantal Maillard é doutora em filosofia e professora titular de estética e teoria da arte na Universidade de Málaga. Especializou-se em filosofia e religião hindu em Benares. Como poeta publicou, entre outros, os livros Semillas para un cuerpo (1987), Hainuwele (1990, Prêmio Ricardo Molina), Poemas a mi muerte (1994, Prêmio Santa Cruz de La Palma), Lógica borrosa (2002) e Matar a Platón (2004, Prêmio Nacional de Literatura, do qual foram selecionados estes poemas).

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