Entrevistas

outubro 2017 / Entrevistas / Caçadora de coincidências

Texto publicado na edição #210

Caçadora de coincidências

Noemi Jaffe comenta sobre "Não está mais aqui quem falou" e a influência da Bíblia em sua obra

> Por MARCIO RENATO DOS SANTOS

Noemi Jaffe, autora de Não está mais aqui quem falou.

Noemi Jaffe, autora de Não está mais aqui quem falou.

Não está mais aqui quem falou, o mais recente livro de Noemi Jaffe, reúne 40 textos, todos com ponto de contato devido à linguagem fluente, enxuta e direta. No entanto, seis deles destoam dos demais devido à maneira como são apresentados.

Um deles é Com gás ou sem, formado por indagações que, de acordo com a autora, contou com a colaboração de mais de 200 mulheres via redes sociais. Eis um fragmento: “Uma mulher sonha em ficar rica? Entrar para um clube de nudismo? Quando ela sentir uma dor na barriga, será câncer? […] O amor de uma mulher por outra é o mais lindo do mundo? Mulheres juntas só ficam falando mal dos outros, sentem inveja, disputam tudo?”.

Outro exemplo de texto com narração fragmentada, ou com tópicos, é Movimento hipotético de desorientação, em que são apresentados 26 itens, por exemplo: “3) As aparências não enganam. 22) Existem almoços grátis. 25) A dor e a alegria não são paralelas.”.

Estes dois textos, somados a E, dirigindo-se a Adão, falou, Veja bem, Recuar também pode ser uma forma de avançar e Dentre as coisas que eu não sei o que são, causam um impacto absolutamente diferente dos demais, principalmente em relação a Sobre meu ombro.

Neste caso, a voz narrativa parte de uma questão — a lógica (ou a falta de lógica) da memória — para recuperar situações em que conviveu com o seu pai. São inúmeros os momentos revisitados, não em formato de lista, se bem que os episódios são apresentados em sequência, mas por meio de uma prosa cálida, densa e tocante:

lembro de sua camisa para fora da calça; da coca-cola que ele bebia inteira, direto do gargalo da garrafa, num único gole, e que eu olhava admirada e invejosa; do sorvete Ki-Show que nós comíamos juntos e escondidos de minha mãe no boteco da esquina de casa; da linguiça que devorávamos na rua São Bento, ele que não podia comer carne de porco; do elástico de borracha que envolvia o maço de dinheiro que ele guardava no bolso lateral da calça de tergal; do caranguejo de plástico que ele comprava no centro da cidade e punha sem ninguém ver no sofá de casa para que, quando eu voltasse da escola, sem dar pela coisa, me assustasse e eu na verdade não me assustava, mas fingia que sim para agradá-lo.

Em Não está mais aqui quem falou, há narrativas que dialogam com a Bíblia, seja a partir de temas, nomes de personagens e até pela utilização de 40 textos, número repetido em textos do Antigo testamento. Além disso, também acontece uma conversa com o legado de Jorge Luis Borges, quando a autora parte de dados reais e, borgeanamente, promove um encontro (que na realidade não aconteceu) entre Rubem Braga e Marguerite Duras, em Como o de um menino. Noemi Jaffe ainda dialoga com Clarice Lispector, em O que vou fazer eu?, ao se apropriar do conto Amor, para o qual propõe e escreve um novo desfecho.

As narrativas borram a fronteira entre os gêneros e tendem a dificultar a situação de quem estiver decidido a definir um texto, que pode ser conto, crônica memorialística, uma lista ou prosa poética. A partir destas possibilidades fluidas e fluentes, Noemi se permite tratar de questões variadas, por exemplo, discutir a pertinência e/ou desgaste da frase “eu te amo”, que aparece em dois momentos do livro, eu te amo e <3 <3 <3.

A entrevista que segue, realizada por e-mail entre o final de agosto e o início de setembro, tratou exclusivamente de Não está mais aqui quem falou, sem mencionar outras obras da autora, por exemplo A verdadeira história do alfabeto (prêmio Brasília de Literatura) e Írisz: as orquídeas (finalista do Prêmio São Paulo de Literatura).

A escritora, crítica literária e doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP) comentou questões presentes no livro recém-publicado, como a coincidência e, neste caso, definiu o narrador, o escritor, como alguém que enxerga histórias onde os outros não as veem: “um escritor é um caçador de coincidências”.

• A Bíblia é um dos livros com os quais você mais dialoga em Não está mais aqui quem falou. Por quê?
Sim, é verdade. A Bíblia é um dos livros com os quais eu mais dialogo na vida. Sou judia e tive uma educação judaica e hebraica, frequentando uma escola onde eu falava hebraico todos os dias, tanto quanto o português. Lá eu também tinha aulas de Torá (o primeiro testamento) e lia todas as histórias na língua original, além de sempre comemorar as festas principais. Essas histórias me impressionavam muito, seja pela beleza, pela universalidade e, algumas vezes, também pela injustiça. Muitas vezes me flagrei perguntando: por que Deus exigiu de Abrão, para confirmar sua fé, o sacrifício de seu único filho? Que espécie de insegurança o faz exigir provas de seu fiel mais importante? Por que a mulher de Lot (que, aliás não tem nome), sofre a ameaça de se transformar numa estátua de sal só pelo fato de olhar para trás? E, por outro lado, a fé, para mim, é uma das questões mais importantes da vida. Nunca sei se acredito ou não (o que, para mim, é sinal de que acredito) e, em todos os meus livros, estou sempre dando um jeito de colocar as personagens às voltas com isso.

• O legado de Jorge Luis Borges é outro diálogo direto, por exemplo em Uma coisa, e indireto nas linhas e nas entrelinhas de Não está mais aqui quem falou. Você é borgeana?
Não gosto muito deste termo: “borgeana”. Não sou especialista na obra de Borges, mas apenas apaixonada pela sua obra. Penso que Borges criou uma linguagem e um pensamento sobre a literatura e a arte. São histórias em que prevalece a ideia de que, pelas palavras, é possível recuperar alguma unidade linguística e anímica perdida pelo tempo e pelo mau uso que fazemos delas. De alguma forma, em seus textos, as coisas se re-conectam, se interligam pela via dos objetos: “labirintos, espelhos, punhais”, das palavras “aleph, tlon, funes” e do pensamento “eterno retorno, heráclito, schopenhauer”. Dessa forma, o real e o imaginário deixam de estar em âmbitos separados e passam a se relacionar reciprocamente, como deveria ser permanentemente. Adoro suas brincadeiras lógicas, seus truques bibliográficos, suas ilusões nas datas, nomes e citações. Ele engana o acadêmico obsessivo, o caçador de verdades.

• Em O que vou fazer eu?, há um diálogo com o conto Amor, de Clarice Lispector. O legado dela também aparece direta e indiretamente em outros momentos de Não está mais aqui quem falou. Você é clariceana?
Da mesma forma como respondi sobre Borges, penso o mesmo sobre a palavra “clariceana”. Acho que este adjetivo já “mata” um pouco o amor que sinto por ambos autores. Clarice Lispector é um patrimônio da literatura brasileira e mundial; é algo único, que ocorre muito raramente na história e acredito que ela venha a ser tão valorizada, no futuro, quanto Virginia Woolf e Katherine Mansfield, por exemplo. Uma mulher e autora muito à frente de seu tempo, sobre quem ainda vamos descobrir muitas coisas. Me identifico demais com ela (eu e a torcida do Corinthians!). Com seu adensamento, sua capacidade absurda de combinar palavras inesperadas (“ângulo quente”), sua forma de penetrar a psicologia das personagens sem jamais ser psicologizante, sua construção de cenas, sua forma de problematizar a mulher burguesa de meia-idade. Clarice inventa pessoas que existem, é maravilhoso.

• Com gás ou sem é um texto formado por perguntas. Considera o texto, as questões ali apresentadas, um espelho do nosso tempo?
Sem dúvida. Como o texto é resultado da contribuição de mais de 200 mulheres que enviaram perguntas pelo Facebook, penso que ele é um espelho do momento atual, ao menos para a classe social dessas mulheres (classe média), mas acredito que para outras classes sociais muitas das questões também sejam válidas, com maior ou menor intensidade. Uma das perguntas que mais se repetiu era: “por que tanto medo de nós?”. E é um fato: mulheres são perseguidas, violadas, agredidas, humilhadas, diminuídas, em todos os ambientes que frequentam, de formas mais ou menos sutis (e o pior é que, quando há muita sutileza, a tendência é de negar a presença do machismo). Isso só pode querer dizer que o medo é muito grande, porque já há muito tempo se sabe que nós só agredimos e perseguimos aquilo que tememos.

• Um dos personagens de eu te amo poderia morrer ouvindo eu te amo, mas não viver escutando a frase. A implicância com a frase retorna em outro texto, <3 <3 <3. A expressão se desgastou? Mesmo? Será? Por quê?
Embora a frase “eu te amo” apareça nos dois textos, seu significado em cada um deles é completamente diferente. No primeiro “eu te amo”, não há implicância alguma. Pelo contrário, nele, esta frase tão repetida é a mais bela que pode existir. E o fato de a personagem repeti-la tanto e incessantemente, acredito que recupere o valor de seu significado. Trata-se de uma história de amor irrealizado, embora o amor, aí, exista com muita força. Mas as circunstâncias da vida impedem que o casal possa cumprir o amor que sentem um pelo outro e isso é, infelizmente, muito comum. No segundo caso, a frase “eu te amo” é tratada com ironia, no sentido de que as redes sociais tendem a deturpar e hiper interpretar o significado isolado das palavras, fazendo com que uma coisa muito simples, como “eu te amo”, se torne uma frase praticamente impronunciável. Nesse texto, a personagem não admite o uso das palavras “eu”, “te” e “amo”, ideologizando todas elas e anulando, com isso, a fluência e a naturalidade do discurso. É uma crítica às redes e não à frase, compreende?

• Além do que já está em L de lá, o que mais você tem a dizer sobre “lá”?
“Lá” é um advérbio que se desdobrou em inúmeras expressões em português, como “sei lá”, “lá vou eu”, “até lá” e muitas outras, adquirindo, em cada uma delas, significados um pouco misteriosos. Tenho a impressão de que lá é um lugar entre inexistente e inalcançável, um lugar utópico, um não-lugar. E como sou muito ligada a formas de se expressar, a nuances estilísticas da fala e da escrita, fico prestando atenção nesses pequenos índices da conversa e do cotidiano. São fontes inesgotáveis para a escrita e para entender as especificidades da língua e da cultura.

• Em Curvas, encontramos a frase: “Gosto de curiosidades esdrúxulas”. É você afirmando ou uma voz narrativa? Caso seja você, Noemi Jaffe, onde encontra/localiza tais curiosidades, inclusive a do texto: o interesse de Einstein por Caymmi? Ou o interesse é uma estratégia borgeana? O encontro de Rubem Braga com Marguerite Duras aconteceu ou é também uma criação à la Borges, a exemplo do que lemos em Como o de um menino?
Somos eu e a voz narrativa afirmando isso ao mesmo tempo. Nesse caso, é claro, trata-se de uma afirmação autobiográfica, que coincide com a da personagem. Eu localizo essas curiosidades em todos os lugares: nas conversas das pessoas na rua, nos bares, no ônibus; nas leituras que faço; nos textos que corrijo. Estou o tempo todo atrás de marcas específicas da linguagem e da literatura. Cada pessoa, muitas vezes sem nem mesmo se dar conta, tem uma forma exclusiva de falar, que vai adquirindo conforme sua experiência, sua história, sua origem. Gosto de destacar essas coisas e de tentar entendê-las. Leio também muitos dicionários etimológicos, podcasts sobre palavras e expressões, mesmo de outras línguas e fico comparando. No twitter, posto uma etimologia por dia. Sobre os encontros desse livro, Einstein e Caymmi, Marguerite Duras e Rubem Braga, além de Isaac Dinesen e Marylin Monroe e Manuel Bandeira e Samuel Beckett, é uma espécie de desejo meu de que essas pessoas tivessem se conhecido, como se eu pudesse ser uma super-heroína da história, organizando conexões que, eu tenho certeza, teriam sido criativas e benéficas para ambas as pessoas e mesmo para a humanidade. O encontro entre Isaac Dinesen e Marylin Monroe de fato ocorreu, mas não a história que é narrada no conto. Gosto muito de misturar verdade e ficção, porque acho que não existe tanta diferença assim entre elas. Estamos vivendo um momento da história brasileira em que o que se chama de verdade — aquilo que aparece nos jornais — é inacreditavelmente absurdo, nenhum escritor conseguiria inventar uma ficção tão estapafúrdia quanto essa que a assim chamada realidade está nos propondo. Tenho certeza de que a ficção tem muito mais a nos dizer sobre o real do que a imprensa, por exemplo.

• Em Isso, está escrito: “uma maçã é também um ovo”. E ainda: “Um ovo e uma maçã são o lastro de resistência do mundo”. Poderia comentar as frases, ainda mais pelo fato de que ovo e maçã estão na capa de Não está mais aqui quem falou?
Como o conto Isso começa fazendo um levantamento daquilo que faz de um ovo um ser essencial da natureza e da vida, num determinado momento digo que uma maçã, por ser também um alimento básico e ancestral, também poderia ser um ovo, ou como um ovo. Por outro lado, desde uma da epígrafes do livro, que diz que “o dever do cavalo é botar um ovo”, gostaria de propor que as coisas não são nunca somente elas mesmas; elas se prestam a serem muitas outras, a se transformarem sempre e mais ainda na ficção, que tem o poder de fazer as coisas serem o que elas não são. Quanto ao lastro, é muito pelo fato de que o ovo e a maçã são alimentos completos, ancestrais, redondos e belos em sua integridade e cor. São como uma reserva de verdade e beleza em que podemos nos inspirar. É por isso também que eles estão na capa.

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Mulheres são perseguidas, violadas, agredidas, humilhadas, diminuídas, em todos os ambientes que frequentam, de formas mais ou menos sutis (e o pior é que, quando há muita sutileza, a tendência é de negar a presença do machismo).

• A exemplo do que é possível ler em Uma lembrança, escrever é uma maneira de deixar rastros até para um eventual tataraneto que ainda nem tem previsão de surgir?
O tratamento do tempo é umas das maiores dificuldades da literatura e da escrita em geral. Como passar, para um regime de sucessão (a escrita), toda a carga de simultaneidade, instantaneidade e, mais importante, de duração, que tem o nosso tempo vivencial? São vários recursos que permitem, no texto, brincar com o tempo e distorcer a ilusão de linearidade. Uma das coisas que tentei foi contar sobre o futuro como se ele fosse passado. Isso porque, na imaginação, muitas vezes isso acontece; sentimos algo que vislumbramos no futuro como se ele já tivesse acontecido, de tanto que a experiência parece real. Mas concordo com sua interpretação. Acho que escrever é sim deixar rastros, formar rastros, formar o passado.

• Eles se refere a um pet sem mencionar o nome. É isso? Caso sim, a respeito de que ser o texto trata?
Não gosto muito do termo “pet”. Não é um “pet”; é um cachorro, o que, para mim, é muito diferente. Eu me inspirei muito na minha cachorra querida, a Samba, mas, na verdade, penso que poderia ser qualquer cachorro. Amo bichos e, sobretudo, cachorros e tenho certeza de que eles sabem e sentem muito mais coisas do que as que atribuímos a eles. Por isso quis fazer um texto em primeira pessoa na voz de um cachorro.

• Em Uma coberta, uma manta, lemos a afirmação: “Hospedar é o gesto mais sagrado da humanidade”, além de outra frase similar: “Hospedar é trazer para dentro o que vem de fora,é tornar menos estranho o estrangeiro”. O que mais você pode comentar sobre as afirmações, sobretudo no contexto em que estamos, 2017, em que há hostilidade a estrangeiros, por exemplo, na Europa e também fora da Europa, ao norte do continente americano?
Sim, acredito que hospedar é a principal característica do ser social. Levinas, filósofo de que gosto muito, diz que a hospitalidade é ainda mais importante do que a liberdade, porque a hospitalidade é o acolhimento do outro, independentemente de quem seja. É ela que marca o início e cuja falta está marcando o fim da civilização. O enraizamento, o nacionalismo, o individualismo são os valores que inibem a hospitalidade, que acentuam o preconceito e a incompreensão do outro, do diferente. É isso o que vem ocorrendo, cada dia com mais força e é contra isso que devemos lutar, organizando novas formas e expressões de acolhimento e generosidade.

• Em O beijo, a voz narrativa declara: “O que definitivamente distingue o animal humano dos outros animais é o beijo”. Poderia justificar e/ou comentar a afirmação?
É mais uma brincadeira e tem a ver com a resposta à questão anterior. Beijar é uma construção tipicamente humana e que, na minha opinião, contém uma inutilidade generosa. Por que beijamos? Não nos bastamos com esfregar o focinho, como fazem algumas animais. Queremos mais. Estalar os lábios na bochecha, na mão, na boca de outra pessoa, de forma inexplicável e prazerosa. É isso o que está faltando ao ser humano.

• No breve texto da página 132, há algumas considerações, entre elas: “ficar também pode ser uma forma de ir”. A partir desta e das outras frases do texto, gostaria de saber: perguntar também é uma forma de responder?
Sim, claro. Assim como uma maçã é um ovo; como o futuro está no passado, ficar pode ser uma maneira de avançarmos. Para fazer algo, não é preciso o tempo todo ir adiante, nessa febre de “para a frente e para cima”. Muitas vezes é preciso parar, silenciar para que as coisas caminhem. No judaísmo há uma tradição de responder a cada pergunta com outra pergunta; é um tipo de desafio, brincadeira, ironia e autoironia. Nem tudo tem resposta. É muito bom ficar com uma pergunta no ar.

• O que este livro representa em sua trajetória de escritora?
Como disse o Joca Reiners Terron, é um livro transgênero. Um livro sem definições fixas, sem compromissos rígidos, talvez o livro mais livre que tenha escrito até agora.

• Você decidiu fazer um livro reunindo 40 textos ou começou a escrever e, em algum momento, se deu conta de que tinha um livro?
Sim, foi exatamente isso. Fui escrevendo freneticamente, quase que todos os dias, durante vários meses e queria que fosse um livro. Só não sabia que seriam 40. Mas eles foram se chamando uns aos outros, como uma corda que vai puxando outras cordas.

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Como sou muito ligada a formas de se expressar, a nuances estilísticas da fala e da escrita, fico prestando atenção nesses pequenos índices da conversa e do cotidiano.

• O título surgiu antes, durante ou após a realização, a escrita, dos 40 textos? Em tempo: durante quanto tempo produziu estes 40 textos?
Surgiu depois. Originalmente, minha ideia de título era Uma maçã é também um ovo mas, com o tempo, a editora e eu fomos mudando de ideia e quando surgiu esse título nós duas gostamos. O livro foi escrito bem rápido, em apenas cinco meses.

• Em Uma espécie de benção, texto que problematiza, entre outros temas, a tradução, há uma frase: “A construção da Torre de Babel durou quarenta e três anos”. Não está mais aqui quem falou tem 40 textos e três epígrafes: 43 itens. É uma coincidência o texto citar os 43 anos da construção da Torre de Babel e este livro seu, que dialoga com a Bíblia, apresentar 43 itens, 43 pontos de partida?
Adorei essa coincidência, da qual não tinha me dado conta! O que será que o número 43 representa? Olho aqui num site de numerologia e encontro a seguinte definição: “O 43, por sua raiz 7, maneja as coisas do espírito, as ciências e o intelecto. Conjuga a disciplina com a expressão. Relaciona-se com grandes levantamentos populares, revoluções sociais”. Quem sabe esse livro não seja um disparo para a revolução? (Estou brincando, evidentemente).

• Você acredita em coincidência?
Acredito, é claro e, sinceramente, não acho que seja uma questão de fé. Elas estão aí o tempo todo: co-incidir é uma incidência simultânea de acontecimentos e isso é a própria vida e o tempo. Acontece que, para que entre estes dois acontecimentos díspares haja uma lógica, é preciso um elemento intermediário, alguém que sirva de ponte, que esteja interessado em estabelecer nexos causais entre as coisas que estão o tempo todo co-incidindo. Esse alguém, muitas vezes, é um narrador, um escritor, definido justamente como a pessoa que enxerga histórias onde os outros não as veem. Um escritor é um caçador de coincidências.

• Tudo está nas palavras, inclusive eu e você?
Sim! “Eu” e “você” são, somos palavras, além e junto de sermos pessoas. Nada escapa da linguagem, somos seres linguísticos, para o bem e para o mal. Precisamos saber usar, brincar, dançar com as palavras, sermos seus sujeitos e não seus objetos, para que essa prisão se transforme em liberdade. A literatura está aí para isso.

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Não está mais aqui quem falou
Noemi Jaffe
Companhia das Letras
144 págs.

 

 

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