Dom Casmurro

junho 2016 / Dom Casmurro / Cabo de guerra

Texto publicado na edição #193

Cabo de guerra

Trecho do novo romance de Ivone Benedetti

> Por IVONE BENEDETTI

Ilustração: FP Rodrigues

Ilustração: FP Rodrigues

Frequentava outras reuniões além das do coronel. Não muitas. Os atos de apoio que me incumbiam eram simples, como aquele da entrega da pasta, que me marcou tanto, talvez por ter sido o primeiro. De resto, eram recados em pontos ou panfletagens à noite por bairros adormecidos. Daquela tarefa da igreja lembro sempre com vago malquerer, certa vergonha desenxabida. Entrar numa igreja em plena missa era reentrar no útero católico que me encapsulava mansamente na infância. Entrar feito fingido fiel, cometendo um ato ilegal, era uma traição. Pode ser razão suficiente para ter marcado: sentimento de culpa, fácil explicar. Fico nisso, não aprofundo. Porque não saberia justificar o tremor que ainda sou capaz de sentir quando lembro o canto que aquelas mulheres soltavam da garganta como quem solta pombos de gaiolas, voo canoro, forma de se dependurar do céu pela voz. Aquele adejo para o altíssimo teve em mim o peso do chumbo. Calou. Pode até ser certo sentimento de culpa. Mas um sentimento difuso, externo a mim, sombra que vela meu sono. Lembrança do medo que senti também pesa. De qualquer modo, nada que eu possa entender facilmente. Talvez seja uma coisa que eu só conseguiria compartilhar com minha irmã, se isso fosse possível.

Não faça nada que possa lhe dar arrependimento um dia, dizia meu pai. Culpa e medo. Passo boa parte do tempo em torno das coisas que se desfiam nessas palavras. Não poucas. Um novelo de atos. Eu, metódico por natureza, não posso permitir que ele se emaranhe. Na infância, guardava os lápis de cor enfileirados, do mais escuro ao mais claro, do mais vivo ao mais suave. Desarranjo, só no uso. Na caixa, ordenados em tons e meios-tons. Este é o momento da caixa.

Naquele ano de 1969 eu tinha perdido o respaldo do Rodolfo. No ano anterior, quando se falava de táticas de combate à ditadura, eu lia cartilhas marxista-leninistas, assistia a discussões sobre guerrilha urbana e rural, teoria do foco, ouvia falar mal de Stalin, bem de Lenin, exaltava-se Guevara, execravam Mao uns, outros o glorificavam, e Rodolfo ao meu lado era o ponto de referência. Quando eu não entendia, buscava seus conselhos; quando desconfiava, seu olhar. Isso enquanto se chamava Rodolfo, porque um ano depois trocou o verdadeiro nome pelo de guerra e os lugares conhecidos pelos ignorados. Tinha desaparecido do meu horizonte, assumindo deveres mais altos, eu não tinha dúvidas. Era militante de vanguarda, sujeito aguerrido, dos que conheciam armas e várias outras coisas práticas nas quais nunca fui uma sumidade, como dirigir automóvel, por exemplo. Minha utilidade, segundo me disseram, estava em ser desconhecido para a repressão: pinta de trabalhador burocrático, integrado no sistema, pequeno-burguês acomodado. Certo ar de idiota também, como disse um dia com franqueza uma sujeitinha que me desmerecia constantemente. Enfim, eu não despertava suspeitas, podia circular por onde os outros se camuflavam. Talvez pareça pouco, mas me garantiam que era gente como eu que assegurava a sobrevivência dos mais comprometidos. Meu apartamento estava à disposição dos que precisavam de acomodações por uma noite ou duas, conforme ditassem as necessidades da vida vagante dos clandestinos. Um dia alguém me disse que seria interessante eu saber dirigir, então me matriculei numa autoescola. Comuniquei a matrícula ao pessoal mais próximo, com o orgulho de quem se mostra responsável. Não disse que sonhava comprar um fusca. Azul, de preferência.

O Rodolfo de 1968 me fazia falta, sim. Não pelas ideias que emitia, mas pela firmeza com que parecia se apoiar nelas. Em 1969 eu tinha medo. E, por trás do medo, tédio. Estava num círculo vicioso: para escapar do tédio de me sentir medíocre, cometia ações perigosas, que criavam o medo. Viver sem medo, só se fosse nas águas mornas do tédio. Inacreditável: eu não via saída. Medo é sentimento obsceno. Eu não devia sentir medo. Se nem as mulheres sentiam… ou não pareciam sentir. Muitas vezes me perguntei quantos dos meus companheiros, como eu, não deixavam transparecer o medo que sentiam. Às vezes sonhava que estava solto no ar, sustentado num corrimão. Acordava, e o medo real, o do dia inteiro, era a apreensão diluída do acontecimento possível, sensação física até, mas sem foco preciso. Achava que, por perto, Rodolfo me tranquilizaria.

Na rua Jandaia, portanto, eu acoitava quem precisasse. Transformava a moradia em aparelho, tentava conciliar as visitas de Jandira com a presença de companheiros, executando acrobacias malparadas, tomando precauções medíocres que me pareciam suficientes. Não andava sem olhar para trás, não carregava agenda, não sabia o nome de ninguém. Mas temia ser agarrado a qualquer momento. Fazia tudo sem foco, fazendo. E, fazendo para não duvidar, duvidava. Dúvida é um pensamento solto que pousa de galho em galho, pensamento promíscuo. Dúvida é perdição infernal. Dúvida é culpa. Dúvida lícita, só a dúvida de si mesmo, da própria fé, nunca da causa. Não externava a dúvida. Não expressava a culpa. Não revelava o medo. Aprendi a fazer autocríticas. Destas, ouvi algumas pungentes, sempre mea-culpa seguidas da conjectura sobre os motivos das falhas, da busca das razões mais prováveis, jeito de sempre retornar à ação malograda exatamente do ponto onde ela deveria ter sido evitada para não se repetir.

Rodolfo em 1968. Se bem que até certa manhã fria de 1968, eu duvidava das ideias dele, e não dele.

NOTA
O romance Cabo de guerra será lançado em junho pela Boitempo.

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