Ensaios e Resenhas

agosto 2019 / Ensaios e Resenhas / Benjamin Moser e a menor mulher do mundo

Texto publicado na edição #conteúdo on-line

Benjamin Moser e a menor mulher do mundo

Magdalena Edwards analisa a conturbada e pouco ética trajetória do norte-americano como tradutor e biógrafo de Clarice Lispector

> Por Magdalena Edwards

Benjamin Moser

Benjamin Moser é biógrafo de Clarice Lispector.

Tradução: Leandro Salgueirinho

Conheci Benjamin Moser há quase 15 anos na casa de Denise Milfont, no Rio de Janeiro. Denise, uma conhecida atriz e pivô das artes e da cultura no Rio, me disse, “Você tem que conhecer Benjamin. Ele está escrevendo sobre Clarice”. Ela me apresentou como “Magdalena, que escreve sobre Elizabeth Bishop”. Bishop, uma das primeiras tradutoras de Clarice para o inglês, publicou três contos da escritora brasileira — incluindo A menor mulher do mundo, Uma galinha e Macacos — na Kenyon Review, em 1964. Moser e eu imediatamente começamos a trocar opiniões: você já foi a este arquivo, conheceu essa pessoa, o que acha desse detalhe? Ele vivia na Europa e eu morava na Califórnia, então quase não nos vimos. Aqui e ali trocamos e-mails nerds e efusivos.

No início de nossa correspondência, em julho de 2006, enviei a Moser o capítulo da minha dissertação sobre Bishop em que discuto as traduções dela das histórias de Clarice. Em 2008, ele me pôs em contato com Dedi Felman, cofundadora da revista Words Without Borders, a fim de que eu traduzisse um fragmento do terceiro romance de Clarice, A cidade sitiada, que ainda não existia em inglês. Traduzi o segundo capítulo e sobre ele Moser aplicou o seu olhar editorial, me dando feedback com a própria ferramenta de revisão do Word. O capítulo nunca foi publicado; coisas que acontecem. Mas fiquei profundamente grata a Moser. Quando a Oxford University Press lançou o seu livro, Why this world: a biography of Clarice Lispector [Por que este mundo: uma biografia de Clarice Lispector, em tradução livre], em 2009, fiquei encantada ao ver meu nome nos agradecimentos. Em setembro de 2015, quando Moser me perguntou se eu estaria interessada em traduzir O lustre, segundo romance de Clarice, fiquei radiante.

No verão de 2017, meu nome apareceu no catálogo da New Directions de títulos a serem publicados no inverno de 2018 como tradutora de O lustre. Embora o nome de Moser não estivesse listado, ele já era bem conhecido como o editor da série de novas traduções de Clarice Lispector. The complete stories [Histórias completas] de Clarice, traduzidas por Katrina Dodson e publicadas em 2015, trouxeram a Moser e a toda a empresa bastante atenção positiva. Dodson foi a sexta na tripulação de novos tradutores de Clarice, que incluía Alison Entrekin, Stefan Tobler, Johnny Lorenz e Idra Novey, cada um deles traduzindo um dos quatro romances publicados em 2012. A versão de Moser de A hora da estrela, publicada em 2011, foi a primeira da série. Sua atuação como editor está manifestamente destacada em cada um dos novos livros traduzidos por mãos de terceiros, para três dos quais ele também escreveu introduções. Tanto a tradução de Novey de A paixão segundo G.H. como The complete stories, de Dodson, incluem uma “nota do tradutor”. Eu sabia que estava me juntando a um conjunto animado, mas tinha muito a aprender sobre a nova empresa Lispector. Para tanto, as coisas precisavam ruir primeiro.

Ao final, quando O lustre foi publicado em inglês como The chandelier, fui creditada como cotradutora, com o meu nome listado depois do de Moser. A verdade é que Moser tentou me demitir, argumentando que o meu manuscrito final não estava satisfatório, que o meu nível de português não era suficiente, e que ele teria que reescrever cada linha da minha tradução. O que houve?

***

Um modo de eu começar a responder a essa pergunta é recorrendo a um artigo de Alison Flood para o The Guardian, de 13 de maio de 2019, em que ela discute a biografia escrita por Moser, ainda no prelo, Sontag: her life and work [Sontag: sua vida e obra]. O artigo de Flood se concentra no argumento de Moser de que Susan Sontag seria a verdadeira autora de Freud: the mind of the moralist [Freud: a mente do moralista] (1959), livro que teria cimentado a carreira do ex-marido dela, Philip Rieff — um livro que, supõe-se, ela escreveu com vinte e poucos anos. Flood cita Moser citando um amigo de Sontag, Minda Rae Amiran, que “lhe disse que, enquanto a dupla viveu em Cambridge, Massachusetts, ‘Susan perdia todas as tardes reescrevendo a coisa toda do zero’”. A expressão “reescrevendo a coisa toda do zero” — em referência ao trabalho de Sontag no livro de Rieff sobre Freud — prendeu minha atenção, porque fez eco ao argumento usado para explicar por que eu devia ser demitida da New Directions. Supostamente o meu trabalho era tão malfeito que Moser precisaria reescrever cada linha dele. No entanto, enquanto eu focava em tentar me comunicar com a New Directions — isso foi no final do verão de 2017 — para salvar minha reputação e meu trabalho, Moser simplesmente começou a editar o meu manuscrito, não a reescrevê-lo.

No que busquei alguma orientação de colegas, percebi que eu havia sido terrivelmente ingênua. Eu tinha assinado um contrato com a New Directions no final de julho de 2016 para traduzir O lustre com exclusividade; uma amiga advogada, depois, me fez ver que o contrato não nomeava Moser como editor nem lhe dava qualquer papel oficial no processo. Moser e eu não tínhamos definido um cronograma para trabalhar na tradução como editor e tradutora, e em momento algum, antes de ele tentar que eu fosse despedida, nós fizemos qualquer trabalho conjunto no manuscrito. Seguindo o conselho de uma orientadora minha em Los Angeles, eu havia pleiteado e me fora concedida uma residência em Yaddo[1], no verão de 2016, para trabalhar na minha tradução de O lustre, o que me obrigava a enviar uma amostra do meu trabalho. Uma semana após a data estimada no contrato, a de 30 de junho de 2017, e após solicitar a Moser uma breve prorrogação do prazo, apresentei a ele, e somente a ele, via e-mail, o meu rascunho da tradução do romance em um arquivo do Word. No corpo do e-mail, chamei o meu manuscrito de “imperfeito” — e enfatizei que eu estava ansiosa pelo feedback dele, para que eu pudesse seguir nas minhas revisões. O que aconteceu na sequência foi completamente inesperado. Barbara Epler, editora e presidente da New Directions, foi trazida para a conversa, e começamos eu e ela a receber páginas em pdf do meu original assinaladas por Moser (à mão, e não com a ferramenta de revisão sobre o arquivo Word que eu lhe enviara por e-mail). Havia uma porção de marcas em cada página. Fiquei confusa, mas deixei a coisa seguir.

Não muito depois de essas páginas começarem a chegar, recebi uns e-mails de Moser sugerindo que o meu trabalho não estava no nível que ele antecipara. E, então, recebi um e-mail de Epler me oferecendo um “valor” pelo meu trabalho, uma eventualidade não detalhada no meu contrato, e o que me fez ligar o alerta. A princípio, fiquei nervosa e dando desculpas. Certamente aquilo era um mal-entendido. Quando comecei a me instruir sobre os meus direitos como tradutora com um contrato e decidi reagir, disseram-me que o que eu havia apresentado não era o “rascunho” esperado e demandado. Olhei novamente para o meu contrato, agora com a ajuda de um advogado especializado em tradução literária, e atentei para o termo “manuscrito completo”. Expliquei que eu não tinha entendido que o termo “manuscrito completo” significa “rascunho final” — sobretudo porque Moser, o suposto editor, e eu não tínhamos feito qualquer trabalho juntos. Alguma coisa não ia nada bem. Minha intuição me dizia que eu precisava cavar mais fundo.

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Décadas antes, a própria Susan Sontag começou a trabalhar como ghostwriter de Rieff. Em sua biografia, Moser escreve:

O primeiro relato de Susan sobre a relação deles foi a carta para Judith [irmã de Sontag], na qual ela descrevia o seu entusiasmo por conhecer [Rieff] e o trabalho que ela estava fazendo de escrever as resenhas dele, poupando-o “do trabalho de ler o livro”. Talvez esse procedimento parecesse normal em 1950; mas, mesmo do ponto de vista mais liberal, faz pensar em por que alguém de vinte e sete anos, que ainda não era professor, contrataria uma graduanda para resenhar livros que ele mesmo não tinha lido.

O que para mim salta aos olhos é que Rieff nem lia os livros em questão nem escrevia os textos em que colocava o seu nome; Sontag fez todo o trabalho e não recebeu crédito algum. O trabalho de escrita fantasma de Sontag pareceu posteriormente escorrer para o projeto de livro de Rieff, cuja história de origem é mais complexa do que a das resenhas que Sontag simplesmente escreveu em seu nome. Moser escreve: “O livro [sobre Freud] parece basear-se, pelo menos até certo ponto, na pesquisa e nas notas [de Rieff]. Mas se também as suas ideias estão presentes nele, é quase certo que ele não escreveu o livro no qual sua carreira se baseou”.

Ao ler o comentário de Moser, me perguntei: quando uma ideia escrita por Rieff em suas notas de pesquisa se transforma em um texto recomposto ou revisado a partir dessas mesmas notas por Sontag, uma intelectual emergente, que também entendia profundamente de Freud, quem pode reivindicar a autoria do texto final? Eu também gostaria de saber: como eram as notas de Rieff? Elas continham frases e parágrafos completos, títulos de capítulos, rascunhos de capítulos? Moser não dá respostas a estas perguntas, mas, ao entrevistar a escritora Sigrid Nunez, ele conta o seguinte: “Susan afirmou ter escrito ‘cada palavra’ de The mind of the moralist. Philip, tardiamente, admitiu que ela foi ‘coautora’”.

Questões de autoria, apropriação e trabalho não creditado são fundamentais para a discussão que Moser estabelece sobre Sontag. Para ele, o livro sobre Freud, em última análise creditado a Rieff, é “totalmente um exercício dos temas que marcaram a vida de Susan Sontag”. Para tornar pior o comportamento de Rieff, a primeira edição do livro incluía um agradecimento que “seria removido das edições posteriores, mas que levantou sobrancelhas ao aparecer”, até porque Sontag nunca usou o nome do marido: Rieff agradece a “minha esposa, Susan Rieff, que se dedicou sem reservas a este livro”. A análise de Moser sobre este agradecimento é rápida, inflexível: “Foi uma tentativa de colonizar a identidade dela, de recolocar a esposa no papel tradicional: para reafirmar a autoridade dele, para ele voltar ao topo”. O conflito Sontag-Rieff a respeito de quem fez o quê e quem ficou com o crédito me soou dolorosamente familiar, sendo eu a tradutora-tornada-cotradutora de O lustre para o inglês. E a posição de Moser neste conflito tornava-se ainda mais complicada quando eu a considerava lado a lado a uma série de ensaios, com os quais eu só deparara recentemente, que questionavam a originalidade e as fontes do trabalho consolidador da carreira de Moser, sobre Clarice Lispector, assunto de sua primeira biografia.

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Enquanto o meu conflito com Moser sobre O lustre se desenrolava, no verão de 2017, eu comecei a prestar mais atenção a tudo que eu sabia, ou pensava que sabia, sobre Clarice e a gestão do seu legado. Comecei a saber da animosidade entre Moser e Nádia Gotlib, autora de Clarice, uma vida que se conta, uma biografia da escritora publicada primeiramente em São Paulo, pela Editora Ática, em 1995, então em sua sétima edição. Alertaram-me sobre o ensaio de Benjamin Abdala Júnior, Biografia de Clarice, por Benjamin Moser: coincidências e equívocos, que foi publicado em português, numa revista acadêmica, em 2010. Nele, Abdala Júnior argumenta que Moser pegou mais do que emprestado de Gotlib, e indica semelhanças nas estruturas narrativas de suas biografias, as quais incluíam títulos de capítulos e subcapítulos:

As semelhanças não estão só na trilha narrativa. Se no livro de Nádia Gotlib há um subcapítulo intitulado “As receitas da bruxa”, no de Moser há um capítulo intitulado “A bruxa”. No da crítica brasileira há “Os diálogos possíveis”, no de Moser há “Diálogos possíveis”. Em Clarice, uma vida que se conta há “O furacão Clarice”, em Clarice, “Furacão Clarice”…

Abdala Júnior também entra na questão da doença da mãe de Clarice e questiona se foi, como Moser alega em seu livro, sífilis que ela contraiu após ser estuprada por soldados soviéticos durante os pogroms na Ucrânia, de onde a família fugiu em 1921. Abdala Júnior argumenta que Moser inventa este terrível e perturbador segredo familiar de dois gumes (estupro, sífilis). Moser e Gotlib apareceram juntos na feira literária Fliporto em 2010, onde discutiram suas respectivas biografias de Clarice. A questão sobre se a mãe de Clarice fora estuprada durante os pogroms e contraíra sífilis foi levantada por Gotlib, não sem uma tensa contestação, como se pode ver online (em 27:45).

A resenha de Lorrie Moore sobre a biografia de Clarice escrita por Moser para o New York Review of Books (em 24 de setembro de 2009) dedica o seu terceiro parágrafo a Gotlib, que Moore descreve como uma “intelectual […] dedicada”, mas não como uma das primeiras e mais importantes biógrafas de Lispector. A resenha de Moore é, de modo geral, entusiástica — ela se refere à biografia de Moser como “um livro bem escrito e notável” —, mas faz algumas críticas: “[Moser] discute a obra [de Clarice] detalhadamente, livro após livro, com simpatia e discernimento, e admiravelmente evita jargões, embora subestime a sagacidade dela”. E: “Se há outras fraquezas na biografia de Moser, elas são, na maior parte, organizacionais: há repetições, como também assuntos que, uma vez iniciados, são então descartados”. Moore discute Why this world em meio a uma constelação de outros livros, incluindo quatro traduções de Giovanni Pontiero, cujo trabalho ela recomenda: “Os leitores de primeira viagem podem ser aconselhados a começar com as traduções de Giovanni Pontiero, que foram entusiasticamente elogiadas e parecem mesmo capturar, com sucesso, uma voz real na página”. A tradução de Gregory Rabassa de A maçã no escuro, de Clarice, também está entre os volumes trazidos à discussão. Clarice elogiou a versão de Rabassa, publicada pela Knopf em 1967, o primeiro de seus romances traduzidos para o inglês: “A tradução me parece muito boa”.[2] No entanto, Moore critica o comentário de Rabassa sobre a beleza de Clarice, bem como o fato de Moser não fazer nenhum caso disso: “A citação muito replicada do tradutor Gregory Rabassa, de que Clarice era ‘aquela pessoa rara que se parecia com Marlene Dietrich e escrevia como Virginia Woolf’ jamais é questionada em seu sexismo, i.e., seria a beleza contraindicação de vida intelectual? Alguém diria isso de Hawthorne, Fitzgerald, ou Camus?”.

Uma colega me incentivou a ler as resenhas críticas das traduções da New Directions escritas pela pesquisadora e tradutora Elizabeth Lowe, que conheceu Clarice e cotraduziu, com Earl E. Fitz, o seu romance Água viva (1973), como The stream of life [O fluxo da vida], para a Editora da Universidade de Minnesota, em 1989. Escrevendo para a Translation Review, Lowe descreve a missão da série de Moser da seguinte forma:

Moser percebeu que um dos problemas com as traduções existentes de Lispector era que diferentes tradutores as realizaram em diferentes momentos e que a “voz” mudava de tradução para tradução. Moser e Barbara Epler, na New Directions, concordaram, “Ela precisava falar com uma voz única em inglês”.

Porém, Lowe rebate essa ideia, como fugindo ao espírito artístico de Clarice:

A premissa de que uma única “voz” para esta autora é possível é uma traição ao seu espírito criativo único. Na verdade, a ideia de alguém se apropriando de sua “voz” a ofenderia. Eu posso ouvi-la questionando “O quê?”. Lispector era famosa por proteger a integridade de sua obra.

A crítica de Lowe ao projeto de tradução de Moser como unívoco [univocal] me surpreendeu. Eu tinha escrito uma resenha sobre a tradução de Dodson (The complete stories) para The Millions, na qual constatei: “Este é o sexto livro da New Directions […] em menos de quatro anos sob o comando de Moser, editor da série […]. Cada livro tem um tradutor diferente, o que combina com o espírito polivalente da estranha e inquietante obra de Clarice”. E, no entanto, na Paris Review, Moser diz abertamente: “Eu queria criar uma voz unificada [unified voice] para Clarice em inglês”.

A descrição de Lowe sobre Moser e Epler falando em uma só voz me inspirou a olhar mais fundo na colaboração entre o editor e a editora. Encontrei um notícia sobre a tradução de Moser de A hora da estrela, por Craig Morgan Teicher, intitulada “New Directions ressuscita Clarice Lispector com novas traduções”, publicada na Publishers Weekly em 27 de setembro de 2011:

Quando Moser soube que a New Directions se preparava para reeditar o último romance de Lispector, A hora da estrela, na tradução original em inglês de Giovanni Pontiero, com uma nova introdução de Colm Toibin, ele entrou em contato com Epler e insistiu para que eles fizessem uma nova tradução: “Você não pode dizer não para esse cara”, disse Epler. “Até que ele enfiou um saco em minha cabeça e me bateu e disse que ele mesmo faria a tradução em duas ou três semanas.”

À luz da minha experiência, a declaração de Epler de que Moser não aceitaria um “não” e sua descrição metafórica de como ele obteve o “sim”, ainda que com a intenção de fazer piada, soou perturbadora.

Em um evento de celebração das novas traduções de Clarice Lispector com os tradutores Idra Novey e Johnny Lorenz, em 23 de janeiro de 2013, Epler, quando perguntada sobre como o projeto New Directions se desenrolou, disse que ela foi “esmagada” por Moser e admitiu ter “abandonado” os tradutores, deixando-os resolver as coisas com ele. Ela também usa o termo “doloroso” para descrever o processo. Novey chama Moser de “implacável” e Lorenz descreve como, no Skype, Moser praticamente o “esbofeteava” ao discutirem sobre uma escolha tradutória. Há um sentimento compartilhado entre todos os três oradores de que, porque Clarice era ela mesma uma pessoa difícil e uma escritora difícil, o processo de traduzir sua obra não pode ser fácil ou totalmente pacífico. Embora Moser não estivesse presente — o que poderia permitir reflexões mais sinceras sobre como era trabalhar com ele —, ele é mencionado e a sua contribuição fundamental para o empreendimento Lispector é reconhecida muitas vezes. Por outro lado, durante uma conversa de uma hora de duração sobre The complete stories de Clarice, na Biblioteca do Congresso, ocorrida em 15 de abril de 2016, Moser não menciona a tradutora do livro, Katrina Dodson, até receber uma pergunta sobre ela nas questões finais da plateia. O lançamento do livro na cidade de Nova York aconteceu na Book Culture da Columbus Avenue, em 19 de agosto de 2015, e contou com a participação de Moser e Andrew Tepper, da Vanity Fair. Não de Dodson.

***

Logo ficou claro para mim que, porque eu não tinha estado no Brasil desde julho de 2007 — após meus anos de estudante de graduação pontuados por pesquisas regulares no exterior, eu experimentara outros 10 anos mais sedentários mas não menos agitados, anos que incluíram os nascimentos de meus três filhos e a publicação de vários ensaios e traduções e outros trabalhos, bem como inúmeros trabalhos freelance como editora e consultora literária e tutora — eu não estava o bastante no circuito. Quando você se apresenta em pessoa, você aprende coisas que ninguém vai lhe escrever ou dizer por telefone ou rede social. Em pessoa, você pode sentir o ambiente e usar a intuição, o corpo, os olhos e os ouvidos. Em sua crônica Intelectual? Não, Clarice escreve: “Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto”.[3] Depois de tanto tempo em casa, eu novamente seguia um rastro.

Viajei ao Rio de Janeiro em julho de 2018 com algumas cópias da tradução para o inglês de O lustre em minha bagagem de mão. O primeiro passo foi participar do congresso brasilianista internacional e interdisciplinar BRASA, na Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), onde haveria 13 palestras sobre Clarice. Acima de tudo, eu queria ouvir o que os estudiosos, escritores, tradutores e alunos brasileiros tinham a dizer sobre o crescente campo de estudo em Clarice Lispector, em particular sobre o projeto de tradução da New Directions. Também esperava ter a chance de me encontrar com o filho de Clarice, Paulo Gurgel Valente, o responsável por seu patrimônio literário.

Na manhã em que cheguei ao Rio, 20 de julho de 2018, abri meu e-mail e vi que um amigo tinha me enviado um link para o The New York Times. Três “Cartas ao editor” haviam sido publicadas em resposta a uma resenha depreciativa de Moser, de 1º de julho, sobre This little art (Fitzcarraldo, 2018), um livro sobre a tradução como uma prática criativa, escrito por Kate Briggs, uma das tradutoras de Roland Barthes. A primeira carta, assinada por Susan Bernofsky, Lydia Davis, Katrina Dodson, Karen Emmerich, John Keene, Duncan Large, Karen Van Dyck, Lawrence Venuti e Emily Wilson, afirma: “Além do tom geral da resenha de condescendência e de ocasionais críticas misóginas, Moser dá apenas uma noção escassa e distorcida do conteúdo do livro e, em vez disso, gasta a maior parte de sua revisão desmistificando posições que Briggs nunca firmou”. Cliquei na resenha original de Moser e parei na seguinte linha: “Como editor de traduções, eu tenho visto o quão ruins — como verdadeira, assustadoramente terríveis — muitas são”. Eu estremeci, mas continuei lendo. O último parágrafo de sua resenha me trouxe diretamente de volta a O lustre, cuja protagonista se chama Virgínia:

Se a tradução, como tudo mais, pode emprestar-se à teorização, ela é antes de mais nada uma arte do detalhe: “só uma questão”, como Virginia Woolf disse da escrita em prosa, “de encontrar as palavras certas e de colocá-las na ordem certa”. O jab irônico desse diminuto “só” é o tipo de coisa que um tradutor saboreia quando consegue resolver bem.

Eu imediatamente pensei na tradução de Moser de A hora da estrela e nos erros — “arte do detalhe” — que encontrei ao preparar uma apresentação para o congresso sobre Clarice Lispector na Universidade de Oxford em novembro de 2017. O que primeiro me veio à mente foi a ausência do adjetivo descrevendo a cor do carro que atropela a protagonista do romance, Macabéa, deixando-a morta na rua. O original diz: “E enorme como um transatlântico o Mercedes amarelo pegou-a”.[4] A tradução de Giovanni Pontiero traz: “And a yellow Mercedes, as huge as an ocean liner, knocked her down”.[5] A de Moser diz: “And enormous as an ocean liner the Mercedes hit her”.[6] Duvido que, para Clarice, a escolha da cor do carro, amarelo, fosse um detalhe sem importância.

Pequenos detalhes realmente importam — e às vezes os detalhes não são tão pequenos. Ao final da resenha de Moser sobre This little art, os editores do The New York Times emitiram uma correção:

A nota biográfica que apareceu numa versão anterior desta resenha omitiu o nome de um dos tradutores. O resenhista traduziu o romance de Clarice Lispector, O lustre, com Magdalena Edwards; ele não o traduziu sozinho.

E, sinceramente, quem é que faz coisa alguma sozinho? Eu me encontrava no Rio de Janeiro me fazendo essa mesma pergunta e pensando em como era estranho estar de volta ao Leme, bairro de Clarice, agora que eu mesma era mãe. Comecei a ver o meu caminho pela ficção da escritora, por suas crônicas, cartas, e pelos rastros de sua vida deixados para trás por um viés totalmente diferente, com um senso de humor, e furor, totalmente novo.

O assombroso conto de Clarice, A menor mulher do mundo, narra a história do menor de todos os pigmeus, uma pequena criatura nomeada como Pequena Flor, e do explorador francês Marcel Pretre, o qual afirma tê-la descoberto e nomeado. Vale ressaltar que, em português, o verbo “explorar” significa tanto “descobrir” como “tirar proveito”. Um dos momentos mais deliciosos da história, para mim, é quando o explorador não apenas vê a Pequena Flor, mas começa a entender, também, que ela está grávida. A história foi traduzida três vezes para o inglês: por Elizabeth Bishop, por Giovanni Pontiero e por Katrina Dodson. Pequena Flor é uma fêmea indomável que faz coisas inesperadas: ela “scratched herself where no one scratches[7] [“coçou-se onde uma pessoa não se coça”] (Bishop), “she loved that yellow explorer[8] [“ela amava aquele explorador amarelo”] (Pontiero) e se comunicava com ele na língua dela: “Little Flower answered ‘yes.’ That it was very good to have a tree to live in, her own, her very own[9] [“Pequena Flor respondeu-lhe que ‘sim’. Que era muito bom ter uma árvore para morar, sua, sua mesmo.”] (Dodson).[10] Para mim, A menor mulher do mundo é a chave não-tão-secreta para a obra de Clarice, um texto fundamental no qual ela deixa claro para seus leitores, fãs, estudiosos, biógrafos, editores, tradutores, e para qualquer um que se depare com sua obra, que ela não será presa ou capturada. Clarice é dona de si, de sua obra, de sua árvore da linguagem, e isso é bom.

***

Aprendi muitas coisas em minha estadia no Rio de Janeiro em julho de 2018, e, em outubro do mesmo ano, voltei para apresentar trabalhos sobre Clarice na PUC-Rio e na UNIFESP, em São Paulo, bem como para continuar a minha pesquisa sobre a escritora brasileira e sua antiga tradutora, Bishop. Também tive a oportunidade de visitar Belo Horizonte pela primeira vez, onde me encontrei com a biógrafa de Clarice, Nádia Gotlib. Ela me encaminhou um ensaio de 2018, de Thiago Cavalcante Jeronimo, intitulado Benjamin Moser: Quando a luz dos holofotes interessa mais que a ética acadêmica. Jeronimo abre seu texto com uma pedrada:

Lançada em 16 de novembro de 2009 pela extinta Cosac Naify, a biografia escrita por Benjamin Moser (1976), Clarice, uma biografia (lê-se “Clarice vírgula”) é prenúncio de conflitos, equívocos, inesperadas coincidências e apropriações indevidas de trabalhos de ilustres pesquisadores brasileiros pelo crítico norte-americano.

Ele também se atém à questão de se a afirmação de Moser de que a mãe de Clarice foi estuprada é um fato comprovável:

A ficcionalização biográfica pontuada por Moser, de forma reticente para depois firmar-se como ocorrência verídica em seu livro, reaparece sem sombra de dúvidas no prefácio que o autor escreveu à compilação Todos os contos, de Clarice Lispector, lançada pela editora Rocco, em 2016. Assevera o autor: “Sua mãe foi violentada[11] (MOSER, 2016, p. 18, grifo nosso). Uma suposição interpretativa torna-se ocorrência “comprovada sem provas” pelo biógrafo-que-ficcionaliza.

Tanto Jeronimo como Benjamin Abdala Júnior remetem à biografia de Teresa Montero, Eu sou uma pergunta: uma biografia de Clarice Lispector, publicada em 1999 no Rio de Janeiro pela Rocco, como uma outra fonte na qual Moser mais que pesadamente bebeu em seu livro. Nenhum dos artigos menciona o trabalho acadêmico de Nelson Vieira, um dos professores de Moser em Brown, cujo livro de 1995 Jewish voices in brazilian literature: a prophetic discourse of alterity [Vozes judias na literatura brasileira: um discurso profético da alteridade] dedica todo um capítulo à escritora: “Clarice Lispector: A Jewish Impulse and a Prophecy of Difference.”[12] [“Clarice Lispector: um impulso judaico e uma profecia da diferença.”] Todos esses livros — de Gotlib, de Montero e de Vieira — aparecem na seção “Trabalhos citados” em Why this world, mas pode-se questionar por que não são eles sublinhados como três pedras fundamentais para a discussão posta em seu livro. Nos “Agradecimentos” de Moser, lê-se:

Aos meus colegas claricianos […] Nádia Batella Gotlib, a maior autoridade do Brasil em Clarice Lispector, cuja pesquisa biográfica revelou tantos fatos essenciais sobre a vida de Clarice, e cuja ajuda com as fotografias me poupou tantas dores de cabeça; Teresa Cristina Montero Ferreira, cuja biografia sobre Clarice está repleta de frutos de sua pesquisa exaustiva. […] Uma palavra especial se deve a Nelson Vieira, professor e erudito brilhante, quem primeiro despertou o meu entusiasmo por Clarice quando eu era estudante de graduação e um dos primeiros a entender Clarice como uma escritora judia.

Mas no livro eles raramente são mencionados. No Rio de Janeiro, em outubro de 2018, a editora Autêntica lançou o último livro de Teresa Montero, O Rio de Clarice: passeio afetivo pela cidade. Em meados de dezembro de 2018, o professor Vieira proferiu a aula inaugural no congresso “Clarice Lispector: Memory and Belonging” [Clarice Lispector: Memória e Pertencimento] em Jerusalém. Vida que segue.

A edição em brochura de O lustre em inglês foi lançada no final de maio de 2019 com uma capa rosa-choque que, em vez do título em si, traz a imagem de um lustre, uma escolha divertida e cativante, na minha opinião. A capa dura do título mais novo entre as novas traduções de Clarice, The besieged city [A cidade sitiada], traduzido para o inglês pela primeira vez por Johnny Lorenz, também chegou junto com minha correspondência no começo da primavera. Um mistério que eu gostaria de ajudar a desvendar é o que aconteceu com a versão de Pontiero deste romance prevista para ser publicada em 1999 pela Carcanet Press. Pensava nisso enquanto eu lia a introdução de Moser para The besieged city, quando de repente tive que me deter na seguinte frase sobre o uso de vírgulas por Clarice: “Quebrando ritmos, adicionando pausas, mudando a ênfase, centenas de vírgulas são espalhadas por toda parte, mudando a música de sua prosa, esclarecendo passagens difíceis — e então, com a mesma frequência, enlameando-as ainda mais, estranhos fiapos de cabelo na sopa”. Isso soava terrivelmente familiar. O segundo parágrafo da “Nota da tradutora” de Katrina Dodson para The complete stories termina da seguinte forma: “Uma vírgula quebra o andamento onde ela não deveria estar, como um cabelo que ela insere em sua sopa”.

Eu queria que Moser tivesse citado o comentário de Dodson sobre as surpreendentes vírgulas de Clarice que aparecem em sua prosa como cabelos na sopa do leitor. Queria que Moser tivesse creditado Dodson pelo trabalho dela. Queria…

Teria Moser cometido um erro na “arte do detalhe” enquanto escrevia? Será que ele simplesmente lembrou da ideia de Dodson como se fosse sua, ou teria ele “colonizado” a prosa dela do mesmo modo como, segundo ele, Rieff fez ao receber o crédito pelo trabalho de Susan Sontag e agradeceu a ela como “Susan Rieff”?

Eu poderia também formular a pergunta de outro modo, expandindo a conversa para incluir as comunidades de tradução, literárias e editoriais: quem recebe gratidão pela dedicação demonstrada e quem recebe créditos pelo trabalho que cumpriu?

*Ensaio publicado originalmente no Los Angeles Review of Books

NOTAS

[1] Residência artística na cidade de Saratoga Springs, Nova York.

[2] Clarice Lispector, Outros escritos (Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2005), p. 117.

[3] Clarice Lispector, Intelectual? Não, A descoberta do mundo: crônicas (Rio de Janeiro: Rocco, 1999), p. 149.

[4] Clarice Lispector, A hora da estrela (Rio de Janeiro: Rocco, 1999), p. 79.

[5] Clarice Lispector, The hour of the atar, trans. Giovanni Pontiero (New York: New Directions, 1986), p. 79.

[6] Clarice Lispector, The Hour of the Star, trans. Benjamin Moser (New York: New Directions, 2011), p. 70.

[7] Elizabeth Bishop, Bishop: poems, prose and letters (New York: Library of America, 2008), p. 303.

[8] Clarice Lispector, Family ties, trans. Giovanni Pontiero (Austin: University of Texas Press, 1972), p. 94.

[9] Clarice Lispector, The complete stories (New York: New Directions, 2015), p. 172.

[10] Clarice Lispector, Todos os contos. (Rio de Janeiro: Rocco, 2016), pp. 193-200.

[11] A introdução de Moser para The complete stories de Clarice Lispector está disponível aqui: <https://www.newyorker.com/books/page-turner/the-true-glamour-of-clarice-lispector>

[12] Nelson H. Vieira, Jewish voices in brazilian literature: a prophetic discourse of alterity (Miami: University Press of Florida, 1995).

 

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