Dom Casmurro

março 2012 / Dom Casmurro / Bárbara Lia

Texto publicado na edição #143

Bárbara Lia

Três poemas de Bárbara Lia

> Por BÁRBARA LIA

Ilustrações: Rafa Camargo

 

 

Ausência de Pessoa

O balcão feliz, o chão da Leitaria do Trindade
O fatal silêncio ocre escuro de folha outonal
O ar se altera — ventania, mistério e divindade
Prenúncio da chegada do poeta lusitano genial

Nas manhãs um copo de vinho, gesto costumeiro
— Bom dia, Trindade! O copo de vinho estendido
Nas noites escrevia com a luz da rua — candeeiro
Mil vozes e mil rostos em seu rosto, escondidos

Esta epopéia diária das paredes a abrigar a figura
Roupa escura, chapéu e óculos, passo que levita
Esta contumácia de pedra que abarca a água pura

Esta rotina de lírio e fogo que segue e nada evita
Quebrada em um novembro com a morte do poeta
Médico pastor escrivão engenheiro místico esteta

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O ano da morte de Ricardo Reis

Não cante o desprezo dos deuses, Ricardo
Não colha as flores mortas ao lado do Tejo
Os fardos humanos são apenas isto — Fardos
E os beijos sensuais são apenas isto — Beijos

Sou toda verão na alcova, acesa, à tua espera
Estonteante mulher que levas a ver as flores
Enquanto os pássaros trinam alto — Neera!
Nada nos falta, mas, em ti brotam mil dores

Quando a morte te buscar, aquela que conheces
Voltarei aos prados colhendo as flores vivas
Tocarei a pele do planeta murmurando preces

Banquetearei na relva, as flores como convivas
Dói, Ricardo, saber que todos os campos serão meus
Ainda orvalhados de lágrimas dos belos olhos teus

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Paisagem de chuva para Bernardo Soares
Há qualquer coisa do meu desassossego no gota a gota, na bátega a bátega com que a tristeza do dia se destorna inutilmente por sobre a terra.
Bernardo Soares

As árvores fogosas escolhem seus amantes
Quando eles se aproximam ampliam o verde
Encolhem os caules que se enlaçam ofegantes
Como a mulher trança suas pernas sem alarde

Para prolongar o gozo mais silencioso que o ar
As pedras se abrem e voluptuosas expandem
Para acolher aos amantes que fazem tiritar
Seu coração de granito, oco de luz ou sangue

E eu que sou chuva aprendi a ser humana
E te amar com minha molécula de Oxigênio
Para não brigarem entre si com ódio e gana

As minhas outras duas moléculas de Hidrogênio
Cada gota cumpre o acordo tácito com lealdade
Esplendor lírico e líquido nas esparsas tempestades

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