Ensaios e Resenhas

fevereiro 2014 / Ensaios e Resenhas / Aos que ainda sonham

Texto publicado na edição #167

Aos que ainda sonham

Capão pecado, de Ferréz, conta histórias de amor e ódio e tem como palco de representação Capão Redondo, bairro periférico […]

> Por VILMA COSTA

Capão pecado, de Ferréz, conta histórias de amor e ódio e tem como palco de representação Capão Redondo, bairro periférico de São Paulo. Este é cenário e personagem da tragédia cotidiana de seus moradores que inclui crimes, pecados, sonhos, esperanças e parcas alegrias. Publicado pela primeira vez em 2000, preserva sua atualidade e relevância. Possui cinco partes e 23 capítulos, num total de 190 páginas.

Cada uma das cinco partes é introduzida por depoimentos de personalidades ou grupos representativos da cultura local. São depoimentos, testemunhos que, por diferentes enfoques, participam do livro como vozes autônomas. Em sua visão apaixonada do lugar, de sua vivência cotidiana, denunciam desencantos e sugerem propostas alternativas. Apresentam-se, além disso, em tom de manifesto e trazem em comum a referencialidade local, com marcante inserção no bairro.

Além disso, como que encartado em dois blocos está um conjunto de fotografias. No seu conjunto, as fotos estão articuladas com o texto principal (a narrativa propriamente dita), procurando retratar a realidade física, psicológica e humana do lugar e de sua gente.

No mais, o romance tem caráter predominantemente ficcional, por mais que se afirme partir de “fatos verídicos”. Percebe-se um narrador onisciente que conta histórias de moradores do bairro, muitos dos quais não passam personagens-tipo, sem maiores singularidades.

Rael, entretanto, constitui-se como personagem central, em torno do qual outras histórias se cruzam. São muitos os amigos, vizinhos e parentes que se perdem nas drogas, nas cadeias, nos bares, nas balas. Ele centra-se na vida familiar, busca e acredita no amor e no trabalho como meios de sobreviver com dignidade àquele destino de menino pobre. Rael, com um pai deprimidamente decaído pelo alcoolismo e uma mãe devotada e doente, ainda via na ética do trabalho e no carinho pela família algum sentido para a vida.

A história é bem simples, o protagonista procura e encontra trabalho, gosta de ler e preza a vida familiar. Não consegue se livrar, entretanto, de um destino trágico, quando investe contra o patrão, que o traíra com sua mulher. Esta, antes de se tornar esposa e mãe de seu filho, era namorada de um dos seus melhores amigos. Matcherros, metido a muito esperto e envolvido com o tráfico de drogas, perde a namorada e fica revoltado, mas nada faz de imediato com o amigo. Afinal, segundo ele: “da trairagem nem Jesus escapou”.

A linguagem de gueto que, a princípio, parece intraduzível é contrabalançada por um texto simples, fluente, quase espontâneo e, de certa forma, ingênuo, sob direção do narrador onisciente. Em entrevista à Folha de S. Paulo, Ferréz diz: “Quero que o maloqueiro leia o meu livro e não esbarre em nenhuma palavra complicada”. Se alguém tiver que esbarrar em uma palavra complicada, haverá de ser um playboy ou a intelectualidade ao deparar com a linguagem de gueto. Esta, por sua vez, vai sendo de fácil tradução durante o decorrer da leitura, pela repetição de situações em que seus termos são usados. Isto, ao invés de tirar a compreensão textual, só amplia sua expressividade.

Mano Brown apresenta o bairro:
Aqui a história de crime não tem romantismo e nem heróis.
Mas, aí! Eu amo essa porra!
No mundão eu não sou ninguém, mas no Capão Redondo eu tenho meu lugar garantido, morô mano?

A declaração talvez explique o amor por essa porra tão violenta e a relação que se estabelece com a localidade e seus moradores tanto no mundo real quanto no ficcional. Seu narrador estabelece com o texto, muitas vezes, uma relação apaixonada que quebra o olhar distanciado a que se propõe do ponto de vista realista. Fica tão próximo dos seus personagens que chega a ser confundido com eles.

No romance, a localidade é elemento chave de identificação do narrador, dos protagonistas e demais personagens e tipos. Segundo depoimento de Mano Brown, cada um deles julga ter um papel garantido no bairro em que vivem e que amam, o mesmo não ocorrendo com relação ao mundão, no qual nada são.

Em Capão pecado, nos discursos-depoimentos introdutórios dos capítulos, pode-se encontrar flashes panfletários, quase palavras de ordem. São como gritos de “sobreviventes” (legenda de uma das fotos de uma família de moradores), que teimam em afirmar: “aqui morreu a justiça, mas não a esperança”. Esta é uma legenda que acompanha a foto em preto-e-branco de um menino que sorri à frente de um muro rachado e descascado. Ao lado, à esquerda, numa página anterior, encontra-se a foto de um homem maltrapilho, sentado atrás de duas muletas, na porta de um bar, com uma inscrição-legenda: “A vida como uma grande decepção”.

São duas fotos, duas legendas, dois fragmentos que, apesar de se negarem, negociam sentidos, ou seja, conjugam-se para compor a leitura paradoxal dessa ficção ou realidade representada sob várias formas de linguagem.

Um dos grupos pronuncia quase um manifesto. Em última análise, denuncia decepções, mas parece afirmar que a esperança é como cada um daqueles moradores, ainda uma precária sobrevivente.

É óbvio, nós sabemos quais são as carências daqui, mas muitos não fazem a correria para que isso se reverta. As armadilhas estão armadas há tempos, algumas já utilizadas, nós as enxergamos e podemos desativá-las. Basta acreditar que a revolução começa a princípio em cada um de nós. Se eu quero, eu posso, eu sou. Abrace essa idéia de um lado positivo.

A esperança sobrevivente conjugada com a vida como grande decepção não permite retorno a velhas formas teleológicas dos grandes projetos utópicos. A favela não traz mais a perspectiva de uma comunidade organizada em torno de lutas sociais comuns. Trata-se agora da neofavela, controlada pelo tráfico de drogas, um poder paralelo e, ao mesmo tempo, articulado com o poder institucionalizado pelo mercado, pela mídia e pelo grande capital. Na neofavela a justiça morreu, e a esperança que sobrevive está dela dissociada, não podendo oferecer mais que fragmentos de sonhos de comunhão passageiros, parciais e provisórios e propostas alternativas que unificam precariamente pequenas tribos.

O admirável é que essa esperança sobrevive. Mesmo com a vida como grande decepção, a maioria da população, surpreendentemente, contra todas as evidências e contra todas as estimativas deterministas, acomoda-se a velhas fórmulas recomendadas pelo Realismo Frontal: “talvez seja melhor seguir a honestidade”. Trabalham, pegam no pesado, fogem das ações mais perigosas e do caminho mais rápido para a riqueza, agrupam-se em seitas religiosas ou pequenas tribos, freqüentam escolas como salvação para um destino que se apresenta muitas vezes irremediável, mesmo que, em última instância, para leitores desse momento contemporâneo, tudo isso não faça o menor sentido. É uma falta de sentido que não pára por aí. Mobiliza estudiosos em vários campos para novas buscas de explicação dos fatos. Contra todas as facilidades oferecidas pelo grande negócio do tráfico, a maioria da população do bairro ainda se levanta de madrugada e encara o batente, o mês inteiro, para não ter, por fim, como garantir com dignidade o sustento da família. É a essa mesma falta de sentido a que se referem os dois bichos soltos de Capão Redondo ao final do romance.

— Choque, a parada sempre foi nesse naipe… e a parada vai ficando cada vez mais louca, firma!
— Fora os malucos que tão só no trampo, que nem o Tiozinho lá da rua de cima, Seu Damião, que sai todo dia na correria, pega buzão lotado e nunca vi reclamando.
— Só! Mas o que leva esses tiozinhos e alguns malucos mais novos a suar pra caralho num trabalho? Se pá é a vontade de ver o filho no final da noite, tá ligado? E na correria louca, nem sempre se vê o pivete, e nem sempre volta pra casa, tá ligado?

Coisa de maluco ou não, é a falta de sentido que estabelece a necessidade de novas construções de sentidos, impulsiona outras versões do vivido. Afinal, há os que ainda sonham. Daí a importância de romances que falem de dentro do acontecendo, do meio dos tiroteios, através de testemunhas e sobreviventes do caos, como o caso de Ferréz. Nada poderá ser compreendido do momento em que vivemos, se o ilógico, o sem sentido, e o silêncio dessas vozes não se fizerem ouvir.

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Ferréz

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Nasceu em São Paulo (SP), em 1975. Estreou na literatura em 1997 com Fortaleza da desilusão. É autor de Manual prático do ódio, Amanhecer Esmeralda e Ninguém é inocente em São Paulo. Também se dedica à música como compositor e cantor. Mora no bairro Capão Redondo, em São Paulo.

Periferia é tudo igual, não importa o lugar: zona leste, oeste, norte ou sul. Não importa se é no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, Brasília ou em São Paulo. Enfim, seja lá qual for o lugar, sempre serão os mesmos problemas que desqualificam o povo + pobre, moradores de casas amontoadas, umas em cima das outras.

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Ferréz
Planeta
190 págs.