Paiol Literário

agosto 2013 / Paiol Literário / Amilcar Bettega

Texto publicado na edição #161

Amilcar Bettega

Em 6 de agosto, o projeto Paiol Literário — promovido pelo Rascunho, em parceria com o Sesi Paraná — recebeu […]

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Rogério Pereira e Amilcar Bettega no Paiol Literário. Fotos: Guilherme Pupo

Rogério Pereira e Amilcar Bettega no Paiol Literário. Fotos: Guilherme Pupo

Em 6 de agosto, o projeto Paiol Literário — promovido pelo Rascunho, em parceria com o Sesi Paraná — recebeu o escritor AMILCAR BETTEGA. Formado em engenharia civil e mestre em literatura brasileira, Bettega nasceu em São Gabriel (RS), em 1964. É autor dos livros de contos O vôo da trapezista (1994, Prêmio Açorianos de Literatura), Deixe o quarto como está (2002) e Os lados do círculo (2004, Prêmio Portugal Telecom). Na conversa com o escritor e editor Rogério Pereira no Sesc Paço da Liberdade, em Curitiba (PR), Bettega falou sobre a possibilidade de reflexão que a literatura proporciona, a importância da linguagem e da forma do texto em sua obra, a publicação de seus primeiros livros e sua estréia no romance, com o recém-lançado Barreira (leia resenha).

• Vital
Existem milhões de pessoas que prescindem da literatura, que bem ou mal vivem sem ela, que são felizes ou infelizes; e o fato de o serem não tem nenhuma relação com a ausência da literatura em suas vidas. Agora, num outro lado, há pessoas que por alguma razão, em algum momento de suas vidas, chegaram à literatura e ela pode ter — na maioria das vezes tem — uma importância grande e mesmo vital. A gente que escreve, que de alguma forma trabalha com literatura, sabe que é praticamente impossível passar um dia sem ler pelo menos uma página, um parágrafo, um fragmento de texto qualquer. É uma coisa vital.

• Existência expandida
Tudo que envolve literatura sempre é uma viagem pessoal. Ela pode ser diferente para mim, para você, para outra pessoa. Quando falo sobre isso, procuro olhar o que acontece comigo e externar isso da maneira mais honesta possível. Então, olhando para mim, por que dou essa importância à literatura? Porque ela funciona como uma permanente expansão do meu universo mental, espiritual, enfim. Ela abre a minha vida e a minha existência, me tira um pouco da vida prática, do trabalho, de todas essas tarefas cotidianas que a gente tem que cumprir até chegar ao final de um dia para começar um novo. Mais do que isso: dilata essa existência, amplia, dá outro sentido a ela. Mas não quero dizer que a literatura é mais importante do que isso — “isso” que afinal de contas é a vida. A gente nasce com um corpo e com uma cabeça que pensa, e esse corpo e essa cabeça vão morrer. E entre esse nascimento e essa morte, esse corpo, essa cabeça pensante está inserida em um grupo, se relaciona com outras pessoas, exprime sentimentos, reações a acontecimentos e pessoas. Isso é o fundamental, o primordial; é a nossa vida. A literatura parte daí. Se existe uma hierarquia, a literatura está subordinada a isso, sem dúvida. Mas ela pega isso tudo e transfigura, elabora de outra forma, de maneira a nos dar a capacidade — a mim, pelo menos — de refletir melhor sobre o fato de estar vivo, de se relacionar com os outros e tudo mais. Esse é o grande lance da literatura: dar a capacidade de refletir, de colocar questões. Justamente por trazer essa matéria transfigurada. É como se ela trouxesse o real de uma forma que ficasse mais fácil a reflexão, transformasse a vida em um tema de reflexão.

• Viver o romance
Por que eu leio? Por que prefiro pegar um livro a me sentar na frente de uma televisão? Ou por que fico quase doente quando me vejo numa situação de espera, no consultório de um dentista, por exemplo, e percebo que esqueci de colocar meu livro na mochila e não tenho nada para ler? Essas duas coisas apontam para motivos por que a gente lê e no que a literatura pode ajudar. Uma delas é tornar a coisa menos prosaica. Quer dizer, aquele momento que é morto, no consultório do dentista, posso preencher com coisas muito mais ricas, posso viajar, posso transcender. Tem essa função de evasão de uma vida que às vezes é muito pequena. Obrigatoriamente [o leitor] se torna mais crítico, porque vai se questionar. Ao ler um livro, você vive, experimenta dramas de personagens que te marcam. Josef K., Emma Bovary, Raskólnikov — tudo o que a gente lê e que nos toca, a gente vive também, de alguma maneira, e traz para a nossa vivência, questionando-a também a partir do que leu, do que de alguma maneira viveu nos romances. [A literatura] Ajuda a interpretar a nossa realidade.

• Angústia
O processo de escrita é também uma viagem a outro universo, mas… Escrever é muito complicado. Claro que dá prazer — se não fosse por prazer, não escreveria. Não faria uma coisa que ninguém me pede, que ninguém está esperando, que vai ter um eco — se tiver — ínfimo. Que quase nos marginaliza socialmente, porque não é profissão, não é nada… Claro que dá prazer, mas é muito trabalhoso, muito penoso, é algo a que me obrigo fazer às vezes, talvez movido por essa promessa de prazer — porque em algum momento aquilo se torna prazeroso. Mas é claro que prefiro ler. É muito mais prazeroso, porque é prazer todo o tempo. E a escrita, não: até você sentir que conseguiu pelo menos um material bruto para poder retrabalhar, é muito sofrido, muito doloroso. Você nunca sabe se vai chegar nesse material. Eu tinha a experiência de trabalhar sempre com conto até escrever esse romance [Barreira]. E o parto do conto era este: eu começava sempre naquela angústia de não saber se conseguiria chegar ao final de alguma coisa — não era conto ainda, era alguma coisa, um material bruto — que depois eu pudesse dizer: “pronto, tem algo aqui, não é conto ainda, mas não me escapa mais”. [E então] Eu posso trabalhar com calma, aquela coisa mais do detalhe. Esse é um trabalho que também gosto de fazer, que trabalha mais a técnica mesmo. Você vai vendo o texto tomar uma forma que se aproxima mais daquilo que você tinha imaginado. Mas até chegar nesse material bruto, é meio angustiante. E no romance achei muito pior, porque é muito mais longo do que o conto.

Amilcar Bettega. Foto: Guilherme Pupo

Amilcar Bettega. Foto: Guilherme Pupo

• Palavra impressa
Não venho de uma família de leitores. Não havia muitos livros em casa. Até os oito anos de idade, eu vivia na zona rural, em um vilarejozinho a quinze quilômetros de São Gabriel — São Gabriel já é interior do Rio Grande do Sul. Meu pai tinha uma fazenda, criava gado, era pequena mas naquela época a gente conseguia viver bem. Tive uma infância tranqüila do ponto de vista econômico. E nessa casa sem livros tinha, na despensa, um armário com revistas que meu pai, quando ainda era solteiro, colecionava: a Revista Ilustrada, de futebol. Era uma espécie de resumo das rodadas dos campeonatos carioca e paulista. Meu pai sempre gostou muito de futebol e é uma herança que passou para mim. Eu passava as tardes em cima daquelas revistas. Tinha também uma coleção da Cruzeiro. Minha infância se passou nisso. Quando a minha mãe viu que eu gostava de ler, começou a trazer também histórias em quadrinhos, gibis do Tio Patinhas, Pato Donald, essas coisas. Depois, um pouco mais velho, eu lia muito Tex, faroeste em quadrinhos. A minha infância e adolescência se passaram nisso. Claro, depois foi mudando um pouco o repertório, com algum Monteiro Lobato e tal. Mas essas revistas são literatura? Não, acho que não é literatura, mas de certa forma aquilo me formou como leitor, como alguém que tem o contato com a palavra impressa numa página que está encadernada numa coisa que é revista ou livro.

• Lenda familiar
Nunca fui precoce. Pelo contrário. A única coisa em que fui precoce foi justamente aprender a ler. Segundo a lenda familiar, já lia aos quatro anos. Existia uma cozinheira na nossa casa que era analfabeta e a minha mãe estava tentando ensiná-la a ler. Eu estava por ali e acabei aprendendo cedo. Fiz ainda o primário numa escola rural, paupérrima, numa sala de dez metros quadrados onde tinha crianças dos seis até os dez anos. Vinha uma professora da cidade e se ocupava dessas crianças todas. Então, tinha gente em várias séries, mas o espaço físico era o mesmo.

• Página em branco
Depois, no final da adolescência, passagem para a idade adulta, houve um branco de leitura. Até os vinte e poucos anos, parei de ler e fui fazer outras coisas menos produtivas e recomendáveis. Foi um período difícil, porque estava angustiado com essa questão da faculdade, sabia que não era aquilo que eu queria fazer. [Entrei no curso] Por falta de opção, na verdade. Aquela educação pequeno-burguesa: chega à idade da faculdade, faz Direito, Medicina ou Engenharia. Fui por eliminação: Direito, sempre achei uma coisa muito sórdida; medicina, até hoje vou tirar sangue e começo a ter tontura; aí, sobrou engenharia.

• De repente
Já estava formado, trabalhando como engenheiro, mas sempre numa imensa crise existencial. Logo depois que me formei, tinha vinte e três anos, fui trabalhar como engenheiro de obras e fiquei quatro anos circulando por todo o Rio Grande do Sul, morando em hotel. Foi um período em que li de maneira absurda. Porque no canteiro, quando a obra não está atrasada, o trabalho termina cedo. Às vezes, às cinco horas eu já ia embora. E em cidades do interior, pequenas, não tinha nada para fazer. Ia para o hotel e ficava lendo até de madrugada. Isso todos os dias, durante quatro anos. Mas lia sem critério, um pouco de tudo — sobretudo ficção, mas outras coisas também. E de repente me peguei escrevendo uma história. Sem planejar, sem me dar conta. Aos vinte e seis, vinte e sete anos, foi aí que comecei [a escrever]. E de repente estava com um texto que já tinha dez ou quinze páginas. Também por acaso, no momento em que estava escrevendo essa história — que nunca terminei, aliás, já nem sei onde está mais —,vi uma notinha de uma oficina literária que estava abrindo em Porto Alegre. Eu não sabia o que era aquilo, mas fui ver. E foi super legal, porque eu vinha de um longo período de solidão com a literatura: nunca tive em casa alguém com quem pudesse falar sobre literatura; na escola também não tive aquele professor que te “põe no caminho”; fui fazer uma faculdade que não tinha nada a ver com isso — lá também eu era um peixe fora d’água —; e depois, sozinho, lendo nos quartos de hotel. Vinha dessa extrema solidão e de repente encontro pessoas que estão mais ou menos buscando a mesma coisa que eu, com quem posso falar de coisas que me tocam e me informar sobre livros. A oficina foi fundamental para mim sobretudo nesse aspecto. Acho que para todo mundo, um dos grandes lances da oficina é criar uma rede de interlocução, de troca.

• Contra a mediocridade
Foi aí que decidi [que queria ser escritor], até porque [antes] não sabia o que queria e o que podia fazer. Estava fazendo engenharia, trabalhando, mas me achava muito medíocre naquilo, no sentido exato do termo: uma coisa mediana mesmo. Nem mais, nem menos. E em outras atividades também me via medíocre. Quando comecei a escrever e a ter retorno do orientador, dos colegas da oficina, achei que podia fazer aquilo com alguma competência. Para fugir um pouco da minha mediocridade. E aí me atirei, fiz essa primeira oficina, depois participei da seleção para a oficina do Assis Brasil, que foi também excelente em termos de aprendizado. E nesse tempo todo fui escrevendo contos. Em dois anos, tinha um material que depois foi transformado no primeiro livro [O vôo da trapezista]. Eu estava ainda na oficina quando reuni esse material e enviei ao IEL [Instituto Estadual do Livro], uma coisa bacana que tem no Rio Grande do Sul, até hoje eles têm um edital, recebem textos de autores iniciantes, fazem a seleção e publicam, em uma coedição com uma editora comercial. Foi assim que saiu esse primeiro livro.

• Rompimento
Tem tanto autor que foi e continua sendo fundamental para mim… Vou citar os que foram decisivos: Kafka, Cortázar, Beckett. A leitura de O processo foi uma coisa brutal, mexeu de fato comigo e de certa forma é responsável por eu ter começado a escrever. Me transformou mesmo. É difícil essa coisa do poder de transformação da literatura. Encarando como uma viagem pessoal, ela teve essa capacidade de me transformar. A leitura de O processo me fez romper, por exemplo, com a engenharia, com aquilo que eu vinha fazendo.

 

“Se não fosse por prazer, eu não escreveria. Não faria uma coisa que ninguém me pede, que ninguém está esperando, que vai ter um eco — se tiver — ínfimo.”

“Se não fosse por prazer, eu não escreveria. Não faria uma coisa que ninguém me pede, que ninguém está esperando, que vai ter um eco — se tiver — ínfimo.”

 

• Sem planos
Sou muito lento na escrita. Não só nela — em tudo, na leitura também. Mas é curioso, porque se a gente pega o Os lados do círculo e Barreira, eles podem passar a impressão de uma coisa bastante cerebral, bastante estruturada, pensada, elaborada. Acho que é — no fundo estão bastante elaborados, os livros são muito orgânicos. Mas é uma coisa que vem a posteriori, na verdade. Quando começo, começo mesmo de muito pouco. Normalmente é uma imagem, mas pode ser uma frase, uma vaga idéia, e a partir daí vou escrevendo. Os contos são assim: vou escrevendo e vendo no que vai dar. Claro que esse “método”, digamos assim, implica em voltar e reescrever muitas vezes. Por isso que no fim passa a impressão da coisa bastante planejada. Mas não tem esse plano inicial. A estrutura vem depois.

• Matemática
Estudar qualquer coisa sempre ajuda. Não vejo em que o estudo do cálculo diferencial, por exemplo, pode atrapalhar na minha literatura. Pode não ajudar, mas atrapalhar não vai. É conhecimento, é uma coisa que agrega sempre. Acho que acabei trazendo para a minha literatura um pouco dessa coisa mais matemática — essa estrutura, essa organicidade.

• Complexo de poesia
Sou péssimo leitor de poesia. Na verdade, me sinto despreparado. Mas é como toda leitura: envolve treinamento, investimento pessoal. E acho que não fiz na hora certa e de fato me sinto despreparado para ler poesia. Posso ter um olhar complexado em relação a ela como alguns leitores de uma literatura mais corrente, não literária, que se sentem às vezes intimidados diante da literatura, de abordá-la, por essa falta de preparo. É assim que eu me sinto em relação à poesia.

• Universo pessoal
Não sei se ajuda [ter vivido em diferentes países], mas aparece. Influencia. Por exemplo, nesse livro [Barreira] que se passa em Istambul — porque faz parte de um projeto [Amores Expressos] em que a história deveria se passar lá —, eu não consegui deixar de meter uma parte parisiense. Justamente porque na época eu vivia lá há algum tempo e já fazia parte do meu universo. Foi quase natural falar de alguma coisa que eu vivenciava todo dia. Faz três anos que vivo em Lisboa. Se fosse escrever uma história hoje, teria Lisboa de alguma maneira. Porque é o meu cotidiano, o meu universo. E me sinto muito mais à vontade para falar do que estou vivendo.

• Barreira
Simplesmente ignorei essa parte [a obrigatoriedade de escrever uma história de amor na coleção Amores Expressos], porque se você quiser, todas as histórias são histórias de amor. Fui para lá [Istambul] sem nada na cabeça, só para experimentar a cidade, ver o que ela me passava, sentir sua atmosfera, fazer de conta que era seu habitante. Passei o mês assim, sem me preocupar em bolar alguma coisa. E os meses seguintes, quando voltei, se passaram assim também. Fui em 2007, em junho, e até setembro eu não tinha escrito nada. Não tinha idéias. Em setembro escrevi a primeira frase do que ficou. E aliás não fui eu, foi a minha mulher: comecei a ficar ansioso porque não tinha idéia nenhuma, aí ela escreveu uma cena para mim: quando eu estava em Istambul e ela na França, a gente se comunicava por Skype, e teve um momento em que queria lhe mostrar uma coisa que estava vendo na janela mas ela não via nada. Depois ela relatou isso, ficcionalizou. E é a cena inicial do livro. Levei cinco anos trabalhando nele e foi da mesma forma: parti de uma coisa muito vaga. A idéia inicial era desse pai atrás de sua filha: um turco que saiu de Istambul aos seis anos, foi para Porto Alegre e fez sua vida toda lá; sua filha, porto-alegrense, cresceu ouvindo as histórias do pai sobre a cidade, resolve ir para Istambul e o convence a voltar à cidade quase sessenta anos depois. Chegando lá, ela está desaparecida, ele não sabe o que aconteceu e começa a peregrinação pela cidade em busca da filha. Mas é uma busca que pouco a pouco se transforma também numa busca pela cidade da infância dele, que também não existe mais porque é outra cidade. Mas a idéia inicial é desse pai atrás da filha desaparecida. Todo o resto foi vindo depois.

• Reflexo na forma
Não foi premeditada a questão de um capítulo inteiro ser escrito em uma frase só. Eu comecei a escrever e a frase foi se alongando, se alongando, se alongando, até o momento em que eu decidi: pronto, esse ritmo está legal, casa com a peregrinação do pai pela cidade, com a busca, e é assim que eu vou trabalhar. Aí sim passou a ser uma espécie de regra. Tem uma frase que dá cinqüenta páginas. Em cada uma das partes do livro eu queria fazer isso de maneira diferente: não simplesmente relatar o encontro, não simplesmente relatar aquela peregrinação, mas queria que isso tivesse um impacto no leitor também através da forma com que aquilo estivesse disposto, através de um trabalho de linguagem. Porque é assim que eu concebo a literatura: como um trabalho de linguagem, de forma.

• Leitor ao trabalho
Eu sabia que estava correndo risco. Porque o livro tem uma primeira parte que é difícil e complicada: se o leitor não embarca, não se deixa levar por aquele fluxo, ele larga mesmo. Aí tem uma segunda parte que pode ser chata porque funciona em cima de repetições de uma mesma cena, de variações sobre essa mesma cena. O livro só vai ter fluidez mesmo, na minha leitura, a partir da terceira parte. Não é pôr o leitor à prova, mas é um livro que precisa de certa parceria com o leitor. Não sei se tenho o direito de pedir essa parceria de antemão, mas o livro precisa de um leitor que acredite, que vá junto. Na verdade, é uma relação sempre complicada entre texto e leitor: exige esforço do leitor, de um lado, para continuar, para insistir, às vezes até tropeçando, mas indo adiante; e do texto em continuar querendo cativar esse leitor. É uma relação que pode se romper a qualquer momento. Isso sempre esteve muito claro para mim. Ao mesmo tempo, fazer uma coisa facilzinha, simplesmente para ganhar o leitor, levá-lo pela mão, não tem sentido para mim. Porque aí vem aquela coisa do leitor ideal: quando estou escrevendo, não penso no leitor. Ou, se penso, é no leitor que eu sou. E o que gosto de ler é realmente um texto que me faça pensar, trabalhar, questionar sobre ele, sobre sua gramática, sobre a forma como ele está organizado, sobre como a linguagem está trabalhada. Por que é assim, por que tem aquela série de repetições, por que tem esse fluxo narrativo? Quero que o leitor se indague sobre essas coisas. Não quero um texto que possa ser lido no piloto automático. Isso não me interessa — nem como leitor nem como escritor. A gente não escreve o que quer, escreve o que pode. Mas, claro, tentando levar o máximo possível para aquilo que se idealizou. Não que eu escreva o que queira ler, tipo: “Não encontrei nada na literatura universal que gostaria de ler, então vou fazê-lo”. Não, isso eu acho petulância. Mas escrevo para o tipo de leitor que sou: gosto de textos que me botem a trabalhar, que me esquentem os miolos, me façam pensar.

 

“É uma relação sempre complicada entre texto e leitor: exige esforço do leitor, de um lado, para continuar, para insistir, às vezes até tropeçando, mas indo adiante; e do texto em continuar querendo cativar esse leitor. É uma relação que pode se romper a qualquer momento.”

“É uma relação sempre complicada entre texto e leitor: exige esforço do leitor, de um lado, para continuar, para insistir, às vezes até tropeçando, mas indo adiante; e do texto em continuar querendo cativar esse leitor. É uma relação que pode se romper a qualquer momento.”

 

 

• Obra em movimento
O vôo da trapezista é um livro de iniciante, bem ingênuo. Não [o renego]. Se tivesse que publicar de novo, talvez tirasse alguns contos, mas de outros ainda gosto. Os demais, acho que já são bem mais maduros. Agora, não sei mensurar a evolução [na minha obra]. Até pode não ter uma evolução no sentido de ir do pior ao melhor, mas tem uma transformação — temática, ou de forma. Eu passei do conto para o romance, achei que nunca ia escrever um romance. E apesar de ter quebrado pedra mesmo, de ter sido muito difícil, curti bastante. Como gênero, te dá uma liberdade incrível. Pretendo continuar trabalhando por aí. Tenho material para um livro de textos curtos, que são os que escrevia para o Terra Magazine: ficções — não exatamente contos, mas ficções. Depois disso, pretendo voltar ao romance.

• Loteria
O prêmio é uma loteria. Você nunca sabe o que se passa na cabeça dos jurados, cada prêmio tem uma comissão julgadora e isso muda de ano para ano. Quando envolve literatura, é uma coisa muito pessoal sempre, muito subjetiva, e a avaliação dos jurados passa por essa subjetividade. Não existe receita para ganhar prêmio. Sobretudo o Portugal Telecom, que é um dos mais importantes e na época era o mais importante. Achei que ia me abrir portas para traduções e que o livro ia vender bastante. Não aconteceu absolutamente nada. Desde que saí [do Brasil], não aproveitei essa febre dos festivais, mas isso está permitindo que as pessoas consigam ter uma fonte de renda de palestras, etc. Porque senão, o que sobra? Direito autoral não dá. Eu faço tradução, não só de literatura, coisas técnicas também, palestra para professor, na França dava aula de português, dava aula na universidade, fazia oficinas literárias em Portugal.

• Recusas e aprovações
O primeiro livro que enviei para a Companhia das Letras é o que ganhou o tal prêmio [Os lados do círculo]. Não conhecia as pessoas lá dentro. Tinha a indicação da Heloisa Jahn, mandei para ela. Não era exatamente Os lados do círculo, era um texto que depois se transformou nesse. Eu recebi depois de algum tempo um e-mail da Heloisa dizendo que mais de uma pessoa lá dentro havia lido, acharam que o livro tinha altos e baixos e a decisão era de que não iam publicar. E ela terminou o e-mail dizendo que ficou com muita vontade de trabalhar comigo. Não quiseram o livro como eu o apresentei, mas senti que tinha uma porta aberta. Já tinha tentado publicar esse livro por várias editoras, foi o que mais custou a sair. Tenho ainda uma pastinha com recusas: as pequenas, médias, grandes editoras, estão todas lá. Ninguém queria. Até que vi: o livro é muito ruim, vou partir para outro. Aí fiz Deixe o quarto como está. Quando terminei, a primeira coisa que fiz foi enviar para a Heloisa. Demorou um tempo e ela um dia me telefonou dizendo que iam fazer o livro — o segundo que eu mandava para lá. Ele foi muito bem recebido, teve críticas muito boas, e eles me falaram: “Mas e aquele primeiro livro, quem sabe a gente não pega ele de novo”. Bom, eu já tinha retrabalhado e retrabalhei novamente a partir das sugestões que eles me deram, e saiu esse livro que ganhou o Portugal Telecom. Para ver como a coisa é mesmo uma loteria, até no fato de o livro ser lido. Estive na Companhia quando a Heloisa trabalhava lá e ela me mostrou, no seu escritório, uma pilha de originais. Ela dizia: “Tudo isso chegou para mim — os outros editores já têm a sua pilha. Eu não vou conseguir dar conta, mas tenho certeza de que aí dentro tem coisa boa que a gente aprovaria”.

• Exílio
Esse distanciamento [do Brasil] tem o lado bom e o ruim. O bom é que é fundamental certo distanciamento do meio literário, pelo menos da vida literária, para o escritor. Para produzir, você tem que estar um pouco retirado de todo o resto. Nesse sentido, o exílio, quando voluntário, é uma posição no mínimo interessante para o escritor. Agora, senti falta de uma interlocução. Achei que não fosse sentir, porque mesmo quando estava aqui sempre fiquei mais na minha e naquela de “posso escrever em qualquer lugar”. Mas foi muito complicado quando saí daqui. Fiquei mais de um ano sem escrever nada, nenhuma linha. E um pouco por falta de ter com quem dialogar. É uma coisa de que ainda hoje me ressinto.

LEIA RESENHA DE BARREIRA.

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