Dom Casmurro

janeiro 2019 / Dom Casmurro / Adri Aleixo

Texto publicado na edição #225

Adri Aleixo

Quatro poemas de Adri Aleixo

> Por Adri Aleixo

Lori Figueiró, Rio Jequitinhonha, Coronel Murta, maio de 2017

Lori Figueiró, Rio Jequitinhonha, Coronel Murta, maio de 2017

Estas árvores não foram pensadas para o Sertão

Vieram do bico d’algum pássaro

nasceram perto do rio
e têm memória de mar

A menina passa pra buscar a tabatinga
as raízes do pequizeiro rompendo esperas não lhe ensinam nenhuma paciência
Ladainha para um dia qualquer

Com alguma sorte
ela pode dividir o dia em dois
manhã e noite
como quem divide o chuchu
e reparte entre os filhos
suas bocas rotas
famintas
o dia
a casa
essa membrana invisível
medrando afora vontades
o dia
que ainda sendo noite é dia
e não termina até que se faça sopa
até que se tenha água
esquente o fogão
a serpentina
os muitos banhos
os quartos
cobertas
velas
rezas
dorme com Deus, mãe!

Lori Figueiró, São Gonçalo do Rio das Pedras, Serro, março de 2016

Lori Figueiró, São Gonçalo do Rio das Pedras, Serro, março de 2016

As latas na cozinha

Agora que virou o ano
a cozinha tem alguma ou outra novidade
a folhinha do Cristo na parede
o anuário do papa
e as latas de pêssego e goiabada
que embora tenham ganhado alças
pousam na janela como pássaros
Mulher na roca

Se o sol batesse nela
a essa hora do dia
teríamos a imagem de um jarro
as mãos em cálice amparando
o som os fios
olhando mais de perto, sentiríamos vivos
a casa, os móveis
as folhas de carvalho
onde vivem a neta, os filhos
falaríamos de coisas complicadas e outras elementares
de certo, eu acharia tudo doído
mas ela diria: é o ciclo

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