A literatura na poltrona

janeiro 2017 / A literatura na poltrona / A supremacia do leitor

Texto publicado na edição #201

A supremacia do leitor

Fala-se muito da solidão do escritor, e ela é, de fato, uma solidão radical

> Por JOSÉ CASTELLO

Ilustração: Fabiano Vianna

Ilustração: Fabiano Vianna

Milan Kundera relata, em A arte do romance, a história de sua primeira leitura de O castelo, de Kafka, feita aos catorze anos de idade. No início da adolescência, rememora, acompanhava com emoção o campeonato de hóquei no gelo. Um dos jogadores, que tinha como ídolo, era seu vizinho. Ao defrontar-se com K., o protagonista do romance, imediatamente lhe deu os traços desse jogador. “Até hoje o vejo assim. Quero dizer que a imaginação do leitor completa automaticamente a do autor”.

Avançando um pouco nas lembranças de Kundera, podemos concluir que todo leitor é, ele também, um criador. Todo leitor é, de certo modo, ainda que não tenha escrito uma única linha, um escritor também. Não escreve com uma caneta, ou com um computador; escreve com a cabeça. Se você é incapaz de imaginar a história que lê, se não conseguir transportá-la para seu interior, simplesmente não conseguirá ler. A leitura é, portanto, uma aventura a dois. Podemos dizer mais: a literatura é, ela também, uma experiência a dois. Uma experiência compartilhada. Até avançar mais um pouco: a literatura é uma experiência amorosa.

Fala-se muito da solidão do escritor, e ela é, de fato, uma solidão radical. Debruçado sobre seus originais por meses, anos a fio, o escritor precisa romper com o mundo externo para, através das palavras, encontrar uma nova via de acesso a este mesmo mundo. Quando enfim entrega seus originais ao editor, essa solidão diminui um pouco porque, enfim, será lido por alguém. Mas não é essa leitura técnica, “de especialista”, que lhe interessa. Um escritor só se torna de fato escritor quando suas palavras são devoradas pelo leitor anônimo. Não só devoradas, mas divididas com ele.

Eu, por exemplo, quando li pela primeira vez A metamorfose, de Kafka, aos treze anos de idade, identifiquei-me de tal modo com Gregor Samsa que só conseguia vê-lo com minhas próprias feições. Já reli A metamorfose muitas vezes desde então, mas essa sensação de espelhamento nunca se apagou. Posso afirmar, (mal) imitando Flaubert: “Eu sou Gregor Samsa”. Só que Flaubert falava desde a posição do autor, enquanto eu sou apenas um leitor. Apenas? Sem minha visão íntima de Samsa, sem as milhares de visões possíveis de Samsa produzidas pelos milhares de leitores da novela em todo mundo, o personagem de Kafka simplesmente não existiria.

Participo, com frequência, de júris literários — essa tarefa algo insensata que me obriga a dizer qual livro é superior a outro e por quê. Nas reuniões dos jurados, é comum ouvir participantes se desculparem porque, de tal modo se envolveram com um livro, que — lamentam-se — não conseguiram se afastar de uma “leitura pessoal”. É o que chamo de leitura sentimental — aquela que é feita com os nervos e com fantasia, mais do que com o intelecto e a razão. Toda leitura, a rigor, é sentimental. Mesmos os mestres universitários, que nas reuniões literárias se armam de argumentos teóricos para defender seus livros preferidos, não conseguem, no fundo, dela se afastar.

E isso por quê? Porque, muito além de qualquer intermediação teórica, ou técnica, a leitura de um livro transcorre, antes de tudo, em nosso interior. Ali onde a imaginação reina — e não adianta escorraçá-la para a cozinha das imperfeições porque ela sempre volta para a sala principal. Nessas reuniões de jurados, muitas vezes os argumentos ostentados por um deles são muito mais ricos e reluzentes do que os próprios livros. Nenhuma “grande argumentação”, contudo, anula aquela leitura secreta que o jurado tenta esconder como se fosse “menor”. Toda leitura é sempre apaixonada porque ninguém lê sem o recurso da imaginação, e a imaginação é sempre pessoal, secreta e sentimental.

Tenho muitas e graves restrições à educação que recebi nos tempos de escola. Mas uma delas me enriqueceu de maneira especial: o exercício que os professores chamavam de “leitura silenciosa”. Trata-se, a rigor, de uma redundância: toda leitura, mesmo aquela em voz alta, guarda um aspecto silencioso e oculto. Mais do que o que se possa dizer sobre uma narrativa (e os mestres, certamente, poderão dizer muitas coisas impressionantes), interessa aquilo que não se pode dizer e que, apesar disso, está ali e, mais do que isso ainda, é o próprio cimento da leitura, ou tudo desaba. O jogador de hóquei que inspirou da leitura que Milan Kundera fez na adolescência de O castelo se tornou, à sua revelia, um elemento essencial da narrativa kafkiana. Ao emprestar sua face a K., ele ajudou o pequeno Milan a reconstruir, dentro de si, o livro que lia. Essa reconstrução interior é, a rigor, a própria leitura.

Livros fechados simplesmente não existem, não passam de um amontoado de folhas de papel. Livros só existem — afirmou um dia Augusto Roa Bastos, numa definição que estou sempre a repetir para nunca me esquecer — dentro da cabeça do leitor. Mesmo a cabeça do escritor não é tão importante assim, o leitor vem sempre à sua frente. Permitam-me um exemplo pessoal. Acabo de lançar um livro, Dentro de mim ninguém entra, que escrevi pensando, ou tentando pensar, no público infantojuvenil. Primeira leitora de minha narrativa, uma amiga querida que é também uma prestigiada crítica literária, não hesitou em me dizer: “as crianças não vão entender nada do que você escreveu”. Temo que, provavelmente, minha amiga esteja certa. Tentei fazer uma coisa, e fiz outra. Mas na literatura, e também na vida, não é quase sempre assim?

O importante nessa observação sincera de minha amiga é a constatação de que o que pensei enquanto escrevia meu livro não tem a menor importância. Ele só terá importância — só existirá — quando encontrar leitores que possam digeri-lo, isto é, que consigam pensá-lo, ou imaginá-lo. Leitores que possam decodificar aquele amontoado de letras e transformá-lo em imagens interiores. Então, minha história já não estará mais nas páginas do livro, mas na cabeça de meus leitores. E nenhum escritor consegue adivinhar o tipo de leitor que chegará a digerir o que escreveu. Só uma primeira leitura — a leitura de minha amiga — começa a emprestar uma face ao livro e aos personagens que o habitam. Só na cabeça desse primeiro leitor a história começará, de fato, a fazer algum sentido.

Uma vez publicado (uma vez dado a público) nenhum livro pertence mais a seu autor. Você foi apenas um instrumento, que agora pode ser descartado. Tudo o que resta de você é um nome: uma assinatura. Ela pode despertar o sentimento de nobreza, ou, ao contrário, de descrédito, mas também ela é irrelevante diante do que se passa nos interiores secretos de cada leitor. Os leitores, sim, deveriam assinar os livros, e não os escritores.

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