A literatura na poltrona

outubro 2016 / A literatura na poltrona / A potência da preguiça

Texto publicado na edição #198

A potência da preguiça

O ócio é amaldiçoado, como venenoso e destrutivo

> Por JOSÉ CASTELLO

Ilustração: Bruno Schier

Ilustração: Bruno Schier

No mais odioso senso comum, poetas são quase sempre vistos como homens preguiçosos. Homens que gastam seu tempo sem nada fazer, à espera de que a inspiração — ou que nome se prefira dar — venha salvá-los. Não sou poeta, mas, como vivo de escrever, outro dia tive que ouvir de um vizinho no elevador: “E como vai essa boa vida? Como é viver sem fazer nada?”. A falsa gentileza era uma agressão dissimulada. Incluía raiva — talvez ódio. Como me sustento se “apenas” escrevo? Como tenho a desfaçatez de resumir minha vida à leitura e às palavras?

A dor dos poetas, que fazem da inutilidade e da preguiça sua matéria de trabalho, certamente é muito maior do que a minha. Ela se expressa em Da preguiça como método de trabalho, de Mario Quintana, livro publicado em 1994, no ano da morte do poeta gaúcho. “Os moralistas condenam o que eles não têm coragem de praticar”, escreve Quintana, como resposta aos defensores da ação louca. A preguiça, a meditação, o devaneio, a contemplação parecem, em um mundo que endeusa a conquista e o lucro, improdutivos e obscenos. Mesmos nas férias, o homem contemporâneo precisa agir: viagens, aventuras, esportes radicais, peripécias. Seguidos de imagens instantâneas no whatsApp e Facebook. Não se pode mais parar.

Contudo, sem um intervalo — sem a preguiça — a poesia não se faz. A poesia está na pausa. Está, mais que tudo, entre as próprias palavras. Lembro aqui de Gerry Maretzki, a terapeuta corporal e amiga, que sempre me falava do “espaço entre”.Da importância do intervalo e da lentidão. Não se trata, como alguns podem julgar, de um efeito moral da velhice. Ao contrário: Quintana exalta a juventude, “idade em que a gente lê sem estar pensando em outra coisa”. Tempo da concentração absoluta — da entrega total. Tempo hoje desperdiçado pelos adolescentes que se deixam hipnotizar nos jogos eletrônicos e que se embriagam pelas ruas caçando Pokémon. Lembro-me de minha adolescência: horas e horas deitado em uma rede, relendo sem cansar o mesmo Robinson Crusoé. Homem de ação, meu pai me perguntava: “Você não tem coisa melhor para fazer?”. Será que hoje, tivesse eu quinze anos, conseguiria a mesma entrega?

“O céu é dos sábios, o mundo dos sabidos”, diz Quintana, denunciando a falácia guardada na esperteza e na rapidez, outros valores cultuados em nosso mundo diário. Olhar para o céu — quem tem tempo para isso? Aliás: nas grandes cidades super iluminadas ainda existe um céu a contemplar? Sabia Quintana que “o limite de um poema é uma página em branco”. É desse branco, desse vazio que a poesia, enfim, emerge. Sem ele, tudo o que temos é ruído e repetição. Gerry me dizia: sem parar, sem se entregar à grandeza do ócio, ninguém aguenta. Mas quem consegue parar hoje em dia?

Também contemplar o vazio — observar o nada — é visto, hoje, como um sinônimo da preguiça. O ócio é amaldiçoado, como venenoso e destrutivo. Ócio: cessão de trabalho, quietação, vagar. Hiato, silêncio, lentidão, todos esses estados que o mundo contemporâneo menospreza e condena. A lentidão, em especial, é matéria nobre da poesia. Quanto tempo — às vezes, anos — um poeta leva para encontrar um único verso? Por vezes: uma única palavra. Não acredito em inspiração, mas em espera. Ao poeta cabe, antes de tudo, esperar e esperar. Esperar o quê? Que o acaso — um pensamento impreciso, uma visão súbita, um incômodo qualquer — nele esbarre e o desloque. Escreve Quintana: “Vale a pena estar vivo — nem que seja para dizer que não vale a pena”. É desse tropeção, acolhido como potência, que as palavras nascem.

A preguiça, a meditação, o devaneio, a contemplação parecem, em um mundo que endeusa a conquista e o lucro, improdutivos e obscenos. Mesmos nas férias, o homem contemporâneo precisa agir: viagens, aventuras, esportes radicais, peripécias.

Só a preguiça permite ao poeta não acreditar demais nas imposições do real. “Enforcar-se é levar muito a sério o nó na garganta.” O poeta é aquele que ri um pouco do que o cerca. E para rir é preciso entregar-se ao ócio, espreguiçar-se, desarmar-se. Nos dias de hoje, contudo, todos querem ser rápidos e espertos. A esperteza e a rapidez tornaram-se valores universais, supostas condições para o bem viver. Mas e se viver bem for simplesmente não fazer nada?

Quintana propõe, em resumo, uma radical adesão à vida — e a vida é lenta, é escorregadia, é preguiçosa. Nessa inscrição das palavras na quentura natural da existência, ele manifesta um sonho: escrever “um poema em que não se notasse nem a suspeita ênfase da simplicidade e que, ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração”. Levanta-se, assim, primeiro contra as maneiras afetadas (os trejeitos pedantes, as ênfases esnobes) no escrever. Em seguida, expressa seu desejo de que o poema possa surgir naturalmente (lentamente, preguiçosamente), segundo o ritmo próprio do corpo de quem o escreve. Um poema, enfim, que fosse o prolongamento do corpo e de sua respiração.

Teve consciência da insignificância dos poetas e aqui também afirma seu respeito pelas limitações, pelas fronteiras emocionais, pelas coisas pequenas. “As distâncias não são grandes: nós é que somos pequenos”, diz. Destrói, em uma frase, o Ego inflado dos poetas pernósticos, fazendo, ao contrário, uma opção pela própria altura e pela própria pequenez. Diz mais: é só porque poetas são seres precários que as distâncias da poesia — a grande muralha das palavras — lhes parecem, por vezes, tão grandes. É tudo não só bem pequeno: é tudo, antes de tudo, humano. A vida, outra vez, comparece como um elemento crucial da escrita.

Quando menino, tomado pelas questões metafísicas próprias da infância, Quintana se deslumbrava com a grandeza das coisas pequenas. Inevitável aqui recordar de Manoel de Barros e de seu apreço pelas inutilidades. Pelos “inutensílios”. Escreve Quintana: “Depois dessas crises metafísicas provocadas pela noção do infinitamente pequeno, confesso que nunca cheguei a me impressionar muito com os arroubos de meus professores de cosmografia, a propósito das fabulosas distâncias estelares”.Contra as galáxias, uma formiga. Acima dos buracos negros, um resto de pano. Além das distâncias cósmicas, as poucas pegadas de um quintal. Coisas simples, coisas preguiçosas — cuja grandeza não está no salto desesperado, mas na contida meditação. A poesia nasce desse elo preguiçoso com o mundo. Talvez ela seja a própria preguiça que se faz palavra.

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