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abril 2011 / Entrevistas / A marca do futuro

Texto publicado na edição #133

A marca do futuro

Uma das maiores especialistas em Macedonio Fernández, a professora Mónica Bueno não cansa de exaltar as virtudes ficcionais, filosóficas e […]

> Por FLÁVIO ILHA

Uma das maiores especialistas em Macedonio Fernández, a professora Mónica Bueno não cansa de exaltar as virtudes ficcionais, filosóficas e biográficas do autor argentino — em certo momento, lembra do célebre mictório de Duchamp para celebrar o não-romance em que se constitui Museu do Romance da Eterna, recém-lançado no Brasil.

“As fronteiras entre coisa e objeto de arte se esfumam e só resta o espectador diante de um mictório decidindo em que lugar da divisória objeto/obra de arte coloca essa coisa privada e como define a obscenidade dessa representação. Um romance que não é um romance parece uma frase apropriada para sintetizar o Museu…”, escreve por e-mail desde a Universidade Nacional de Mar Del Plata, onde leciona literatura argentina. Autora de Macedonio Fernández, um escritor de fim de século (sem edição no Brasil), Mónica respondeu às seguintes perguntas ao Rascunho.

• Qual a importância que Macedonio tem para a literatura argentina?
Macedonio Fernández é o ponto mais extremo da nossa vanguarda. Seu senso de experimentação é tão forte que constitui a forma da sua literatura e também o sentido da sua vida. A obra de Macedonio tem a marca do futuro porque pressupõe sempre um leitor que ainda está por vir. E essa cumplicidade se estende a todos os lugares do espaço literário: o autor deixa de ser um demiurgo onipotente, o leitor será convertido em personagem, entenderá sua condição humana a partir da ficção e terá, momentaneamente, o susto da inexistência. Ao mesmo tempo, poderá ser o continuador de uma literatura infinita como propõe o Museu… Os grandes escritores da segunda metade do século 20 são leitores de Macedonio. Muitos reconheceram os rastros dele na sua produção — caso de Jorge Luis Borges, Ricardo Piglia, Juan José Saer, Ricardo Zelarayán, apenas para citar alguns nomes.

• Como se dá essa experiência de vanguarda?
Macedonio faz parte do conjunto de “escritores do limite”: Nietzsche, Bataille, Klosowski são, entre outros, seus parentes. São os que aguçam o sentido de dessubjetivação que Foucalt buscava. A foto de Macedonio com o poncho ao ombro e em pose de pajador parece ser o “punctum” barthesiano que mostra essa espetacular aliança do novo com a tradição. Como Mario de Andrade em Macunaíma, Macedonio apela a um leitor que aceite essa estranheza como matriz produtiva, que entenda esse espaço particular que Silviano Santiago definiu como o “entrelugar”.

Museu… é sua obra mais importante?
Evidentemente que é sua proposta literária mais vanguardista, onde pretende relatar, como Dante, a experiência ficcional do fantasma da amada que só existe no espaço do romance. Macedonio escreve para completar a falta de um mundo real. A experiência da ausência é “traduzida” — “inventada”, como ele define — para o mundo do romance. A representação é, então, o dispositivo desse movimento da vida à ficção. A experiência de mundo se transforma em experiência estética. Poderíamos dizer que o que está se contando no romance não é a experiência em si, mas a percepção dessa experiência.

• Que efeitos ele buscava com essa literatura?
Um efeito ao mesmo tempo filosófico e estético. Podemos dizer que é um efeito sobre a experiência do leitor: trata de sacudir a constituição do sujeito no mundo. Macedonio chama isso de “mareo” do leitor, que pode ser traduzido por enjôo, náusea. Com esse efeito, ele busca mostrar que a experiência pessoal é única e sempre renovada. Ele abominava o realismo porque considerava que a arte deve explorar outras possibilidades da vida, ao invés de dedicar-se a representar o mundo tal qual uma época, ou uma sociedade, o concebem. E a literatura, em particular, deveria outorgar um sentido novo ao mundo e aos homens.

• Macedonio foi, ou é, muito lido na Argentina?
Museu do Romance da Eterna e seu autor construíram uma comunidade de leitores que, ao longo do tempo, tem crescido significativamente. Na verdade, descobrimos Macedonio por meio de Borges, amigo e admirador do pai do escritor. Macedonio foi durante muito tempo quase um personagem de Borges, a ponto de alguns duvidarem de sua existência. Em certo sentido, não podemos deixar de pensar na independência de Macedonio como escritor em relação à máscara do autor e aos registros sociais dessa máscara. A importância desses códigos chega a ser tamanha que diminuiu sua corporificação a ponto de, para alguns, como já disse, ser um personagem inexistente. Milhares de anedotas sobre ele mostram esse jogo irônico com sua própria figura de escritor. Não será essa, por acaso, a pretensão última desse homem que tinha como objetivo elucidar o mundo desde um quarto de pensão?

• O que lhe parece o Museu… hoje, depois de tanto haver escrito sobre ele?
Museu… é uma linha que atravessa a vida de Macedonio desde os seus 20 anos até o final, como uma flecha do tempo. Durante 50 anos ele escreveu um work in progress duplo, que se multiplica postumamente ao, por exemplo, instalar a função de autor como categoria textual ou postular uma taxonomia (classificação) do leitor — onde se constrói o leitor “salteado”, mas inexistente — até quase anular a inserção da narrativa no gênero do romance. Todos esses artifícios são marcas de ruptura. O que ocorre no Museu…, onde os personagens se convertem em não-existentes, onde o leitor se transforma em personagem, onde o autor deixa o legado de um mundo inventado para outros autores? O museu imaginário de Macedonio é uma arquitetura enganosa, que desilude o caminho seguro do leitor “seguido”. A desordem de formas e lugares tem nessa dissonância sua evidência. E no silêncio, a sua reviravolta invisível. Museu e obra de arte — estância e romance — significam a mesma coisa. Forma e conteúdo dão conta do “mareo”, do enjôo do leitor. Quem é o autor? Quem é o narrador? Quem é o personagem da história do complô? Como figuras intercambiáveis de um jogo de estratégias, Macedonio põe em prática a concepção barthesiana da morte do autor. Não se tratam mais de dois movimentos distintos, duas instâncias — autor e livro —, mas um mesmo movimento, único e paradoxal, que remete à relação entre vida e literatura. Museu…, por isso, transforma o gênero no qual se inclui e resulta num desses objetos deslocados porque sua forma é pura dissonância. Trata-se de um artefato anti-romanesco.

LEIA resenha de Museu do Romance da Eterna.

LEIA texto sobre a relação entre Macedonio e Borges.

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