Ensaios e Resenhas

julho 2017 / Ensaios e Resenhas / A longa distância

Texto publicado na edição #207

A longa distância

Pesquisadora aborda a dificuldade de os autores africanos encontrarem espaço no mercado editorial brasileiro

> Por Larissa Lisboa

Ilustração: Kleverson Mariano

Ilustração: Kleverson Mariano

Ao perguntar aos leitores brasileiros, frequentadores de bibliotecas públicas ou de grandes livrarias, quais são os autores africanos que eles já leram ou conhecem, dois nomes são sempre citados, Chimamanda Adichie e Mia Couto.

Chimamanda Ngozi Adichie é uma escritora nigeriana que vive nos Estados Unidos. Seus livros fazem parte do que se convencionou chamar de literaturas da diáspora, escritores que escrevem sobre os seus países de origem, embora estejam em outros espaços. O caso particular de Chimamanda chama a atenção do leitor brasileiro não apenas por ser uma escritora da diáspora e que faz muito sucesso em diversos países, mas também pelos temas escolhidos por ela, como o feminismo, a exemplo do livro Sejamos todos feministas, publicado em 2015, pela Companhia das Letras, reflexo da discussão em alta no Brasil e, consequentemente, no interesse das editoras por essas publicações, o que é muito positivo.

Já Mia Couto, escritor moçambicano, é o maior nome africano de língua portuguesa publicado no Brasil. São muitos os livros dele no mercado brasileiro, além de inúmeras participações do escritor em eventos literários. O sucesso é tamanho que hoje seus textos reverberam em muitos estudos e leitores pelo país.

Contudo, se pensarmos para além desses dois escritores, quais seriam os outros nomes africanos que mais se destacam? A resposta carrega uma série de outras perguntas: Por que existe no mercado editorial brasileiro uma névoa encobrindo esses escritores? Por que poucos são os textos publicados pelas editoras brasileiras, ainda que já exista uma literatura consolidada no continente africano? Qual seria a razão do desinteresse editorial, invisibilizando essas literaturas no Brasil?

A história do mercado editorial brasileiro com as literaturas africanas se inicia na década de 1970, com a corajosa tarefa das editoras Ática e Nova Fronteira em oferecer aos leitores brasileiros romances, contos, crônicas e poesias dos escritores de diversos países africanos. Esse pioneirismo ainda traz resultados frutíferos, visto que, muitos desses artistas foram publicados apenas por essas editoras. Assim, o leitor brasileiro ainda hoje só tem acesso aos textos graças a esses materiais.

Em relação às literaturas africanas de língua portuguesa, no campo acadêmico, alguns professores também foram pioneiros na inserção de muitas obras no currículo dos cursos de licenciatura, resultando na maior difusão dessas literaturas. Todavia, se atualmente há um espaço consolidado na crítica literária brasileira, a exemplo de centro de estudos, programas de pós-graduação e inúmeros pesquisadores, infelizmente essas conquistas não caminham lado a lado com o mercado editorial.

Difícil acesso
O trabalho com as literaturas africanas requer muito empenho, visto que há sempre alguma importante obra não lida, pela dificuldade de acesso a ela, ou mesmo uma dissertação ou tese elaborada a partir de cópias, porque o texto original não fora publicado no país e poucos têm acesso. Ademais, são os poucos professores, aqueles que iniciaram os caminhos pedregosos dessas literaturas no país, que têm ainda a tarefa de difundir esses materiais, levando em conta o descaso e desinteresse do mercado editorial brasileiro.

Quando essas questões são levantadas para os escritores africanos que vêm ao Brasil, o discurso é consoante, trazendo um dado ainda mais alarmante, a maioria publicando seus livros em outros continentes, pela escassez de um mercado editorial em muitos países africanos. Infelizmente, essa situação ainda é recorrente, como trouxe o escritor guineense Ernesto Dabó, importante figura no país, que veio ao Brasil para lançar o livro de poemas Mar misto, publicado por conta própria e com uma pequena tiragem, pois ainda não havia conseguido nenhuma editora.

Os raros livros africanos publicados no Brasil resultam em poucos leitores dessas literaturas e, consequentemente, no desconhecimento e preconceito sobre o continente. E, assim, a triste constatação ainda muito presente no imaginário do brasileiro sobre a África: o lugar da miséria, da corrupção e das grandes epidemias, ou a exaltação romântica de um continente mítico, onde tudo tem a ver com a natureza exuberante, os mitos, a oralidade e as ancestralidades, fruto do essencialismo e da invisibilidade das diversidades de suas histórias, nações e desenvolvimentos, afinal, não existe uma África, mas Áfricas, a pluralidade que ainda precisa ser descoberta pelos brasileiros.

Mas é preciso reiterar, mesmo que o caminho seja pedregoso, ele nos leva a algum lugar. É notório que houve algumas conquistas no Brasil, como a Lei 10.639/03, que propõe a obrigatoriedade do ensino de história e culturas afro-brasileiras e africanas no currículo escolar básico. Como resultado, é possível encontrar alguns textos africanos nas escolas públicas, cursos de especialização e aperfeiçoamento aos professores das redes e maior interesse dessas literaturas. Além disso, a feliz notícia de dois livros africanos de língua portuguesa nos grandes vestibulares do Brasil, Mayombé, do angolano Pepetela, na Fuvest, e Terra sonâmbula, de Mia Couto, na Unicamp, atualizando os currículos do ensino médio.

Além dessas conquistas, é possível encontrar algumas editoras que têm trabalhado na difusão dessas literaturas como forma de suprir essas demandas, a exemplo das editoras Nandyala e Pallas, além de outras que, assim como o protagonismo da Ática e Nova Fronteira, também constroem coleções com alguns escritores africanos.

Todavia, ainda existem muitas pedras no caminho das literaturas africanas no Brasil. O avanço da Lei 10.639/03 só será efetivo se as novas gestões compreenderem a importância desses países para a história do nosso próprio país. E é preciso ir além das leis, que professores, pesquisadores, estudantes, artistas, editores e leitores sejam agentes nessas construções. Só assim o mercado editorial brasileiro se abrirá cada vez mais para essas literaturas e, no futuro, possamos ter acesso a outras histórias que ainda esperam ser descobertas.

 

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