Inquérito

novembro 2016 / Inquérito / A liberdade na solidão

Texto publicado na edição #199

A liberdade na solidão

26 perguntas a Maria José Silveira

> Por RASCUNHO

Maria José Silveira, autora de A mãe da mãe da sua mãe e suas filhas

Maria José Silveira, autora de A mãe da mãe da sua mãe e suas filhas

Maria José Silveira nasceu em Jaraguá (GO), em 1947. Sua vida sempre esteve intimamente ligada à literatura. Após um rápido exílio no Peru, durante a ditadura militar, funda em 1980, com Felipe Lindoso e Márcio Souza, a editora Marco Zero, na qual é diretora até 1998. Estreia como autora em 2002 com o romance A mãe da mãe da sua mãe e suas filhas, ao qual seguem-se Eleanor Marx, filha de Karl, O fantasma de Luis Buñuel, Guerra no coração do cerrado, entre outros. É autora também de diversos livros infantojuvenis. Vive em São Paulo (SP).

• Quando se deu conta de que queria ser escritora?
Um lugar quase sagrado na casa dos meus pais era a biblioteca, o portal por onde podíamos penetrar em mundos jamais imaginados. Suponho que desde então, e ainda que não muito claramente, meu desejo quando crescesse era fazer parte daquela fantástica ampliação do meu pequeno cotidiano.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Manias: acho que não tenho. Obsessões literárias: reler e reler, ir mudando, até o último momento, uma ou outra palavra, ou ponto, ou vírgula. Depois, quando já impressos, não gosto de reler meus livros. Tenho certeza de que vou achar algo que gostaria de mudar, e não vou poder fazê-lo.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
O livro que eu estiver lendo.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Michel Temer, qual seria?
Jamais indicaria um livro a um ditador-in-progress, a não ser, talvez um, infinito, que desde a capa e em todas suas páginas, trouxesse em letras garrafais Fora Temer Fora Temer Fora Temer.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
De manhã, cafezinho tomado, cabeça fresca, sentada à frente do meu computador.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Um bom livro na mão, em qualquer lugar, a qualquer hora.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Conseguir escrever o que pretendia.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Estou entre aqueles escritores que amam seu ofício. Gosto de todas as fases do processo. Antes: pensando no que vou escrever. Durante: escrevendo. Depois: lendo e relendo e reescrevendo. E, sobretudo, aquele momento inesperadamente prazeroso quando ao ler uma frase, um parágrafo, me surpreendo: “Fui eu mesma quem escrevi isso?”.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
Deliciar-se com o próprio umbigo.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
O mundinho literário nunca foi santo, nem poderia ser, feito como é do complexo material humano. Inveja, falsidade, preconceitos, manipulações, compadrio, de tudo você encontra aí. Nessa miscelânea, no entanto, o que mais me incomoda é a arrogância de alguns e o beija-mão de outros.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Fora os três ou quatro queridinhos da mídia e dos críticos, os bons autores brasileiros, em geral, não recebem a atenção que merecem.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Descartáveis: todos aqueles que não têm o que dizer. Imprescindíveis: os que amo, e que são muitos.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
O vazio.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Quando literariamente bem escrito, qualquer assunto vale.

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
No processo de escrever um livro, sobretudo um romance — que é um processo mais contínuo e demorado — qualquer coisa pode provocar ideias, linguagem, “insights”. Como se fosse um mata-borrão que vai se encharcando de vida pelo caminho, a mente fica permanentemente ligada no que está escrevendo e aberta para o que der e vier: uma imagem, uma notícia, um som, uma fala, um buraco na calçada, um fedor. E nesse processo, nada e nenhum canto são inusitados. Tudo é bem-vindo.

• Quando a inspiração não vem…
Escreva. Ela aparece no processo do trabalho.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Amar um livro não me faz ter vontade de conhecer quem o escreveu. Pelo contrário. Além de achar que é a obra o que conta, ele/ela poderia me decepcionar como pessoa ou eu decepcioná-lo/a como leitora. De um jeito ou de outro, o encontro seria constrangedor.

• O que é um bom leitor?
Aquele que se entrega ao livro que está lendo.

• O que te dá medo?
Medo é uma palavra forte. Eu a trocaria por angústia. E responderia: cair em um oco sem leitores.

• O que te faz feliz?
Terminar o primeiro “copião” de um livro e saber que ele não tem mais como fugir. Está lá, montado e pronto. Daí em diante, com as inúmeras releituras e reescritas que farei, ele só tem uma escapatória: ficar melhor.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
Nenhuma certeza e sempre uma dúvida: alguém vai gostar?

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Tenho a clareza de que sem leitores um livro não se completa, não se realiza. E não é que eu esteja o tempo todo pensando neles, me preocupando com eles, mas já de início eles são a razão do meu trabalho. É para eles que estou escrevendo.

• A literatura tem alguma obrigação?
A literatura é um território livre, onde cada um caminha por aonde quiser. Por estradas principais, atalhos, matos ou morros. Não há regras, nem obrigações, nem letreiros que indiquem por onde seguir. Você caminha só, e por sua conta e risco.

• Qual o limite da ficção?
Se existe, ainda não fui apresentada.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Acredito mais em ETs do que em líderes. E, por enquanto, acho que não corro o menor risco de topar com um.

• O que você espera da eternidade?
O nada.

Print Friendly

Deixe uma resposta