Ensaios e Resenhas

fevereiro 2013 / Ensaios e Resenhas / A invenção de uma poeta

Texto publicado na edição #98

A invenção de uma poeta

Caminho pela Alameda Júlia da Costa, aqui em Curitiba, e lembro que houve tempo em que sequer sabia quem teria […]

> Por MARCIO RENATO DOS SANTOS

Caminho pela Alameda Júlia da Costa, aqui em Curitiba, e lembro que houve tempo em que sequer sabia quem teria sido a personagem que empresta o nome à rua, mas lembro que me perguntava: quem poderia ser Júlia da Costa? Paro num cruzamento, espero os carros que passam e logo estou, pedestre que sou, novamente em movimento e ainda me dou conta de que, de 1999 a 2002, participei de uma grande aventura editorial: a coleção Brasil diferente, idealizada por Miguel Sanches Neto, então diretor-presidente da Imprensa Oficial do Paraná. O projeto viabilizou a edição de centenas de títulos, de literatura à história, incluindo a impressão de Poesia, organizado por Zahidé Muzart, com todos os poemas de Júlia da Costa (1844-1911) — a primeira mulher a se dedicar à poesia no Paraná.

O que me impressionou, em um primeiro momento, muito mais do que a obra, foi a trajetória de Júlia da Costa. Ela nasceu em Paranaguá (PR) e depois de alguns incidentes estaria em São Francisco do Sul (SC) — ambas cidades portuárias. Júlia, apesar do não farto material biográfico, se configurou como um ser dissonante em seu tempo: de origem humilde, era leitora, discutia política, publicava artigos em jornais, escrevia poesia e teve poemas aglutinados em livros. “Surge, surge, ó dia amado!/ Com teu lúcido clarão/ Vem recordar à minh’alma/ A mais celeste afeição!”, eis um fragmento de Vinte e dois de agosto, uma de suas criações. Ela, já na cidade catarinense, se apaixonaria por um poeta e trovador conhecido por Benjamin Carvoliva, mas iria se casar com um homem prático, o presidente do partido conservador da região, o comendador Francisco da Costa Pereira.

Os caminhos e descaminhos de Júlia da Costa, durante algumas temporadas, me levaram a pensar em como algumas mulheres fazem opções equivocadas. Tinha a impressão de que ela, que a história insinua ter sido muito infeliz, teria sido vítima de um casamento de conveniência, condenada a suportar um sujeito três décadas mais velho apenas em troca de algum conforto, sombra e brisa da Baía da Babitonga. Júlia deixou a poesia no passado depois do casamento. Mas, então, como uma surpresa do destino, e do mercado editorial, chega este ano o romance Júlia, de Roberto Gomes, que reinventa literariamente Júlia da Costa. Independentemente do que possa ser factual e histórico, o livro consegue impor uma versão definitiva da personagem histórica, tamanha é a força narrativa e o resultado da obra enfim, sem dúvida, uma das mais bem-sucedidas realizações da história da literatura brasileira de todos os tempos.

As miragens românticas
Já estou em uma praça curitibana e entro num café. Entre um vinho e uma cerveja, escolho um café e lembro que preciso entregar a resenha e, apesar de já ter lido o livro, ainda não encontrei brechas de tempo para escrever. E Júlia tem muitas camadas. É um grande livro, mas não posso me valer apenas de adjetivos. O que chama atenção, entre tantos aspectos da obra, é como o autor conseguiu trabalhar a questão histórica. A narrativa traduziu as faces da monarquia da provinciana Santa Catarina do século 19 no personagem que se tornaria o marido de Júlia. Francisco da Costa Pereira, um português, chegou em São Francisco do Sul na condição de pé-rapado e foi logo apelidado de Chico Sumiço, devido à magreza. Mas acabou casando com uma mulher rica, enviuvou e se tornou um dos todo-poderosos da região sul. Posteriormente, ele escolheu Júlia e juntos atravessaram anos seguidos apesar da incompatibilidade: ele enfrentava o real; ela, delirava. Francisco da Costa Pereira morreu junto com o império, exatamente ele que era um de seus representantes. E, uma vez viúva, Júlia — nesta ficção de Roberto Gomes — não lamentou o tempo ao lado do comendador.

O romance relativiza o amor que não deu certo para Júlia da Costa. Benjamin Carvoliva, o sujeito por quem ela se apaixonou, e com quem não teve mais do que poucos momentos e uma ou duas noites de amor, ganha contornos do que, na realidade, são os pseudoartistas que por vezes acabam seduzindo mulheres ao longo da história, desde que o mundo e a arte existem. Carvoliva se apresentava, para Júlia, como a idealização de uma “existência plena”: era o “artista”, o indivíduo que lia, tocava violão e tinha, aparentemente, a sensibilidade que poderia viabilizar o paraíso na Terra. Mas o “poeta” não teve coragem de assumir Júlia, não enfrentou os desafios, as dificuldades e os impasses que inevitavelmente surgiriam, e surgiam. E, aqui neste café, lembro de que mesmo hoje, 2008, muitos Carvolivas surgem como miragens para muitas Júlias — os falsos artistas que parecem interessantes mas não passam de homens falhados (E como Curitiba está repleta de Carvolivas, e de tantas Júlias).

Roberto Gomes conseguiu, por meio da imaginação, preencher as lacunas (biográficas) a respeito do que poderia ter sido a existência de Júlia da Costa. E fez isso a partir de uma visão de mundo madura, mostrando que nada é o que parece. Os personagens são complexos; a trama, surpreendente e o enredo chega aos leitores sinalizando que foi algo longamente elaborado, maturado enfim ruminado e, então, escrito. Enfrentar Júlia da Costa, como ponto de partida rumo a uma fabulação, não deve, e não foi evidentemente, projeto fácil. E, como se afirmou nesta resenha, Júlia é, de fato, um grande romance; mas adjetivos não conseguem mostrar ao leitor a relevância deste livro — e por isso vou usar mais três parágrafos.

Poeta menor, vida maior
Peço mais um café espresso e abro Júlia em busca de algum fragmento para transcrever na resenha, a fim de compartilhar com os leitores e as leitoras do Rascunho um pouco da força da literatura de Roberto Gomes. Na página 58, leio: “(…) A mania (…) que Júlia tinha de sumir de casa, andar pelas ruas, sentar-se à beira da baía e ficar olhando para o horizonte sem que ninguém entendesse o que lhe passava pela cabeça”. Mas não seria nem será apenas uma frase que traduziria nem traduzirá a força da obra. E lembro agora que na década de 1980 meu pai foi resolver algum problema em São Francisco do Sul e, enquanto eu esperava, fiquei por horas a mirar a mesma baía que Júlia também mirava, mas naquele passado eu ainda não era leitor nem sabia da existência dela — e isso é uma resenha e não posso fugir do livro e me refugiar em reminiscências.

Enquanto bebo outro espresso aqui neste café curitibano, folheio Poesia, com toda a obra de Júlia da Costa, e quero encontrar motivos para elogiar a produção inventiva da autora. “Branco jasmim, és tão lindo/ Entre aromas a sorrir,/ Qual doce estrela formosa/ Do céu no prado a fulgir!”. Isso parece literatura de qualidade duvidosa. “Em vão te chamo nos murmúrios vagos/ Da doce brisa que fugindo vai;/ A voz se perde na procela horrível/ Que sobre os amores à notinha cai”. Talvez alguns membros da Academia Paranaense de Letras ou mesmo alguns jovens poetas curitibanos considerem esses versos poesia, mas não passa de desabafo metrificado e sem linguagem. “Ai! quanta inspiração, quanta saudade/ Tu me acordas no peito adormecido,/ Quando trinas de amor magas endeixas/ da tarde ao declinar”. Este poema, dedicado a um sabiá, é tão ruim quanto a produção do superestimado poeta que Curitiba endeusou na década de 1980 e que até hoje gera epígonos — uma poesia fracassada.

Saí do café, caminho pra casa e daqui a alguns minutos terei de escrever a resenha sobre Júlia, de Roberto Gomes. Me encontro num impasse: a obra tem inúmeras nuances e a minha resenha ainda não tem nem um “esqueleto”. Preciso salientar, na resenha, que a vida da autora é muito mais interessante do que tudo o que ela escreveu. E isso se evidencia na obra de Roberto Gomes. O desfecho do romance é genial, e surpreendente, pois o leitor não se dá conta e, de repente, o texto revela que a protagonista morreu depois de ter ficado 11 anos trancada no primeiro andar do casarão onde viveu com o comendador — e ao ter mencionado o fato não me torno estraga-prazeres, uma vez que a linguagem do autor é imensamente superior a um comentário. A resenha, caros leitores, caras leitoras, é um gênero que não consegue dar conta, nem minimamente, do que é um livro: o que se escreve sobre uma obra é apenas recorte, fragmento, mero ponto de vista. Nada substitui a experiência da leitura, e há um grande livro à espera de quem espera uma experiência literária inesquecível: Júlia, de Roberto Gomes.

LEIA ENTREVISTA COM ROBERTO GOMES.

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Roberto Gomes

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Nasceu em Blumenau (SC), em 1944. Duas décadas depois, migrou para Curitiba (PR). É formado em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Atuou como professor na Universidade Federal do Paraná, de onde saiu aposentado em 1998. Foi o idealizador (e por oito anos diretor) da editora da UFPR. Debutou como escritor em 1977 com Crítica da razão tupiniquim, um ensaio ousado sobre o pensar brasileiro. Em 1979, publicou Sabrina de trotoar e de tacape (contos). No mesmo ano recebeu o prêmio de melhor escritor brasileiro, da UBE/SP, pelo romance Alegres memórias de um cadáver. Na década de 1980, abriu a Criar Edições que, já no século 21, teria o mérito de publicar Como tornar-se invisível em Curitiba, coletânea de crônicas de Jamil Snege (1939-2003). Roberto Gomes teve um livro de contos editado pela Record, Exercícios de solidão. Em 2001, publicou o romance Os dias do demônio. Quinzenalmente, publica crônica no suplemento Caderno G, do jornal Gazeta do Povo. Vive em Curitiba.

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Roberto Gomes
Leitura
318 págs.