Entrevistas

fevereiro 2016 / Entrevistas / A beleza que morde

Texto publicado na edição #188

A beleza que morde

Entrevista com o poeta brasileiro radicado no Canadá Ricardo Sternberg

> Por MOEMA VILELA

Ricardo Stermberg por Robson Vilalba

Ricardo Sternberg por Robson Vilalba

“Dispensadas as gentilezas, musa, me dê logo a inspiração, intravenosa, não diluída, direto nesse braço com que escrevo.” É com essa enérgica invocação que Ricardo Sternberg abre seu quarto livro, Some dance (McGill-Queen’s University Press, 2014), ganhador de louvações tão diretas quanto esse chamado à musa. Obra de “um dos melhores poetas do Canadá, em absoluto. No shit”, diz a crítica de Michael Lista no National Post. Mas musas são caprichosas: há poemas que levaram décadas para agradar ao escritor, nascido no Brasil e professor de literatura brasileira e portuguesa. Sternberg consegue rastrear o tempo da criação nos cadernos pretos em que escreve, altos e gordos de páginas, numerados. Peço para folhear e fotografar o atual, número 25, paparazzi quem sabe de um poema em trajes íntimos. Logo nos detemos numa frase que abre o branco da folha: When beauty bites, I attend. Quando a beleza morde, eu compareço.

Nascido no Rio de Janeiro, Ricardo Sternberg vive no Canadá desde o final dos anos 1970, depois de fazer mestrado e doutorado em Literatura Comparada na Universidade da Califórnia e ter sido Junior Fellow em Harvard. Professor na Universidade de Toronto por 36 anos, recém-aposentado do Departamento de Espanhol e Português e do Centro de Literatura Comparada, em abril esvaziou as estantes de sua sala na universidade. Duas paredes quase do rodapé ao teto com livros de poesia e prosa, teoria literária, fichas de aulas em que se escondiam tesouros de uma vida dedicada à literatura, como uma das cartas que trocou com Carlos Drummond de Andrade, reencontrada dias antes dessa conversa.

“Em termos de formação, sem dúvida Drummond foi muito importante para mim. Escrevi um livro sobre ele e por muito tempo fiz essas traduções do Drummond — e eu nunca pedi autorização do Drummond, mas mandava para ele todas as publicações e ele sempre me escrevia de volta e agradecia. Hoje isso não pode, mas as revistas antes não pediam autorização, eu mandava e elas publicavam. Até hoje estou com uma tradução que não termina de Caso do vestido. Há cinco anos, volta e meia, retorno ao poema e faço mais uma tentativa, mas não estou conseguindo terminar essa, mesmo com ajuda do Paulo Henriques Britto”, ele diz, para indicar o tamanho do desafio pelo tamanho da ajuda, do amigo poeta e tradutor carioca.

Como em Caso do vestido, na poética de Sternberg grandes sofisticações de métrica convivem com a dicção coloquial, compondo sintaxe e musicalidade únicas. Também temperos da narratividade fazem o seu feitiço. Em Some dance o poeta convoca à lírica histórias bíblicas, de fadas, míticas, fábulas de La Fontaine e até dramas dignos de novelas mexicanas, com direito a sedutores charlatões e cirurgiões mais que suspeitos como o Doutor Ramon. Especialmente neste livro e em Map of dreams, o segundo, há diferentes vozes, personagens, cenas e costura de poemas que continuam uma história. Nessa entrevista, Ricardo Sternberg fala sobre poesia e narrativa, sobre Drummond, sobre a medida entre redundância e saltos na literatura, fala que somos mais herdeiros de William Carlos Williams que de T. S. Eliot.

Personagens, vozes, costura entre poemas que tecem uma história maior. O que das narrativas te interessa para a poesia?
The true history of my life, o primeiro poema do meu primeiro livro, já tinha isso, mas a descoberta mesmo veio na época do Map of dreams (1996). Eu encontrei um poema que tinha escrito uns vinte anos antes e era óbvio que ele tinha que ficar no fim de uma narrativa que ainda não existia. Só descobri a possibilidade da narrativa que criasse o contexto para aquele poema uns 20 anos mais tarde. Depois achei que costurei demais o Map of dreams, e com o Some dance eu queria uma coisa mais luz, com mais saltos, onde o leitor pudesse criar mais. Sempre há a questão de quantos detalhes, quanto em branco, quantos pulos podemos deixar no texto. O mestre Flaubert vai dizer uma coisa sobre essa cerveja [sobre a mesa] e basta. O best-seller vai dizer muitas coisas, encher de detalhes, e por isso ele será fácil de ler. Pode ser lido no aeroporto, enquanto aquelas vozes ficam anunciando nas caixas de som que o voo 5404 está na pista. Tem tanta redundância, um fiozinho que liga tudo sem deixar espaço para o leitor criar. Não se pode ler Machado de Assis assistindo à televisão, como falei uma vez numa entrevista.

Com quais poetas, vivos ou mortos, você sente que mais dialoga hoje?
No Brasil, diria Drummond de Andrade, o Wallace Stevens, Berryman. Prefiro [John] Berryman que [Robert] Lowell, o Berryman com aquele senso de humor e o trabalho na criação de um inglês que combina musicalmente todos os registros da língua… De mais recente, o Mark Strand, que faleceu há pouco tempo.

Poesia pode ser difícil, e muitos poemas são difíceis, mas não é essa a definição da poesia. A gente tem que brigar com esse medo que as pessoas têm da poesia.

E Manuel Bandeira?
Muito! Não mencionei, mas, sim, eu li muito Bandeira, gosto muito. Outro muito importante foi William Carlos Williams. Eu acho que ele não foi tão valorizado quanto o Pound e o Eliot em parte pelo tipo de crítica que se fazia na época. Ela via a perfeição e a complexidade da linguagem e estrutura dos poemas do Eliot. Para uma crítica afiada nos seven types of ambiguity aquilo caía bem. Já o Williams escrevia em uma linguagem mais coloquial e, com exceção de alguns poemas, como Patterson, entregava o ouro logo… Se uma das maneiras de encarrar a importância são os descendentes, os herdeiros, nós somos muito mais herdeiros de Williams que do Eliot. O Lowell reconheceu isso no fim da vida, o Ginsberg, todo o pessoal do Black Mountain, poetas os mais díspares. O Eliot é um gigantesco, claro, mas William Carlos Williams ensinou muita coisa. Uma foi fazer a lineação. A lineação dele é perfeita.

Falar do Drummond é inevitável, da Bishop também, poetas com quem você dialogou pessoalmente e como poeta. Como foi o encontro com essas figuras?
O Drummond começou com as traduções que fazia, que também acho que foi um pouco como eu comecei na poesia, eu traduzia muita coisa brasileira para mostrar para meus amigos, depois para publicar. Traduzi Um escritor nasce e morre para uma edição importante da revista Ploghshares, que tinha traduções também do Drummond feitas pelo Mark Strand. Tinha traduções da Bishop nessa edição também, acho que de uns sambas. O Drummond respondeu agradecendo o envio e dizendo que assim ficou sabendo das traduções do Mark Strand, mas não comentou nada da minha tradução. Depois em outra carta ele disse que escreveu Um escritor nasce e morre numa fase muito difícil da vida dele e ele esqueceu de comentar a tradução porque, em vez de se vingar do texto, se vingou do tradutor. O Drummond sempre foi muito gentil. Mas a primeira vez que eu enviei um poema traduzido foi de uma revista que ajudei a editar em Pocatello, Idaho, e o Drummond me respondeu dizendo: me agrada muito saber que estou sendo traduzido por um jovem em Pocatello, Idaho (risos). Já a Bishop era amiga de meus pais, desde o tempo em que ela morava no Brasil. Quando fui para Harvard ser entrevistado para a Society of Fellows fui visita-la no segundo dia. E durante os três anos que vivemos em Cambridge, tivemos um convívio quase diário. Umas poucas semanas depois que o nosso filho, Miguel, nasceu, ela nos convidou para visitá-la em North Haven, uma ilha perto de Maine onde ela passava semanas todo verão. No ano seguinte, voltamos com ela a North Haven. Ela foi sempre muito carinhosa com a gente. Trocamos várias cartas. Esses tempos, nessa arrumação do escritório, encontrei uma sextina em português que a Bishop começou a traduzir, mas sem identificação do poeta, mas pelo estilo pensei: é Camões. Fui olhar e era.

Gosta de dar aula? Como é ensinar poesia?
Gosto muito. Vou sentir falta. Mas tanto no inglês como no português os alunos têm um medo de poesia… Nas leituras as pessoas ficam com um ar compenetrado, como se fosse vir agora aquela voz de Sidarta, e às vezes o poema não tem nada a ver com isso. Não sei se é Cabral que diz isso, que fica aquele ar de comunhão, as pessoas esperando pelas pérolas. Os alunos ficam buscando o esquema de rimas, a forma, o acessório em vez do essencial. Eu falo: você passou a vida escutando as pessoas e interpretando falas, é isso que você tem que ver. Se você quiser, pode analisar depois da leitura, entrar em pormenores. Pode estudar os efeitos, as imagens, rimas, mas a primeira coisa é a recepção, e a recepção é aquela coisa direta. Quando poemas aparecem em filmes é muito interessante. O poema aparece de repente e a pessoa não tem tempo de pôr as armas e se defender do poema. Quando passou Quatro casamentos e um funeral, que teve esse poema do Auden, o dono da livraria em que fiz um lançamento me disse: não consigo manter esse livro no estoque. O livro do Auden vendeu muito. As pessoas não conseguem se proteger, então elas veem a força da poesia. Poesia pode ser difícil, e muitos poemas são difíceis, mas não é essa a definição da poesia. A gente tem que brigar com esse medo que as pessoas têm da poesia.

E qual é o tempo da sua poesia? Pergunto pelo tempo que você deu entre os livros. Você revisa muito?
Talvez não tenha um poema meu, nos quatro livros, que saiu exatamente como fora publicado antes em alguma revista. Acho que depois de publicar, consigo olhar o poema com os olhos de outra pessoa, de um leitor que não me conhece, não conhece minha poesia, e aí com esse olhar novo acabo mudando alguma coisa. Os editores começaram a colocar nas provas dos meus livros páginas em branco, pois já sei que vou mudar até a publicação final. Outra coisa que acontece é o que o Robert Lowell fala sobre o fato de que vamos modificando o poema ao fazer leituras. Lembro dele dizendo que percebeu que lia diferente do que estava impresso, então mudava o que estava impresso para coincidir com o modo com que lia. O maior tempo entre meus livros foi agora para este último. Onze anos foi demais, mas eu fui chefe de departamento, tinha muitos compromissos acadêmicos na universidade, meu pai ficou doente, isso tudo me ocupou muito. Ao mesmo tempo, eu também acho que tem que dar tempo para o livro não ser igual ao último livro. No Canadá, por exemplo, há muita gente que publica e você pensa: esse livro poderia estar integrado ao outro. Quer dizer, não houve tempo para sair de um livro e passar para outro. O Neruda publicava adoidado, por exemplo, mas os livros eram diferentes porque ele mudava muito de livro para livro. Eu preciso de certo tempo para mudar e ter uma música nova.

>>> Leia poemas de Ricardo Sternberg.

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