Ensaios e Resenhas

agosto 2015 / Ensaios e Resenhas / À beira do copo

Texto publicado na edição #183

À beira do copo

Em romance de estreia, Alex Sens constrói trama com ótimos personagens e como eles se relacionam

> Por RODRIGO CASARIN

Alex Sens, autor de O frágil toque dos mutilados

Alex Sens, autor de O frágil toque dos mutilados

Não costumo beber enquanto trabalho. Mas hoje é véspera de feriado e já são mais de quatro da tarde, então resolvi abrir uma exceção. Acredito que o Alex Sens iria gostar da cerveja que estou tomando. É uma porter da cervejaria Júpiter que leva pimenta chipotle em sua receita. A picância existe, mas não agride, vai bem com os toques de chocolate dos maltes escuros, que deixam a cerveja preta — isso não quer dizer que seja uma daquelas cervejas pretas meladas, veja bem, aqui não há nada de docinho.

Acho que o Alex gostaria da cerveja porque, pelo que pude perceber ao ler o seu O frágil toque dos mutilados, ele entende alguma coisa do assunto. No romance, fala com propriedade da Whitstable Bay Organic, uma boa cerveja inglesa, e, quando diminui a qualidade, vai para a Heineken, que ainda está em um patamar bastante digno, muito acima das tranqueiras Skol-Brahma-Itaipava que ainda tomo no boteco do terminal Santana principalmente de quinta-feira, depois do futebol.

Quem bebe bem é Orlando, um dos principais personagens do romance. Viúvo, outrora radialista, tenta viver da pintura e mora em alguma cidade praiana. É daqueles que querem ajudar os outros, mas acaba não ajudando em nada e, pior ainda, se prejudica. O coitado tava de boa, conseguindo controlar seu alcoolismo, mas foi só inventar de colocar Magnólia, sua irmã, de volta em sua vida que logo voltou ao álcool. Às garrafas de Whitstable Bay Organic, às latas de Heineken. Deve ser uma boa beber com ele, ao menos.

Magnólia, a protagonista, é outra chegada num goró. Me mataria se lesse isso. É enóloga, manja tudo de vinho, e normalmente pessoas de sua extirpe sequer bebem, apenas degustam — degustam garrafas e mais garrafas inteiras, mas não descem do salto. Ela não é exatamente dessas, até que encara a bebida com alguma leveza, mas também é refém dela. Alex Sens ainda cita alguns rótulos do fermentado de uva, mas como esse não é o meu álcool — não me interesso por vinhos, definitivamente —, não sei avaliá-los. Devem ser bons, até o café que os personagens tomam parece ser de qualidade. Mas, voltando a Magnólia, não bastasse o alcoolismo que não assume, ela ainda sofre do transtorno de borderline. Deve ser por isso que em muitos momentos ela se torna uma escrota de marca maior.

Ela e o marido, Herbert, foram passar algumas semanas na casa de Orlando. A ideia era que se reaproximassem, fortalecessem os laços de família, superassem a trágica morte de um dos seus. Evidentemente as coisas não saem assim e, para que se entenda O frágil toque dos mutilados, uma das chaves válidas pode ser a maneira que especialmente esses dois personagens se relacionam com o — ou são dominados pelo — álcool. O álcool que pode aproximar ou afastar as pessoas, confortar ou destruir, dependendo daquela questão da dose certa, o velho chavão de que a mesma substância pode ser um remédio ou um veneno.

Em determinado momento, Herbert, o marido de Magnólia, cita Virginia Woolf: “e como liberta a alma beber uma garrafa de bom vinho por dia e sentar-se ao sol”. Prefiro a cerveja que estou tomando. E à sombra, por favor.

A influência de Woolf
Mas nem só de álcool vive o homem. Outro ponto importante a destacar é a presença da própria Virginia Woolf. Herbert não a citou por acaso. Há quase uma década ele está mergulhado na obra da mulher e tenta escrever um ensaio sobre As ondas — ensaio que durante um bom tempo fica praticamente esquecido, aliás, amargando um limbo durante a história.

O crítico literário e também escritor Jaime Prado Gouvêa diz que Sens é “admirador confesso da inglesa Virginia Woolf — sem ter medo dela… — em cujas águas fatais ele navega com mãos firmes no leme, compôs uma trama magnificamente elaborada”. Isso está na orelha de O frágil toque dos mutilados, um espaço para, essencialmente, puxar-se o saco do autor. Mas não posso desmentir o que Gouvêa escreveu — ainda que considere o “magnificamente” um grande exagero. Já li Virginia Woolf. Li a primeira página de Mrs. Dalloway. Larguei logo. Preciso dar uma outra chance para a dona. Mas não ignoro que nomes como Magnólia e Orlando sejam uma clara referência à escritora.

Não sei até onde tem a ver com a suposta influência da inglesa, mas algumas — poucas — coisas eu não gostei no texto do Sens. Principalmente na primeira metade, há uma necessidade, quase uma vaidade, de trabalhar com palavras rebuscadas como “obnubilada”, “coruscavam” e “talmúdicos”. Claro que todo o dicionário está aí para nos servir, mas certas escolhas saem pela culatra e, ao invés de soarem cultas ou eruditas, acabam apenas transparecendo alguma pretensão tola.

Também na primeira metade, o autor costuma gastar bastante tempo com cada elemento da história. Tudo tem sua importância, e isso é bom, mas não precisa a cada ato ficar divagando, comparando, levantando hipóteses e dizendo, além do que aconteceu, tudo que não se passou ou que poderia ter ocorrido. Isso às vezes cansa. E acho que cansou até mesmo Sens, que diminui bastante a frequência desses recursos no decorrer da obra, permitindo que a melhor parte de O frágil toque dos mutilados prevaleça: seus ótimos personagens e como eles se relacionam.

Exercendo a função do chato de plantão, também me desagradou algumas escolhas. Achei que escrever que “Orlando, como sempre, deixou que o mel das dúvidas atraísse as abelhas da curiosidade” foi no mínimo cafona. Já “o silêncio caiu sobre a expressão de Orlando com a violência de uma faca abrindo um tomate” não me convenceu. Costumo ter cuidado ao abrir tomates, nada de violência, principalmente quando são para bruschettas.

Há ainda uma terceira questão importante em O frágil toque dos mutilados. Talvez a mais importante de todas elas, aliás: o papel da família. No Salão de Paris deste ano, Cristovão Tezza disse ser um defensor ferrenho da família, não por ser um cara quadradão, conservador, mas por tudo o que a instituição já ofereceu e tem a oferecer à literatura. Nunca é demais lembrar que Tezza é o autor de O filho eterno, pujante romance sobre a dificuldade de um pai em aceitar um filho com Síndrome de Down.

Tolstói também escreveu sobre famílias. É seu o clássico “todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, bem no começo de Anna Kariênina, que conta também com uma memorável cena de trem. Talvez Sens tenha feito uma homenagem ao russo ao colocar Magnólia e Herbert indo justamente de trem ao encontro de Orlando, ao encontro da família da moça. Não disse antes, mas Lisa, irmã de Magnólia e Orlando, também se junta à trama — e é outra problemática, já adianto.

De alguma maneira, o que o romance invoca é a velha questão das aparências que muitas vezes envolvem uma família: a obrigação moral de um membro amar o outro, dos irmãos estarem sempre próximos, se ajudarem… Se isso acontece com naturalidade, excelente, mas, se não, acaba virando mais um daqueles pesos invisíveis, porém enormes, que as pessoas precisam suportar no dia a dia, como David Foster Wallace retratou no seu discurso Isto é Água. Igual aos personagens de Sens, essa…

Acabou a cerveja.

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Alex Sens

É catarinense, mas vive em Itajubá (MG). Nasceu em 1988 e já publicou os livros Esdrúxulas e Troncada, ambos de contos, além de O frágil toque dos mutilados. Venceu prêmios do Governo de Minas Gerais em 2012, na categoria Jovem Escritor Mineiro, de Niterói e de Araçatuba.

— Tão inútil quanto este maldito canivete — murmurou Magnólia. — Você lembra do seu presentinho? Desse maldito canivete que nunca serviu para nada? Ah, me enganei: ele serviu para me furar de vez em quando.

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Alex Sens
Autêntica
416 págs.