Inquérito

fevereiro 2019 / Inquérito / A arte da palavra

Texto publicado na edição #226

A arte da palavra

26 perguntas a Alberto Mussa

> Por RASCUNHO

Alberto Mussa, autor de O enigma de Qaf

Alberto Mussa, autor de O enigma de Qaf

Alberto Mussa nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1961. Descobriu que queria ser escritor por volta dos 15 anos, e não perdeu tempo: escreveu logo dois romances, compôs centenas de sambas e sonetos e peças de teatro em versos, as quais se transformaram nos contos que deram origem ao seu primeiro livro. A estreia literária veio em 1997, com as breves narrativas de Elegbara, que já traziam alguns dos elementos que norteariam sua obra dali para frente — o processo de construção multicultural do povo brasileiro e a mescla entre história, ficção e mitologia. Dois anos depois, lança o romance O trono da rainha Jinga e segue produzindo narrativas de fôlego com regularidade. É autor, entre outros, d’O enigma de Qaf, pelo qual levou os prêmios Casa de las Américas 2005 e APCA 2004, e d’O senhor do lado esquerdo, vencedor do Prêmio Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional, em 2011. Seu romance mais recente é A biblioteca elementar (2018).

• Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Talvez com uns 15 anos. Queria ser compositor também. Fiz uma centena de sambas e sonetos; escrevi dois romances, compus vários pontos de macumba e capoeira. E peças de teatro em versos. Foram algumas dessas peças que transformei em contos, para o meu primeiro livro. O resto (espero) não existe mais.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Inúmeras, mas inconscientes. Só sei que não largo minha lapiseira, mesmo datilografando.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Mitologia, sobretudo. E poesia épica, porque nasci com 10 mil anos de atraso. E também samba de enredo, porque escutar é uma maneira de ler.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Jair Bolsonaro, qual seria?
Qualquer presidente tem que ler o Alcorão e A inconstância da alma selvagem [de Eduardo Viveiros de Castro].

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
A madrugada.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Os instantes privados, se me entendem.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Antigamente, quando lia 150 páginas. Depois que meu caçula nasceu, quando leio 30.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
A concepção do enredo e das personagens. O desenho dos mapas, os esquemas dos capítulos. E quando falo sobre o livro: com a minha Moça, meu filho mais velho, minha mãe, alguns amigos. Só começo a escrever quando consigo narrar a história inteira, oralmente.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
Imaginar que está criando alguma coisa. Ou que o étimo de “patético” é “pateta”.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
A noção de que há um meio, com fim em si mesmo.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Poetas: antigos, clássicos, modernos, contemporâneos. Poesia é a arte verdadeira. O resto é prosa.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Nenhum e todos. O livro é um objeto genial, mas ao mesmo tempo irrelevante: a arte da palavra tem 500 mil anos e nunca precisou de alfabetos.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
Se falta uma página, por exemplo. Ou se há defeitos de impressão.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
O “contemporâneo”. O “ser em crise”. A “metalinguagem”. Aquela “Semana” que não acaba nunca.

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Da encruzilhada de três pontas.

• Quando a inspiração não vem…
Agradeço. Prefiro o cálculo, o raciocínio.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Gilka Machado. Mas para uma cerveja, naturalmente: não se propõe café a mulher de tal grandeza.

• O que é um bom leitor?
O que melhora, aperfeiçoa, eleva o texto a insuspeitas potências.

• O que te dá medo?
A cegueira, que me ronda.

• O que te faz feliz?
Primeiro, as coisas simples: minha família, meu amor, minhas amigas, meus camaradas, meu botequim, o Flamengo, o Salgueiro, a Flor da Mina, a milhar na cabeça, o pão com manteiga, o chinelo de dedo, seu Zé Pelintra e o Rio de Janeiro. Depois, as coisas complexas: o Sol na Oitava Casa, a minha biblioteca.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
A certeza de que a literatura não tem essa importância toda. De que minha grande obra é a minha própria vida.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
A divisão dos parágrafos. A pontuação. A distribuição equidistante dos acentos tônicos, especialmente no fim da frase.

• A literatura tem alguma obrigação?
A de conquistar ao menos um leitor — que não seja amigo nem parente.

• Qual o limite da ficção?
O mito: quando a Serpente morde a própria cauda.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Iria trucidá-lo antes que abrisse a boca.

• O que você espera da eternidade?
Quero ficar no Inferno, se possível. Não para pagar pecados; mas para receber pelos que cometi. O Diabo sabe que faço bem a minha parte.

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