Dom Casmurro

novembro 2014 / Dom Casmurro / Poemas inéditos de Frank O’Hara

Texto publicado na edição #175

Poemas inéditos de Frank O’Hara

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert Na manhã de 24 de julho de 1966, um domingo, o poeta Frank O’Hara […]

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Na manhã de 24 de julho de 1966, um domingo, o poeta Frank O’Hara estava na praia, em Fire Island, perto de Nova York, quando foi atropelado por um buggy. Levado ao hospital, com o fígado dilacerado, ele morreria na manhã seguinte. Seu desaparecimento prematuro, aos quarenta anos, interrompeu uma carreira muito peculiar que unia os mundos da poesia e das artes plásticas. Naqueles anos em que Nova York fervilhava como o centro mundial da arte de vanguarda, Frank O’Hara estava no centro do centro. E era um de seus mais refinados poetas.

Nos quinze anos anteriores, ele havia passado, no MoMA, onde trabalhava, do posto de atendente no balcão de informações a um dos mais importantes curadores. Conviveu com artistas como Jackson Pollock, Willem de Kooning, John Cage e Merce Cunningham. Figura agregadora, ele era conhecido pela sua generosidade para com seus amigos e pela intensidade com que vivia. Ao mesmo tempo, e, dado seu ritmo de vida, quase milagrosamente, escrevia poemas sem parar, todos os dias, freneticamente. Um de seus livros, Lunch poems, tem este título justamente porque seus versos foram escritos durante os intervalos para almoço no museu.

Em geral enquadrada na “New York School”, a obra de Frank O’Hara é totalmente pessoal. As influências são múltiplas e vão do surrealismo francês ao simbolismo, passando por Maiakóvski e a pintura expressionista. No livro Digressions on some poems by Frank O’Hara, de Joe LeSueur, seu antigo companheiro, nos damos conta do quanto seus poemas são autobiográficos, nem tanto no sentido de antigas reminiscências, mas muito sobre aquilo que aconteceu naquele dia, naquela hora.

Frank O’Hara nunca foi publicado, em livro, no Brasil, embora seus poemas apareçam traduzidos, esporadicamente, em sites e blogs literários.

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Frank O’Hara.

AUTOBIOGRAPHIA LITERARIA

When I was a child
I played by myself in a
corner of the schoolyard
all alone.

I hated dolls and I
hated games, animals were
not friendly and birds
flew away.

If anyone was looking
for me I hid behind a
tree and cried out “I am
an orphan.”

And here I am, the
center of all beauty!
writing these poems!
Imagine!

AUTOBIOGRAPHIA LITERARIA

Quando eu era criança
eu brincava sozinho
canto do pátio da escola
totalmente solitário.

Eu detestava bonecos e eu
detestava jogos, os animais não eram
amigáveis e os pássaros
saíam voando.

Se alguém ficasse olhando
para mim eu me escondia atrás
de uma árvore e berrava “eu sou
um órfão.”

E aqui estou eu, o
centro de toda a beleza!
escrevendo estes poemas!
Imaginem!

 

JOSEPH CORNELL

Into a sweeping meticulously detailed disaster the violet light pours. It’s not a sky,     it’s a room. And in the open field a glass of absinthe is fluttering its song of India. Prairie winds circle mosques.

You are always a little too young to understand. He is bored with his sense of the past, the artist. Out of the prescient rock in his heart he has spread a land without flowers of near distances.

JOSEPH CORNELL

Dentro de um meticulosa-mente detalhado desastre emana a luz violeta. Não é um céu, é um quarto. E no campo aberto um copo de absinto está agitando sua canção da Índia. Ventos da pradaria circundam mesquitas.

Você é sempre um pouco novo demais para compreender. Ele está entediado com a sua noção de passado, o artista. Para além da rocha presciente em seu coração, ele espalhou uma terra sem flores de distâncias próximas.

 

POEM

Instant coffee with slightly sour cream
in it, and a phone call to the beyond
which doesn’t seem to be coming any nearer.
“Ah daddy, I wanna stay drunk many days”
on the poetry of a new friend
my life held precariously in the seeing
hands of others, their and my impossibilities.
Is this love, now that the first love
has finally died, where there were no impossibilities?

POEMA

Café instantâneo com um pouco de creme
azedo,  e uma chamada telefônica mais além
a qual não parece estar ficando nem um pouco mais próxima.
“Ah, papai, eu quero me embebedar por muitos dias”
na poesia de um novo amigo
minha vida se segura precariamente em ver
as mãos dos outros, as deles e as minhas impossibilidades.
Será isso é amor, agora que o primeiro amor
finalmente morreu, lá onde não existiam impossibilidades?

 

POEM

“Two communities outside Birmingham, Alabama, are
still searching for their dead.” — News Telecast

And tomorrow morning at 8 o’clock in Springfield, Massachusetts,
my oldest aunt will be buried from a convent.
Spring is here and I am staying here, I’m not going.
Do birds fly? I am thinking my own thoughts, who else’s?

When I die, don’t come, I wouldn’t want a leaf
to turn away from the sun — it loves it there.
There’s nothing so spiritual about being happy
but you can’t miss a day of it, because it doesn’t last.

So this is the devil’s dance? Well I was born to dance.
It’s a sacred duty, like being in love with an ape,
and eventually I’ll reach some great conclusion, like assumption,
when at last I meet exhaustion in these flowers, go straight up.

POEMA

“Duas comunidades próximas a Birmingham, no Alabama, ainda
estão procurando por seus mortos.” — News Telecast

E amanhã cedo às 8 da manhã em Springfield, Massachusetts,
minha tia mais velha sairá do convento para ser enterrada.
A primavera está aqui e eu ficarei por aqui, eu não vou.
Pássaros voam? Eu estou pensando meus próprios pensamentos, de quem
mais?

Quando eu morrer, não venha, eu não iria querer que uma folha
se afastasse do sol — ele a adora lá.
Não há nada esotérico sobre estar feliz
mas você não pode perder um dia, porque isso não dura.

E então, será esta a dança do diabo? Eu nasci para dançar.
É um dever sagrado, como se apaixonar por um macaco,
e no fim eu vou acabar chegando a alguma grande conclusão, como suposição,
quando eu finalmente encontrar a exaustão nestas flores, vou direto para o alto.

 

JUNE 2, 1958

Oh sky over the graveyard, you are blue,
you seem to be smiling! Or are you sneering?
under the captured moss a little girl
is climbing, come closer! why it’s Maude,
or Maudie, as she’s sometimes called. I think
she is looking for the turtle. Meanwhile,
back at Patsy Southgate’s, two grown men
are falling off a swing into a vat of Bloody Marys.
It’s Sunday and the trains run on time. What
a wonderful country it is, so black and blue
airy green, leaning out a window
thinking of the sea and the uncomfortable sand.

2 DE JUNHO, 1958

Ó céu sobre o cemitério, você está azul,
e parece estar sorrindo! Ou está zombando?
sob o musgo aprisionado uma garotinha
está escalando, chegue mais perto! por que é a Maude,
ou Maudie, como ela é às vezes chamada. Eu acho
que ela está procurando sua tartaruga. Enquanto isso,
na casa de Patsy Southgate, dois homens crescidos
estão mergulhando num barril de Bloody Mary.
É domingo e os trens estão no horário. Que
país maravilhoso é este, tão preto e azul
arejado e verdejante, debruçando-se na janela
pensando no mar e no desconforto da areia.

 

RIVER

Whole days would go by, and later their years,
while I thought of nothing but its darkness
drifting like a bridge against the sky.
Day after day I dreamily sought its melancholy,
its searchings, its soft banks enfolded me,
and upon my lenghtening neck its kiss
was murmuring like a wound. My very life
became the inhalation of its weedy ponderings
and sometimes in the sunlight my eyes,
walled in water, would glimpse the pathway
to the great sea. For it was there I was being borne.
Then for a moment my strengthening arms
would cry out upon the leafy crest of the air
like whitecaps, and lightning, swift as pain,
would go through me on its way to the forest,
and I’d sink back upon that brutal tenderness
that bore me on, that held me like a slave
in its liquid distances of eyes, and one day,
though weeping for my caress, would abandon me,
moment of infinitely salty air! Sun fluttering
like a signal! upon the open flesh of the world.

RIO

Dias inteiros vão-se embora, e depois seus anos,
enquanto eu penso em nada a não ser na sua escuridão
à deriva como uma ponte contra o céu.
Dia após dia eu sonhadoramente persigo sua melancolia,
suas buscas, suas margens suaves me envolvem,
e sobre o meu alongado pescoço, seu beijo
murmurava como uma ferida. Minha vida
se tornou a inalação de suas ponderações de ervas
e algumas vezes, sob a luz do sol, meus olhos,
cercados na água, terão um vislumbre do caminho
que leva ao grande mar. Porque foi lá que eu vim ao mundo.
E então por um momento meus braços estendidos
vão gritar por sobre a frondosa copa do ar
como cristas de ondas, e relâmpagos, rápidos como a dor,
passarão através de mim em direção à floresta,
e eu me afundarei diante daquela brutal ternura
que me sustenta, que me segura como um escravo
na sua distância líquida de olhos, e um dia,
ainda que chorando por minhas carícias, me abandonará,
momento de ar infinitamente salgado! O sol palpitando
como um sinal! por sobre a carne aberta da terra.

 

A RASPBERRY SWEATER

to George Montgomery

It is next to my flesh,
that’s why. I do what I want.
And in the pale New Hampshire
twilight a black bug sits in the blue,
strumming its legs together. Mournful
glass, and daisies closing. Hay
swells in the nostrils. We shall go
to the motorcycle races in Laconia
and come back all calm and warm.

UM SUÉTER FRAMBOESA

para George Montgomery

Está junto à minha carne,
é por isso. Eu faço o que eu quero.
E no pálido crepúsculo de New Hampshire
um besouro preto senta-se no azul,
batendo ao mesmo tempo suas pernas. Vidro
em luto, e margaridas se fechando.  Ondulações
de alfafa nas narinas. Nós devemos ir
às corridas de motocicletas em Laconia
e depois voltar tranquilos e aquecidos.

 

YESTERDAY DOWN AT THE CANAL

You say that everything is very simple and interesting
it makes me feel very wistful, like reading a great Russian novel does
I am terribly bored
sometimes it is like seeing a bad movie
other days, more often, it’s like having an acute disease of the kidney
god knows it has nothing to do with the heart
nothing to do with people more interesting than myself
yak yak
that’s an amusing thought
how can anyone be more amusing than oneself
how can anyone fail to be
can I borrow your forty-five
I only need one bullet preferably silver
if you can’t be interesting at least you can be a legend
(but I hate all the crap)

ONTEM LÁ EMBAIXO NO CANAL

Você diz que tudo é muito simples e interessante
o que me faz sentir bem melancólico, como ao ler um grande romance russo
eu me sinto terrivelmente entediado
algumas vezes é como assistir a um filme ruim
em outros dias, mais frequentemente, é como ter uma doença aguda nos rins
deus sabe que isso não tem nada a ver com o coração
nada a ver com pessoas mais interessantes do que eu
besteira besteira
este é um pensamento divertido
como pode alguém ser mais divertido do que si mesmo?
como pode alguém não conseguir?
posso pegar emprestada sua quarenta e cinco?
eu só preciso de uma bala, de preferência de prata
se você não pode ser interessante pelo menos pode ser uma lenda
(mas eu odeio toda essa merda)

 

THE DAY LADY DIED

It is 12:20 in New York a Friday
three days after Bastille day, yes
it is 1959 and I go get a shoeshine
because I will get off the 4:19 in Easthampton
at 7:15 and then go straight to dinner
and I don’t know the people who will feed me

I walk up the muggy street beginning to sun
and have a hamburger and a malted and buy
an ugly NEW WORLD WRITING to see what the poets
in Ghana are doing these days
I go on the bank
and Miss Stillwagon (first name Linda I once heard)
doesn’t even look up my balance for once in her life
and in the GOLDEN GRIFFIN I get a little Verlaine
for Patsy with drawings by Bonnard although I do
think of Hesiod, trans. Richmond Lattimore or
Brendan Behan’s new play or Le Balcon or Les Nègres
of Genet, but I don’t, I stick with Verlaine
after practically going to sleep with quandariness

and for Mike I just stroll into the PARK LANE
Liquor Store and ask for a bottle of Strega and
then I go back where I came from the 6th Avenue
and the tobacconist in the Ziegfeld Theatre and
casually ask for a carton of Gauloises and a carton
of Picayunes, and a NEW YORK POST with her face on it

and I am sweating a lot by now and thinking of
leaning on the john door in the 5 SPOT
while she whispered a song along the keyboard
to Mal Waldron and everyone and I stopped breathing

O DIA EM QUE A DAMA MORREU[1]

São 12:20 em Nova York, uma sexta-feira
três dias após o dia da Bastilha, sim
é 1959 e eu vou engraxar os sapatos
porque eu vou sair do 4:19 em Easthampton
às 7:15 e então ir direto jantar
e eu não conheço as pessoas que me darão de comer

eu caminho pela rua úmida começando a bater sol
e peço um hambúrguer e um achocolatado e compro
um feio NEW WORLD WRITING para saber o que os poetas
em Gana têm feito ultimamente
eu vou ao banco
e a senhorita Stillwagon (cujo primeiro nome é Linda, uma vez eu ouvi)
nem sequer por uma única vez na vida olha para meu extrato
e na GOLDEN GRIFFIN eu pego um pequeno Verlaine
para a Patsy com desenhos de Bonnard, embora eu tenha
pensado em Hesíodo, trad. de Richard Lattimore ou
na nova peça de Brendan Behan ou em Le Balcon ou Les Nègres
de Genet, mas não, eu fico com o Verlaine
depois de praticamente ir dormir com o dilema

e para o Mike eu dou uma passada na loja de bebidas da
PARK LANE e peço uma garrafa de Strega e depois
eu volto por onde eu tinha vindo, da 6ª Avenida
e a na tabacaria no Teatro Ziegfeld eu
distraidamente peço um pacote de Gauloises e um pacote
de Picayunes, e um NEW YORK POST com o rosto dela estampado

e eu estou transpirando um bocado agora e pensando em
dar uma entrada no banheiro do 5 SPOT
enquanto ela sussurrava uma canção junto ao piano
de Mal Waldron e eu e todo o mundo paramos de respirar

 

TO MY DEAD FATHER

Don’t call to me father
wherever you are in
still your little son
running through the dark

I couldn’t do what you
say even if I could hear
your roses no longer grow
my heart’s black as their

bed their dainty thorns
have become my face’s
troublesome stubble you
must not think of flowers

And do not frighten my
blue eyes with hazel flecks
or thicken lips when
I face my mirror don’t ask

that I be other than your
strange son understanding
minor miracles not death
father I am alive! Father

forgive the roses and me

PARA MEU PAI MORTO

Não me chame, pai
onde quer que você esteja
ainda o seu filhinho
correndo pela treva

eu não poderia fazer o que você
fala, ainda que eu pudesse ouvir
suas rosas não crescem mais
meu coração está negro como suas

camas, seus delicados espinhos
se tornaram os problemáticos
pelos na minha face, você
não deve pensar em flores

E não assuste meus
olhos azuis, manchas cor de avelã
ou lábios grossos, quando
eu olhar para meu espelho, não diga

que eu seja outro que não seu
estranho filho, entendendo
pequenos milagres, não morto
pai eu estou vivo! Pai

perdoe as rosas e a mim.

 

A STEP AWAY FROM THEM

It’s my lunch hour, so I go
for a walk among the hum-colored
cabs. First, down the sidewalk
where laborers feed their dirty
glistening torsos sandwiches
and Coca-Cola, with yellow helmets
on. They protect them from falling
bricks, I guess. Then onto the
avenue where skirts are flipping
above heels and blow up over
grates. The sun is hot, but the
cabs stir up the air. I look
at bargains in wristwatches. There
are cats playing in sawdust.
On
to Times Square, where the sign
blows smoke over my head, and higher
the waterfall pours lightly. A
Negro stands in a doorway with a
toothpick, languorously agitating.
A blonde chorus girl clicks: he
smiles and rubs his chin. Everything
suddenly honks: it’s 12:40 of
a Thursday.
Neon in daylight is a
great pleasure, as Edwin Denby would
write, as are light bulbs in daylight.
I stop for a cheeseburger at JULIET’S
CORNER. Giulietta Masina, wife of
Federico Fellini, è bell’ attrice.
And chocolate malted. A lady in
foxes on such a day puts her poodle
in a cab.
There are several Puerto
Ricans on the avenue today, which
makes it beautiful and warm. First
Bunny died, then John Latouche,
then Jackson Pollock. But is the
earth as full as life was full, of them?
And one has eaten and one walks,
past the magazines with nudes
and the posters for BULLFIGHT and
the Manhattan Storage Warehouse,
which they’ll soon tear down. I
used to think they had the Armory
Show there.
A glass of papaya juice
and back to work. My heart is my
pocket, it is Poems by Pierre Reverdy.

A UM PASSO LONGE DELES

É meu horário de almoço, então eu saio
para uma caminhada em meio ao zumbido alaranjado
dos táxis. Primeiro, descendo pela calçada
onde trabalhadores alimentam seus sujos
e cintilantes torsos, sanduíches
e Coca-Cola, usando capacetes amarelos.
Que os protegem de quedas de
tijolos, eu acho. Então pela
avenida, onde saias vão rodopiando
sobre os saltos e decolam acima
dos bueiros . O sol está quente, mas os
táxis fazem o ar se mover. E olho
relógios à venda em pechincha. Há
gatos brincando na serragem.
Rumo
ao Times Square, onde o cartaz
solta fumaça sobre minha cabeça, e mais alto
uma cascata escorre, levemente. Um
negro de pé numa porta com uma
escova de dentes, se agita lânguido.
Uma garota loira do coral dá um estalo: ele
sorri e esfrega seu queixo. Tudo,
de repente, buzina: são 12:40 de
uma quinta-feira.
O neon à luz do dia é um
grande prazer, como Edwin Denby poderia
escrever, assim como são lâmpadas à luz do dia.
Eu paro para um cheeseburger no JULIET’S
CORNER. Giulietta Masina, mulher de
Federico Fellini, è bell’ attrice.
E chocolate maltado. Um senhora com
estola num dia como este mete seu poodle
num táxi.
Há um monte de porto-
riquenhos na avenida hoje, o que
a faz bonita e cálida. Primeiro
Bunny morreu, depois John Latouche,
e então Jackson Pollock. Mas está a
terra tão repleta deles, quanto a vida esteve?
E já se comeu e agora se caminha,
passando por revistas com nus
e por posters com TOURADAS e
a Manhattan Storage Warehouse,
que eles em breve demolirão. Eu
antes pensava que o Armory Show
aconteceu lá.
Um copo de suco de papaia
e de volta ao trabalho. Meu coração é meu
bolso, são os Poemas de Pierre Reverdy.

 

POEM

Wouldn’t it be funny
if The Finger had designed us
to shit just once a week?

all week long we’d get fatter
and fatter and then on Sunday morning
while everyone’s in church
ploop!

POEMA

Não teria sido engraçado
se O Dedo tivesse nos projetado
para cagar só uma vez por semana?

ao longo de toda a semana nós engordaríamos
e engordaríamos e então, na manhã de domingo
com todo o mundo na igreja
plup!

 

POEM

All of a sudden all the world
is blonde. The Negro on my left
is blonde, his eyes are brimming
like a chalice, he is melting
the gold.
Beside me, passed out
on the floor, a novelist burns a hole
in my pants and he is blonde,
even the cigarette is. Some kind
of Russian cigarette.
Jean Cocteau
must be blonde too. And the music
of William Boyce.
Yes, and what
comes out of me is blonde.

POEMA

E de uma hora pra outra todo o mundo
é loiro. O negro à minha esquerda
é loiro, seus olhos se enchem
como um cálice, ele está fundindo
o ouro.
Junto a mim, desmaiado
no chão, um romancista queima um buraco
em minhas calças e ele é loiro,
até o cigarro é. Algum tipo
de cigarro russo.
Jean Cocteau
também deve ser loiro. E a música
de William Boyce.
Sim, e o que
sai de dentro de mim é loiro.

 

A TRUE ACCOUNT OF TALKING TO THE SUN AT FIRE ISLAND

The Sun woke me this morning loud
and clear, saying “Hey! I’ve been
trying to wake you up for fifteen
minutes. Don’t be so rude, you are
only the second poet I’ve ever chosen
to speak to personally
so why
aren’t you more attentive? If I could
burn you through the window I would
to wake you up. You can’t hang around
here all day.”
“Sorry, Sun, I stayed
up last night talking to Hal.”

“When I woke Mayakovsky he was
a lot more prompt” the Sun said
petulantly. “Most people are up
already waiting to see if I’m going
to put in an appearance.”
I tried
to apologize “I missed you yesterday.”
“That’s better” he said. “I didn’t
know you’d come out.” “You may be
wondering  why I’ve come so close?”
“Yes” I said beginning to feel hot
wondering if maybe he wasn’t burning me
anyway.
“Frankly I wanted to tell you
I like your poetry. I see a lot
on my rounds and you’re okay. You may
not be the greatest thing on earth, but
you’re different. Now, I’ve heard some
say you’re crazy, they being excessively
calm themselves to my mind, and other
crazy poets think that you’re a boring
reactionary. Not me.
Just keep on
like I do and pay no attention. You’ll
find that people always will complain
about the atmosphere, either too hot
or too cold too bright or too dark, days
too short or too long.
If you don’t appear
at all one day they think you’re lazy
or dead. Just keep right on, I like it.

And don’t worry about your lineage
poetic or natural. The Sun shines on
the jungle, you know, on the tundra
the sea, the ghetto. Wherever you were
I knew it and saw you moving. I was waiting
for you to get to work.

And now that you
are making your own days, so to speak,
even if no one reads you but me
you won’t be depressed. Not
everyone can look up, even at me. It
hurts their eyes.”
“Oh Sun, I’m so grateful to you!”

“Thanks and remember I’m watching. It’s
easier for me to speak to you out
here. I don’t have to slide down
between buildings to get your ear.
I know you love Manhattan, but
you ought to look up more often.
And
always embrace things, people earth
sky stars, as I do, freely with
the appropriate sense of space. That
is your inclination, known in the heavens
and you should follow it to hell, if
necessary, which I doubt.
Maybe we’ll
speak again in Africa, of which I too
am specially fond. Go back to sleep now
Frank, and I may leave a tiny poem
in that brain of yours as my farewell.”

“Sun, don’t go!” I was awake
at last. “No, go I must, they’re calling
me.”

“Who are they?”
Rising he said “Some
day you’ll know. They’re calling to you
too.” Darkly he rose, and then I slept.

UM RELATO VERÍDICO SOBRE UMA CONVERSA COM O SOL NA FIRE ISLAND

O Sol me acordou esta manhã alto
e claro, dizendo “Ei! eu venho
tentando acordá-lo há quinze
minutos. Não seja tão rude, você é
apenas o segundo poeta que eu já escolhi
para falar pessoalmente
então por que
você não é mais atencioso? Se eu pudesse
tê-lo queimado através da janela para
acordá-lo eu o teria feito. Você não pode ficar
enrolando por aqui o dia todo.”
“Me desculpe, Sol, eu fiquei
acordado a noite passada, conversando com o Hal.”

“Quando eu acordei Maiakóvski ele se mostrou
muito mais disposto”, o Sol disse,
petulante. “Muita gente já está de pé
esperando para ver se eu vou
fazer uma entrada.”
Eu tentei
me desculpar, “eu perdi você ontem.”
“Assim é melhor”, ele disse. “Eu não
sabia se você sairia.” “Você deve estar
pensando por que eu cheguei tão perto?”
“Sim”, eu disse, começando a me sentir quente
pensando que quem sabe ele não estaria me queimando
de qualquer jeito.
“Para ser franco, eu quis contar a você
que eu gosto de sua poesia. Eu vejo muita
em meus giros, e a sua é boa. Você pode
não ser a melhor coisa na terra, mas
você é diferente. É, alguns dizem que
você é louco, eles mesmos sendo, na minha opinião,
excessivamente tranquilos, e alguns
poetas malucos pensam que você é um reacionário e
entediante. Mas não eu.
Apenas siga em frente
como eu faço e não dê atenção. Você verá
que as pessoas sempre reclamam
sobre o clima, que ora está muito quente
ou muito frio ou muito claro ou muito escuro, dias
muito curtos ou muito longos.
Se num belo dia você
simplesmente não aparecer vão pensar que você é preguiçoso
ou que morreu. Apenas siga em frente, eu gosto disso.

E não se preocupe com a sua linhagem,
poética ou natural. O Sol brilha na
floresta, você sabe, na tundra
no mar, no gueto. Em todos os lugares em
que você esteve eu soube e o vi se movendo. Eu estava esperando
que você começasse a trabalhar.

E agora que você
está no controle dos seus dias, por assim dizer,
mesmo que ninguém além de mim o leia
você não deve ficar deprimido. Nem
todos podem olhar para o alto, nem mesmo para mim.
Machuca os olhos.”
“Oh Sol, eu sou tão grato a você!”

“Obrigado e se lembre que eu estou olhando. É
mais fácil para mim conversar com você aqui
fora. Eu não preciso me esgueirar
entre edifícios para chegar aos seus ouvidos.
Eu sei que você adora Manhattan, mas
você deveria olhar para o alto mais vezes.
E sempre
abrace as coisas, pessoas terra
céu estrelas, como eu faço, com liberdade e com
o senso apropriado de espaço. Esta
é a sua inclinação, conhecida nos céus
e você deve segui-la até o inferno, se
necessário, o que eu duvido.

Talvez nós
conversemos novamente na África, pela qual eu também
tenho especial adoração. Volte a dormir agora
Frank, e eu de repente deixo um pequeno poema
nesta sua cabeça, como despedida.”

“Sol, não vá!” Eu estava finalmente
acordado. “Não, ir eu devo, eles estão me
chamando.”
“Quem são eles?”
Levantando, ele disse: “Um
dia você saberá. Eles estão chamando você
também.” Sombrio ele subiu, e então eu dormi.



[1] Refere-se ao dia da morte de Billie Holyday.

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