Uma coisa pequena, fugaz

Ana Martins Marques: "A pouca atenção que em geral se dá à poesia. E, no jornalismo cultural, a predominância do “perfil”, em detrimento da resenha e da crítica."
Ana Martins Marques, autora de “Da arte das armadilhas”
01/09/2012

A curiosidade sobre aquilo que poderia escrever e o encontro com poemas que sobrevivem e surpreendem seu próprio olhar — aí estão dois momentos que abrem e fecham o trabalho da mineira Ana Martins Marques (entre eles talvez estejam os períodos de espera e as xícaras que, vira-e-mexe, aparecem em sua obra). Nascida em 1977, em Belo Horizonte, onde vive atualmente, Ana é autora dos livros de poesia A vida submarina (2009) e Da arte das armadilhas (2011), e foi vencedora de duas edições consecutivas (2007 e 2008) do Prêmio Cidade de Belo Horizonte. No Inquérito a seguir, a poeta se equilibra entre o sim e o não absolutos para comentar o bom leitor, possíveis qualidades e defeitos de um livro e sua relação com a escrita, entre outros assuntos.

Quando se deu conta de que queria ser escritora?
Não sei se em algum momento formulei as coisas dessa forma: “quero ser escritora”. Ainda criança me dei conta de que gostava de escrever, de que escrever me ajudava a entender coisas que de outro modo não entendia, ou a pensar coisas que de outro modo não conseguia pensar.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Não sei. Uma vez uma pessoa comentou que nos meus poemas sempre falo sobre xícaras. Então a resposta talvez seja: “xícaras”. Não me pergunte o porquê.

Que leitura é imprescindível no seu dia-a-dia?
Poesia.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Solidão. Silêncio. Café. E tempo.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Para ler sou bem menos exigente. É bom ter silêncio e alguma tranqüilidade, mas também dá para ler no ônibus, na praia, em salas de espera. Comendo é um pouco difícil, principalmente se for um livro grande. Andando é meio perigoso.

O que considera um dia de trabalho produtivo?
A poesia não está nem aí para questões de produtividade. No caso da ficção ainda parece possível estabelecer certos parâmetros, contabilizar de alguma forma (prever um determinado número de páginas ou linhas, por exemplo). Acho que dá para dizer que um dia em que escrevo um poema que sobrevive à leitura no dia seguinte é um dia produtivo. Mas escrever um bom verso ou encontrar uma imagem que um dia pode vir a entrar num poema também está de bom tamanho.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Escrever alguma coisa que me surpreende como leitora. Não acontece com freqüência, mas gosto muito dessa sensação de que escrevi alguma coisa que não sei.

Qual o maior inimigo de um escritor?
Sobretudo as coisas de que ele gosta e as pessoas que ele ama. Os amigos. A família. O telefone. A internet. O bar. Mas também a vaidade e a autocomplacência; acho importante manter a capacidade de pensar contra si mesmo.

O que mais lhe incomoda no meio literário?
A pouca atenção que em geral se dá à poesia. E, no jornalismo cultural, a predominância do “perfil”, em detrimento da resenha e da crítica.

Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
O poeta Bruno Brum, que lançou no ano passado o ótimo Mastodontes na sala de espera.

Um livro imprescindível e um descartável.
Imprescindível: Reunião, com os dez primeiros livros do Drummond. Descartável: cada um descarta o que não lhe serve. Para mim, só me ajudam os livros que não se propõem a me ajudar.

Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
Não sei se dá para falar isso de forma absoluta: acho que varia de livro para livro. A pretensão, o didatismo, o inacabamento podem arruinar um livro, mas podem também ser o que ele tem de mais interessante. Acho que ceder a modismos ou à tentativa de ser atual são armadilhas que comprometem muitos livros.

Que assunto nunca entraria em sua literatura?
É difícil prever. Essas coisas não são estabelecidas de antemão; na literatura, o “assunto” não antecede a escrita.

Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
O Canto 81 do Pound.

Quando a inspiração não vem…
Faço anotações, leio, retomo textos antigos. E espero. Esperar é parte da escrita também.

O que é um bom leitor?
Talvez aquele que se disponha a ler o livro nos termos propostos pelo livro, aquele que de certa forma aprende a ler a cada livro. Para os autores, no entanto, me parece que bom leitor é qualquer um que se disponha a dar atenção ao que eles escreveram, quando há tantas outras coisas no mundo para se prestar atenção.

O que te faz feliz?
Não pensar nisso. Receitas para a felicidade me deixam infeliz. Acho que a alegria é uma coisa pequena, fugaz, que se consegue de repente.

Qual dúvida ou certeza guia seu trabalho?
Acho (não tenho certeza…) que a literatura é guiada sobretudo pela dúvida. Nunca se sabe se se será capaz de escrever novamente, dificilmente se tem certeza sobre a qualidade do que se escreve. Marguerite Duras uma vez disse que “escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos”. Talvez seja essa dúvida que impulsiona a escrita.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Terminar. Escrever não me diverte. Só gosto do poema (eventualmente) depois de pronto.

A literatura tem alguma obrigação?
Aquela que ela estabelece para si.

Qual o limite da ficção?
O ponto final. Na poesia, nem isso, necessariamente.

O que lhe dá forças para escrever?
Retomando a afirmação da Duras: a curiosidade de saber o que eu escreveria se escrevesse.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Nunca entendi essa obsessão dos ETs pelo líder.

• O que você espera da eternidade?
Se ela existir, espero que uma vez lá eu possa ler todos os livros que nesta vida não terei tempo de ler.

Rascunho

Rascunho foi fundado em 8 de abril de 2000. Nacionalmente reconhecido pela qualidade de seu conteúdo, é distribuído em edições mensais para todo o Brasil e exterior. Publica ensaios, resenhas, entrevistas, textos de ficção (contos, poemas, crônicas e trechos de romances), ilustrações e HQs.

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