Solidão e esquecimento

Resenha de “A lenda de João, o assinalado”, de Margarida Patriota
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Em A lenda de João, o assinalado, Margarida Patriota prima pelo rigor estético ao retratar a história de Cruz e Souza, homem sofrido e poeta marginalizado.

É uma narrativa linear (facilitadora da leitura), com uma linguagem exaustivamente lapidada. A prosa poética dá o tom ao mesmo tempo doce e pesado aos sonhos e frustrações do protagonista. As recorrentes tentativas de se firmar socialmente como escritor, a labuta pela sobrevivência e a exclusão, são elementos geradores de crescente desesperança. O leitor participa da angústia que emana do texto, sente-se aflito e impotente em relação à sucessão de fatos que comprovam, a todo instante, a crueldade de uma sociedade de castas.

Linguagens tradicionais e contemporâneas em suas diversidades são incorporadas à construção artesanal do texto — que resulta no estilo, ou seja, na peculiaridade da obra, na invenção de uma forma a partir de todas as formas existentes.

Lenda é narração. O texto de Margarida é uma mutação do gênero, pois, embora preserve a “narratividade”, acrescenta-lhe sensorialidade. Escrito com lamento e ternura, o texto comunga com o leitor a vida vivida e a sonhada de um dos maiores poetas brasileiros.

Com este trabalho, Margarida abraça o poeta e o pinta com cores van goghianas. Homenagem à altura do homenageado. É tudo que Cruz e Souza desejou: reconhecimento. A velha pergunta se repete: até quando hostilizaremos os poetas verdadeiros?

Um talento aflora
João é o único rebento de um casal de servos da família de um militar e fazendeiro da região sul do país, de Desterro, Santa Catarina. O casal patrão não tem filhos, e a jovem patroa cuida do garoto desde o nascimento, como uma segunda mãe. Uma das razões que a aproxima dos servos é a solidão em que vive na Casa Grande, pelo fato de o marido estar participando da Guerra do Paraguai.

Já no primeiro capítulo são abordados os seguintes temas: política, sexualidade, maternidade e diferenças sociais, entre outros, como nesta passagem inicial:

(…) Guilherme, na peleja defende a pátria de cujos privilégios os braçais são alijados, salvo o de morrer defendendo-a. “Que as castas caiam!”, pregaria fosse homem de calça e barba. Não fosse mulher, seria oradora de tribuna… Só que as castas existem. Por meio dos símbolos que as distinguem, formam pátrias dentro da pátria. “Tanto que migrar de uma casta para outra equivale a entrar em território estrangeiro…”

A patroa ensina o garoto a ler e a escrever e o introduz no conhecimento da cultura da elite. Não há preocupação com datas, quantidades e fatos reais, apenas com a interpretação histórica voltada para o resgate da identidade de um ser humano cuja trajetória de vida foi marcada pela luta inglória. O trágico é cotidiano: solidão literária, miséria e exclusão ferem gravemente um ser moldado para o intelecto e a poesia. A consciência da injustiça em relação ao seu talento aparece muito bem nesta passagem:

Poetas menos célebres proferem palestras concorridas, declamam para auditórios repletos. Alguns são pagos para escrever em jornais. Ele, que os jornais citam a três por dois, nenhuma academia quer ouvir…

Resgate de um artista
Já rapaz, João perde o padrinho, que morre de repente. Isso ocasiona mudanças estruturais na vida dos que estão vinculados à fazenda. Resolve tentar a vida no Rio de Janeiro, mas encontra quase total rejeição por parte da elite intelectual e artística da cidade, com exceção de um pequeno grupo de cultores da poesia. Estes admiram o poeta e tentam ajudá-lo, inutilmente.

Casa-se com uma moça que se torna sua grande companheira de toda a vida. Juntos, enfrentam a pobreza e a discriminação social. A prole cresce e João, profissionalmente, mantém-se estagnado num emprego que não lhe dá visibilidade nem dinheiro.

Para agravar a tragédia cotidiana, sua esposa adoece repentinamente. João passa a ter uma rotina estafante. Além do trabalho regular, cuidará da casa, dos filhos e da mulher acometida por um mal psiquiátrico.

Depois de longo período em estado de demência, ela, da mesma maneira que perdeu a lucidez, volta ao normal. Em seguida, João contrai tuberculose e, embora os amigos juntem dinheiro para interná-lo num sanatório, isso não chega a acontecer.

Enfim, paupérrimo e desesperado, experimenta os horrores da miséria, da loucura e da tuberculose, sem parar de escrever. Entre os que esmolaram a seu favor, o colunista de O país, Artur Azevedo, escreve:

Não estou no catálogo de seus amigos, nunca troquei uma palavra com ele, conheço-o apenas pelos seus escritos; não me compete, pois, tomar a iniciativa de um movimento qualquer em seu favor. Mas isso não obsta a que me ponha desde já ao serviço de todas as pessoas que, por meu intermédio, desejarem de qualquer modo manifestar a sua simpatia pelo autor…

A lenda de João, o assinalado é um livro sério. O narrador, despojado de vaidades, resgata o artista silenciado pelo tempo e pela solidão literária, condição da maioria dos verdadeiros artistas, vivos ou mortos.

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