O Brasil de Via Civitavecchia, 7

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08/05/2012

Não tem brasileiro ou português — professor, pesquisador, intelectual, artista, escritor ou poeta — que, de passagem pela Itália, não tenha ido bater no número 7 de Via Civitavecchia, numa ruazinha tranqüila de um elegante bairro de Roma, endereço da ilustre filóloga, medievalista, brasilianista, historiadora de teatro e de literatura, professora emérita da Universidade de Roma, sócia correspondente da Academia Brasileira de Letras, Luciana Stegagno Picchio. Para nós, seus ex-alunos, brasileiros, italianos, portugueses e até gente das mais variadas partes do mundo, saudosos dos nossos países e da nossa língua, aquele refúgio acolhedor era uma espécie de sucursal das nossas casas e ela, a ilustre e conhecida professora italiana, uma espécie de segunda mãe que nos adotava com generosidade e para sempre.

Em seu apartamento, de paredes forradas de livros (até nos corredores e na cozinha via grandes volumes enfileirados), podíamos achar o último texto de poesia ou de crítica que tinha acabado de ser publicado no Brasil ou em Portugal, o livro raro de algum poeta semidesconhecido dos interiores brasileiros, a primeira edição autografada dos maiores escritores brasileiros e portugueses do século 20, sem contar edições ainda mais raras de séculos anteriores. E dali, daquela casa que nos parecia, como sua proprietária, extraordinariamente iluminada, mesmo nos dias frios de inverno e chuva, com estantes que formavam, literalmente, uma grande árvore, com o que tinha de melhor das letras e das artes do mundo lusófono, saíram ao longo dos anos mais de quinhentas publicações sobre a língua portuguesa e as literaturas de expressão portuguesa, obras traduzidas e publicadas em muitos países e muitas línguas, obras que aproximaram o universo lusófono da Europa e do mundo e que tornaram conhecidos grandes escritores de língua portuguesa.

O seu amor pelo Brasil nasceu em 1959, quando pisou pela primeira vez no solo desse país. E sua primeira experiência nas plagas brasileiras se deu em Salvador, cidade que a encantou e que ficará para sempre como uma grande paixão. Em quarenta anos, realizando pelo menos duas viagens por ano ao Brasil, visitou-o de norte ao sul, instaurou relações de amizade com professores, críticos e escritores entre os maiores, como Celso Cunha, Antenor Nascentes, Alexandre Eulálio, Carlos Drummond de Andrade, Antonio Candido. Nessas viagens, mergulhava de corpo e alma na cultura brasileira, queria conhecer tudo e falar com todos, armazenar livros, palavras, rostos, frases soltas no ar, momentos quase epifânicos que ela depois, já de volta à sua casa, “ruminava” à maneira de Guimarães Rosa, dando origem mais tarde a ensaios e livros.

Suas obras, entre as quais a pioneira História do teatro português, de 1964, a obra La letteratura brasiliana, publicada em 1972 e inteiramente revista e atualizada em 1997, com o título História da literatura brasileira, que saiu contemporaneamente na Itália, pela Einaudi, e no Brasil, pela Nova Aguilar. O seu método rigoroso de filóloga e de comparatista da literatura, como justamente ressalta um dos seus mais brilhantes ex-alunos, o escritor italiano Antonio Tabucchi, lhe permitiu estudos e edições críticas fundamentais, que abrangem desde poetas e trovadores galego-portugueses, passando por Gil Vicente, Luís de Camões, Eça de Queiroz, Machado de Assis, até os contemporâneos Fernando Pessoa, Giuseppe Ungaretti, Murilo Mendes, Alexandre O’Neill, Jorge de Sena, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Sophia de Mello Breyner, David Mourão-Ferreira, Jorge Amado, António Lobo Antunes, José Saramago e tantos outros.

Em seus livros, considerava as manifestações artísticas e literárias portuguesas sempre num contexto mais vasto, ibérico e europeu. O mesmo se deu em relação ao Brasil, cuja literatura e história não podiam prescindir, sobretudo em suas primeiras manifestações, das relações estreitas com a Europa. Sua história da literatura brasileira é um vasto e atualizado panorama do país, em que a literatura nunca é isolada do momento histórico e das condições socioeconômicas que exigiram dos autores determinadas formulações e respostas.

Grande amiga do poeta Murilo Mendes, organizou em 1994 a edição crítica da Poesia completa e prosa, publicada pela Nova Aguilar, uma obra fundamental que trouxe de volta aos brasileiros um dos seus maiores poetas, um tanto esquecido por ter passado os últimos anos de vida fora do país, trabalhando e vivendo em Roma. Na ocasião, Luciana doou a Juiz de Fora a parte do espólio que o poeta mineiro lhe deixara e que ela guardava com zelo em sua casa romana, uma série de cartas, manuscritos e originais que ela, em todos esses anos, pôs à disposição de estudiosos da obra muriliana.

Nos últimos anos, Luciana organizou e publicou na Itália, entre outras, as obras completas de Jorge Amado e de José Saramago, na preciosa coleção I Meridiani, de Arnoldo Mondadori Editor, com ensaios que revelaram aspectos inusitados das obras dos dois autores.

Poderíamos continuar a falar ininterruptamente sobre o trabalho e a vida intensa e generosa dessa grande estudiosa, que nos deixa quase em ponta de pés, numa sexta-feira, 28 de agosto, numa Roma que, estranhamente, parece hoje tranqüila e silenciosa, quase vazia dos seus habitantes que, nestas horas, gozam avidamente os últimos momentos de férias do verão. Mas todas seriam palavras, frases, já sem a densidade de um corpo e de uma alma. Por isso, digamos simplesmente que Portugal e o Brasil ficaram mais pobres sem essa figura, cuja obra é um verdadeiro marco na cultura universal, sem essa poliglota que tinha nos gestos e palavras a limpidez e a simplicidade que só os grandes e extraordinários eruditos possuem. Nos últimos meses, já não recebia em casa os amigos e, por telefone, respondia aos nossos apelos com voz embargada de emoção, com a qual ia repetindo, como última lição: “procuremos comportar-nos segundo a receita daqueles santos para os quais é preciso viver cada dia como se fosse o último”. Assim foi.

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