Celebração telúrica da vida

Resenha do livro "A duna intacta", de Maria Dolores Wanderley
Maria Dolores Wanderley, autora de “A duna intacta”
01/10/2008

Em um mundo antropocêntrico, que naturalizou a invenção ocidental e moderna da subjetividade e deslocou o sentido da poiesis, originalmente vinculado à dinâmica criativa e impessoal da natureza, para o campo restrito da expressividade humana, o tocante livro de poemas A duna intacta, de Maria Dolores Wanderley, presenteia-nos com uma “telúrica” lembrança: antes de criador e doador de sentidos, o homem é um doado e criado pelas forças artísticas da inesgotável Terra-Mãe, da qual é feito — feito de humus — e, por isso, como ela, pode ser também gerador e transfigurador de si e das demais “coisas caladas, quietas” a cercá-lo. A arte não tem compromisso com a exteriorização de um dentro, na medida em que este, povoado por tantos foras, se nega na interface das infinitas vozes estrangeiras que o cruzam. Por nos (des)contornarmos porosos e permeáveis a esse mundo aparentemente externo é que podemos devolver, reconfigurado, o vigor dele recebido: na iminência de qualquer extravasar, já terá vazado sempre, sobre e sob nós, a realidade que “convida a ouvir raízes,/ folhas, lama// — trabalho do caranguejo”.

A amorosa escritura de Maria Dolores Wanderley dá-se nessa construção dialógica e poética da vida que “pousa cores no jardim” e “dimensiona volumes, texturas”. Como outrora pulsou a Gaia ou a physis na Grécia Arcaica; a Onilé ou Ayê de Ifé, na África; como outrora Eros fez-se nome para a irmanação de todas as coisas e como rezamos, afro-descendentes, o axé que movimenta, aproxima e fertiliza os seres. À semelhança de um Alberto Caeiro que deixa as coisas serem elas mesmas para que se nos revelem sua própria poeticidade, libertas de sentidos e fundamentos que serão sempre nossos e nunca delas, Maria Dolores parece zelar por este intacto das dunas, de maneira que, intocáveis, permaneçam sempre virgens, isto é, à espera de olhares e dedos e pés que as fecundem, ad infinitum, como que pela vez primeira. Sem a mácula com que os homens roubam da areia o arear, da flor o florir, do mar o… Amar!

O título do livro reúne ainda duas grandes questões que levam as gentes de todas as épocas a perguntarem pela gênese e horizonte de tudo o que há: a mudança e a permanência. “Duna” traz a imagem da desfiguração, do devir, do provisório e do mutante, enquanto “intacta” evoca o contraponto do repouso. Na concomitância de sermos outros e os mesmos; de não perdermos a sensação de continuidade sem a qual sequer poderíamos perceber que mudamos, o tempo, preenchendo os espaços da travessia, instaura-se como o grande lugar desta poética que “não tem a precisão/ das horas/ não segue inexorável/ os ponteiros do relógio”; que “muda com as estações (…)// enquanto giramos” e que se vê “gigante pela fresta” aos “49 anos”. Mesmo quando a falar de si, a poeta pede que a natureza — com a qual comunga — fale, mas não para subordiná-la às formas humanas de vê-la e, sim, para que o poema seja visto pelas formas com que a natureza o escreve. Muito mais sincero do que se projetar e se espelhar nas “ondas ressacas maresia/ barcos distantes/ brisa leve leve” é permitir que estes se projetem e se reflitam no próprio corpo da autora, tornando-o terrosa obra, posto que autores de todo afeto a encorpar/incorporar palavra.

Enquanto boa parte da crítica literária requisita que os poetas cantem o presente e insuflem-se das angústias urbanas, pós-modernas, capitalistas, apocalípticas, Maria Dolores Wanderley ensaia sua plástica música celebratória, mas nem por isso abstém do contemporâneo. Na autofagia da ciência e de suas promessas de progresso, a exploração e o esgotamento da natureza pelo homem, que agora o ameaçam e o castigam, rogam que o barulho e babel das cidades envidraçadas se rendam à escuta de um silêncio no qual “múltiplas janelas se abrem”, embora, hoje, quase afônico, por tanto gritar. E porque gritamos demais e estamos roucos com a esterilidade do falatório, esta poesia reivindica o sussurro, a contenção, a serenidade, a pausa (mesmo quase livre de sinais de pontuação) e a conivência com essa tal voz sem idiomas nem som à qual o homem atual não cede ouvidos. Daí, alarma-nos tanto ter que discorrer sobre exímia poesia de “beleza e fugacidade”, como se roubássemos dela, de seu movimento, o que se nos presenteia intacto e assim merece ser mantido. Ferimos o calar que pode dizer tão mais nas “veredas percorridas”. E dizemos tão menos do que a alegria do corpo ao saber que, mesmo não flutuando, tem “um chão para pisar” — “agora uma folhagem, um tapete/ onde brincamos de descobrir a paisagem”: “tudo é passível de brotos/ basta um fio de ternura persistindo”.

A duna intacta
Maria Dolores Wanderley
Editora da Palavra
83 págs.
Igor Fagundes

É poeta e crítico literário.

Rascunho