Alquimia inversa e a lei da compensação

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09/01/2013

O tradutor, como outros tipos de escritores, é um ser assombrado por fantasmas. São muitos os espectros que povoam os pesadelos e mesmo a mente desperta dos escritores. O bloqueio-parálise provocado pela impassibilidade — quase uma afronta — da tela-página em branco; as dúvidas excruciantes sobre a receptividade do leitor, do mercado e da crítica. O desespero provocado pelo cruzamento da infinita profusão de palavras com o espaço infinito do papel.

Para o tradutor, há assombrações mais assustadoras que estas: a sombra do autor, o peso do original, a imponência das cadeias de montanhas que separam línguas, eras e culturas — e que precisam ser transpostas, muitas vezes a duras penas, por esse transportador de textos, idéias e sensações.

Um dos fantasmas é o desafio de reproduzir, em língua estranha, efeitos originais de um autor inspirado. Efeitos literários são mais que artifícios estéticos. São trabalhados com cosimento de engenhos sonoros (não necessariamente pronunciados), componentes emocionais e elementos formais e visuais.

A parte mais difícil do trabalho do tradutor talvez não seja entender o original; talvez não seja saber como trasladar o original a seu novo contexto. A tarefa mais árdua será jogar o jogo das compensações. Ter a sensibilidade para fazer girar o caleidoscópio das línguas de forma a projetar imagens que provoquem sensações semelhantes. Lidar com esse fantasma que exige, se não a reprodução dos efeitos literários, sua substituição por engenhos equivalentes — não exatamente nos mesmos locais do texto.

Haroldo de Campos divisava a vigência da “lei da compensação” em certos casos de tradução: “um efeito perdido aqui, pode ser ganho acolá, explorando-se as latências e possibilidades da língua do tradutor”. Fazer essa contabilidade não é exatamente um exercício fácil. Exige mais que uma máquina de calcular. Exige domínio das línguas, sensibilidade literária, paciência para a pesquisa, grandes doses de criatividade. E, talvez acima de tudo, coragem de ousar.

O ofício do tradutor não está muito associado à ousadia. Mais comum é vinculá-lo à humildade e à fidelidade (mesmo que não se saiba precisamente a quê). Mas para compensar é preciso ousar. E sem jogar o jogo da compensação é difícil fazer boa tradução literária. Compensar significa restaurar dois versos adiante a rima que se perdeu ali atrás. Ou recuperar, com diferentes consoantes, a aliteração da estrofe anterior do original. Ou, em prosa, reproduzir, com elementos autóctones, o efeito sinistro, irônico ou humorístico de uma referência cultural do texto primeiro.

Nada disso se alcança sem arrojo e mesmo certa pitada de petulância. Excesso de respeito pelo texto original pode resultar em tradução pífia — digna do olvido de prateleiras obscuras. Brincar com esses fantasmas será talvez a melhor forma de exorcizá-los — ou mesmo de amestrá-los para tê-los, cativos, como novos elementos literários.

A compensação é parte dessa espécie de alquimia inversa que deve fazer o tradutor: transformar o ouro do original em mero outro metal na língua de chegada. Difícil replicar o brilho do original, mas que seja o novo metal igualmente polido. Já não seria pouco. Burilar o texto como o teria feito o próprio autor (embora nem todos o façam). Burilar o texto como nem mesmo o autor mais esmerado o faria. É exigir demais. Nem mesmo o melhor tradutor o faria: repassar, revisar, repetir (cem vezes, se preciso) o jogo da compensação — depurar, em cem destilações, até alcançar transmutação perfeita.

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