A vida literária atual

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09/01/2013

A vida literária atual é mais ou menos imposta ao senso comum pela mídia cultural. E traz alguns elementos sobre os quais é importante refletir: 1) O autor contemplado pelo mercado editorial (ou seja, aquele que consegue publicar por uma média ou grande editora que irá distribuir seu livro nacionalmente) certamente aparece mais na mídia cultural, formadora importante, e decisiva, de opinião. Tão importante que chega a decidir, de certa forma, o que é e o que não é literatura brasileira. Suplementos como o Prosa & Verso, o Idéias, o Mais, o Caderno 2 (Estadão), etc. dão bastante visibilidade a esse autor contemplado pelo mercado editorial, deixando no ostracismo midiático uma quantidade enorme de outros autores (sobretudo, os residentes na periferia ou “províncias”). Assim, no presente, os escritores repartem-se em dois grupos: a) os que existem aos olhos do grande público (e portanto são identificados como aqueles que fazem a literatura contemporânea); b) os que simplesmente não aparecem aos olhos desse mesmo grande público (quase não sendo identificados como fazedores de literatura brasileira).

Decorrem daí duas formas de ter “vida literária”: uma efetiva, profissional (até onde esse termo cabe na realidade literária brasileira); outra episódica, amadora. O autor inserido no mercado editorial hoje tem oportunidades que o autor provinciano sequer sonha em tê-las (a não ser, repita-se, episodicamente, e por um “descuido” de organização). Ao romancista, contista, poeta ou ensaísta do mercado editorial abrem-se oportunidades de participar do circuito dos grandes eventos literários anuais (feiras, bienais, seminários, congressos, encontros acadêmicos, etc.), tendo suas despesas e cachê garantidos. Esse autor, por circular mais, torna-se mais conhecido, ganha um público impensado para o autor da periferia. Desconfio que, com raras exceções, é para entrar nesse circuito que hoje certos escritores produzem e têm necessidade de todo ano publicar uma obra — isto lhe traz visibilidade e, portanto, mais oportunidades. Talvez aqui entre uma questão original para esses tempos pós-modernos: a necessidade de fama (que é mais passageira) substituindo a de glória (que em princípio agrega valores mais permanentes).

Vida literária, assim, ou melhor, a vida literária do autor do mercado reúne basicamente três necessidades: 1) a de fama (mais que a de glória); 2) a de visibilidade na mídia (como efeito e também estímulo da primeira necessidade); 3) a do dinheiro dos cachês (e ainda a das “mordomias” — passagens, transportes, hotéis — que os eventos lhe proporcionam). E como fica a obra? Há perdas em relação à fatura da obra, em relação à sua qualidade. Há simplificação, desleixo, pouco artesanato (ainda acredito que literatura é artesanato). Não que todos os autores sejam assim, mas nota-se no momento um bom número de obras pouco originais, reproduzindo fórmulas, repetindo com ares de novo coisas já feitas. Não que a literatura atual seja pior do que a de outras épocas (cada época tem seus temas e valores literários próprios), mas está um tanto estagnada criativamente. Talvez uma das razões — não a única, evidentemente — seja o modo de se fazer a vida literária na contemporaneidade, em que a imagem do autor não raro vale mais do que a qualidade de sua obra, que às vezes nem lida é como deveria. Há autores que aparecem muito na mídia, mas têm, substancialmente, poucos leitores, suas obras têm pouca resposta crítica. A obra com resposta crítica poderá colocá-los no panteão dos indivíduos de glória. Mas desconfio que, no afã da fama, certos escritores postos no mercado não estão muito preocupados com as questões que envolvem a permanência de suas obras. E esse apego exacerbado à auto-imagem é um dado muito importante, e talvez definidor, do nosso tempo. Mais do que nunca, aparência e essência parecem significar o mesmo.

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