A relatividade do olhar

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08/05/2012

Leitor do Rascunho: qual foi o último livro de contos que você leu, e que em sua opinião, aglutina apenas textos excelentes? Lembra? Ou então um livro com apenas contos bons? Consegue recordar? Mas um livro reunindo alguns contos ótimos, outros bons e até uns ruins, desse você tem lembrança, não tem? Simultaneamente, é possível afirmar que contos, que você considera ótimos e/ou bons podem ser, os mesmos contos, razoáveis ou mesmo péssimos, sob o ponto de vista de uma outra pessoa, não é mesmo? Tais indagações surgem diante, e após, a leitura de Antes do circo, livro com 11 contos, de autoria do jornalista gaúcho radicado em São Paulo Jerônimo Teixeira, que atua na revista Veja.

Os 11 contos não apresentam, necessariamente, unidade entre si. Seria possível afirmar, se não fosse revelada a identidade de Teixeira, que determinados contos são de um escritor, outros de um segundo autor e assim por diante. Há também a percepção, e é importante salientar que se trata de uma opinião particular, agora tornada pública, de que alguns contos — dois em especial — são excelentes, alguns bons e outros não-excelentes nem bons. De todo modo, se faz urgente apontar algumas características que se evidenciam, seja em uma primeira, segunda ou terceira leituras realizadas por este resenhista antes da confecção desta mera resenha, banal ponto de vista, assumidamente desimportante texto que não é uma crítica (talvez “achismo”).

Narrador que conversa
Uma vez que 2008 se faz literariamente, também, pela lembrança dos 100 anos da morte de Machado de Assis, um aspecto presente, e peculiar, em contos e mesmo romances do escritor fluminense também acontece na prosa teixeiriana. Trata-se do narrador que conversa com o leitor e interfere mais do que ativamente na condução do enredo. Isso se dá no conto Melodrama, em que uma tragédia une um casal: ele se torna tetraplégico; ela, apenas aceita a condição de babá-enfermeira. A “história” é quase secundária, tamanha a presença do narrador que, por exemplo, imediatamente após enunciar a palavra “estouvado”, comenta: “(a palavra anda um tanto em desuso, mas o leitor, se soube observar o bigodinho fino e canastrão do personagem, já terá visto que a história se desenrola no passado)”. E muitos dos contos teixeirianos se passam no passado.

No conto Unheimlich, também há um narrador mais do que participativo, talvez intrometido. Só que neste caso, o narrador apenas anuncia que vai “contar” algo e, ao final, não cumpre o prometido. Ou seja: há uma expectativa de que será narrada uma “história”, mas “nada” é contado. O conto é, entre outras coisas, pretexto para o autor enunciar pontos de vista (“A vida acadêmica não poucas vezes é determinada antes por preguiçosa conveniência do que por legítimo interesse intelectual.”). Se isso — narrador participativo — é ótimo, bom, razoável ou péssimo? Cada leitor que decida. Mas funciona? Sim. Tanto em Melodrama como em Unheimlich, a estratégia fisga a atenção e até mesmo abduz quem lê — e isto é mera opinião pessoal, como já foi pontuado, mas é importante repetir.

Excelência literária
Se Jerônimo Teixeira, ao invés dos 11, tivesse publicado apenas dois contos — Deus em Porto Alegre e Pedacinho do céu — seria possível, sem nenhuma hesitação, afirmar: trata-se de um excelente livro de contos, possivelmente o melhor de 2008, pelo menos até agora. Mas Antes do circo traz, como já se observou, 11 textos ficcionais. De qualquer maneira, que é o que se tentava articular no início desse parágrafo, Deus em Porto Alegre e Pedacinho do céu são duas obras-primas, pontos altos da história do conto em literatura brasileira ou mesmo no idioma português.

Ambos são os contos mais longos do livro. Mas não se irmanam apenas por esse detalhe. Nos dois textos, há alusões a Porto Alegre, e não se trata de saudosismo nem de elogio. “Porto Alegre é o atoleiro do talento!”, um personagem carimba em meio ao conto Pedacinho do céu. Em Deus em Porto Alegre, a capital gaúcha — com chuva, prédios centrais deteriorados e outras ruínas, inclusive humanas — é o cenário de uma trama que se passa em meio à expectativa de uma apresentação de João Gilberto na cidade (o Deus do título é uma referência ao músico).

No conto Deus em Porto Alegre, um jornalista recebe como missão, e também prêmio, fazer a cobertura de um show do grande nome da bossa nova e da música brasileira. A partir disso, há, também, uma desconstrução do que, na visão do autor (jornalista que é), pode ser a rotina em uma redação de jornal:

O Jornalista entra na redação. Agitação de outros corcundas, anões intelectuais, aleijões morais, vampiros anêmicos, vermes bípedes. Um colega vem cumprimentá-lo, dá-lhe um tapinha nas costas — e aproveita para lhe cravar o punhal na corcunda, como um picador espeta a lança nas costas do touro. O Jornalista nem se importa. Já não sabe mais sofrer.

Em meio a citações de frases de letras de canções bossa-novistas, o que se insinua — no conto Deus em Porto Alegre — é uma espécie de tristeza sem fim para um jovem jornalista com algum talento e vontade que procura fazer o melhor que o seu suor permite, mas tem todos os projetos de vida podados, editados, destruídos enfim por outros personagens, hierarquicamente mais bem posicionados, que habitam não apenas uma Porto Alegre ficcional desenhada por Teixeira, mas até mesmo outros tacanhos e provincianos pontos do Brasil real distantes das megalópoles Rio de Janeiro e São Paulo.

O conto Pedacinho do céu é feito a partir de um momento presente sobreposto por um regresso ao passado, retomada do tempo que seria o hoje para os personagens, interrupção de volta para o passado: moto-contínuo disso. Dois amigos que conviveram durante o período de faculdade, em Porto Alegre, se reencontram em uma praia de Florianópolis. Ambos ambicionavam trilhar veredas intelectuais, mas fracassaram. A presença de uma personagem feminina amalgamava a proximidade entre os dois naquele pretérito mais do que perfeito. O texto problematiza, liricamente, o mote a vida que poderia ter sido e não foi, e pode, arrebatadoramente, comover eventuais leitores.

Ô, mundo tão desigual
Depois de fruir Deus em Porto Alegre e Pedacinho do céu, se torna complicado, difícil, mas necessário até — sobretudo se esse espaço é uma resenha de todo o livro Antes do circo — estabelecer comparação entre os dois excelentes contos com outros textos que o autor enfaixou na mesma obra. Há momentos interessantes, como os muitos sintéticos Reduzir a pó os testículos (que, a exemplo do que o título sugere, trata de castração) e o texto que empresta o nome ao livro (que faz pensar na origem da selvageria enjaulada que faz rir platéias ao redor de picadeiros). Mas há contos — como Onde a sombra bebe café e Páginas arrancadas de um tratado de estética — que, para este leitor ao menos, se apresentam não apenas como ruins, mas incompreensíveis. São textos escritos em português. Não há experimentalismo de linguagem. Mas não “param em pé”. Ou a intenção do autor foi problematizar um eventual nonsense com enredos sem sentido?

O leitor do Rascunho já lembrou de um livro de contos que traz apenas textos excelentes? Ou mesmo somente bons contos? E do livro de contos com alguns ótimos, outros bons e até mesmo textos ruins e/ou péssimos? O óbvio ululante reza que tudo depende do olhar, de quem lê, seu repertório, detalhes esses que alguns comentam, outros repetem, etc., e então tudo isso se elabora diante da publicação, e da leitura, de Antes do circo, de Jerônimo Teixeira, um livro que instiga, faz pensar e — no caso deste resenhista — reconhecer o talento literário do autor, sobretudo pela presença de dois contos sublimes, Deus em Porto Alegre e Pedacinho do céu (como já foi apontado, mas vale a repetição insistente).

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