A linguagem sagrada do corpo

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09/01/2013

Acenos e afagos, o mais recente romance de João Gilberto Noll, apresenta ao leitor discussões que já vêm sendo esboçadas em outros textos anteriormente publicados sob diversos aspectos. Trata-se de uma narrativa em primeira pessoa, cujo narrador-personagem discorre sobre sua trajetória de vida ou vidas, já que morre e ressuscita, tendo como eixo o caminho do corpo, em suas errâncias, desassossegos e descobertas.

O narrador apresenta-se como um fazendeiro sem muito talento para o ofício, mas que vai tocando os negócios, vivendo com mulher e filho adolescente. Em paralelo, mantém uma vida de prazeres fortuitos, atraído por relações homoeróticas ocasionais e sem maiores envolvimentos. Guarda, entretanto, como reminiscência ou esperança de concretização uma paixão por um colega de infância que chama de o engenheiro. O livro começa descrevendo o primeiro embate ou luta corpo-a-corpo com esse companheiro que marcou parte significativa de sua vida. Por longos anos o engenheiro surgia em suas fantasias sexuais e afetivas como objeto de desejo e de paixão, até se reencontrarem e efetivarem a relação em outra perspectiva. O companheiro de infância, “aquele que no auge das idades te seduziu além dos limites da ilusão”, tem inegável importância. Mais que objeto de desejo, acaba sendo parceiro de uma história de amor. O que em última análise, como diz o protagonista, “lembrava, sim, que eu tinha história, mesmo que desgovernada muitas vezes ou quase sempre”.

Apesar de o texto ser um grande parágrafo, no que concerne a estruturação da trama, poderíamos subdividi-lo em dois grandes blocos, a primeira e a segunda vida, antes e depois da primeira morte. O primeiro momento, ainda casado, pai de família e libertino errante e, o segundo, mergulhado de cabeça na paixão pelo engenheiro que, fantasticamente, ou ironicamente, arrebatou-lhe do túmulo, restituindo-lhe a nova vida. Morto para a família e para os negócios vive para o engenheiro e embarca numa viagem sem volta com transmutações de personalidade, incluindo aí, com ênfase, os diferentes estágios e papéis de sua sexualidade. A primeira e a segunda vidas se mesclam através dos delírios e da superposição que uma vai operando sobre a outra. Durante todo tempo de casado, a presença do engenheiro, como fantasia e reminiscências eróticas e afetivas, é marcante. Durante toda aventura com o engenheiro, a lembrança da vida anterior, principalmente do filho, materializa-se como alucinações, ora diluídas ora palpáveis. Estas duas vidas se diferenciam na evidência dos fatos e ganham rumos próprios, mas não se separam em capítulos distintos.

Longuíssimo parágrafo
A estrutura única e ininterrupta do texto se justifica pelo fato de o enredo, apesar de relevante, cheio de surpresas e suspense, adquirir um caráter secundário em relação ao resto do projeto ficcional. Do ponto de vista factual, o real e sua representação são irrelevantes frente à busca simbólica de sentidos, sempre provisórios, parciais ou absurdos. O fio de sustentação da narrativa não é a história, propriamente dita, vivida pelo sujeito, mas como a voz compulsiva do personagem, sua dilaceração emocional, física e identitária inscrevem-se nessa história. Todo romance, composto com cerca de 200 páginas, é constituído por um único e longuíssimo parágrafo que se estende do início ao fim, como se num só fôlego se pretendesse dizer de si, do outro, da vida e da morte. Em socorro à necessidade de se situar num mundo das aparências e repressões está a palavra, sua linguagem, cantada por essa voz narrativa que jorra como tantos outros fluidos, líquidos e secreções do corpo. Ao mesmo tempo em que é grito, é hemorragia que se derrama construindo a narrativa.

Silviano Santiago, em ensaio crítico sobre o romance a Fúria do corpo, de Noll, enfatiza campos de força que se destacam no texto:

As forças positivas desse romance — com já diz o título — são as da fúria e do corpo. Nelas residem a coragem e a audácia do personagem e do projeto ficcional de João Gilberto: numa sociedade repressiva e conservadora, deixar o corpo rolar com raiva e generosidade (isto é: com paixão) pelos caminhos e vielas de si mesmo, do Outro e da cidade.

Em Acenos e afagos,apesar da fúria vir diluída em nuances mais sutis, o percurso do corpo em seus movimentos de busca de prazer e auto-reconhecimento continua dando a tônica e impingindo coragem e audácia tanto no que se refere ao protagonista, quanto ao projeto ficcional do autor. O que está em discussão é como o que tem sido calado e reduzido ao silêncio ganha legitimidade e expressão através da ficcionalidade. Espaço e tempo perdem a referencialidade geográfica e histórica para se inscreverem no campo desterritorializado dos desejos e dos ritos. Sendo assim, a ação em si rodopia em idas e vindas que ultrapassam a linearidade, muitas vezes esperada, para lidar com outros elementos que se negam ao bom desempenho tanto comportamental dos personagens, quanto da linguagem expressiva com que essa ação se deixa contar. Opera-se, então, a transgressão aos códigos de conduta que aprisionam o sujeito numa vida artificial e imposta por forças fora de si mesmo, afastando-o de outros semelhantes com os quais precisa conviver . Importa recriar, a partir daí, a palavra, transgredi-la, para além de sua natureza social institucionalizada, para dar corpo ao texto. Este por sua vez, tem como único abrigo definitivo o corpo em suas grandiosidades e misérias. É esse corpo que se rebela e se entrega ao outro e à narrativa de si mesmo, escancarando seus suores, excrementos, espermas e sangue vivo como único referencial plausível de força, de fragilidades e de sentidos. É esse corpo que se inflama para expressar um agrado, a mulher, aos amantes, ao filho, a uma cabra, a si mesmo, em acenos que muitas vezes só se manifestam em gestos que ficam na vontade impotente de existirem. “Ele é simplesmente ele. (…) Digo sim, sou o teu pai. (…) Pensei em lhe fazer um agrado, um afago destemido embora sempre sóbrio. Ou só um aceno… Mas não havia mais como. Isso deveria ter sido na infância dele.” Acenos, agrados e afagos são termos que se repetem por todo texto com uma intensidade gradativa para delinear as proximidades e diversidades dos afetos. Funcionam, muitas vezes também, para atenuar o ritmo compulsivo da fala narrativa e da ação frenética que a envolve.

Vazio
Corpo e linguagem se fundem numa relação estreita e erotizada. Só através dela o sujeito se reconhece em sua precariedade e isolamento. “O buraco no abastecimento parecia anunciar a minha destinação, de agora em diante, erma. O vazio se encolhia todo quando eu o tocava com a palavra. É próprio dele não se empolgar com a linguagem. O vazio só sabia se fazer representar no armário da cozinha.” Dentro desse vazio instala-se a fome infinita, de alimentos, de completude existencial e de expressão. O vazio representado objetivamente pela falta de alimento levanta a verdadeira condição do sujeito, sua destinação erma. Difícil ou impossível de se fazer representar no plano emocional, o vazio é uma presença que paira entre corpo e palavra. A constituição desse sujeito também se caracteriza pelo vazio, um vazio que se encolhe todo sob o toque da palavra, mas que dela não prescinde.

O protagonista de Fúria do corpo,ao se apresentar no início do romance, situa-se dentro de negativas, num vazio de definições. “Não me pergunte pois idade, estado civil, local de nascimento, filiação, pegadas do passado, nada, passado não, nome também: não.” Por mais que durante a história do narrador de Acenos e afagos haja referências à idade, ao estado civil, ao local de nascimento, a pegadas do passado, este sujeito também parece desreferencializado. Ambos se contam negando a existência do próprio nome, da identidade civil, como referência ao vazio insustentável da própria interioridade. Tanto um quanto outro insinuam o nome de João sem muita convicção. João Evangelista o primeiro, João Imaculado, o segundo (única referência no meio do livro). “São como tantos outros Joãos, espalhados pela obra e pela vida. João Ninguém: destituído, sem pátria, sem nome, sem… Sou um homem usual… que não deixa marcas. Eu, um homem usual como tantos, não trarei paraísos nem pesares. Sou o anônimo, alguém que pode desaparecer de pronto sem deixar lembranças.”

David Treece, no prefácio de Romances e contos reunidos, faz em sua leitura crítica da obra de Noll um apanhado de eixos temáticos ou sentimentos caracterizadores da maioria dos personagens dessas narrativa. De certa forma, considera-os “um único protagonista que muda de pele… mas se mantém idêntico na humanidade que nos vincula a ele”. Afirma: “Noll insere a experiência individual e anônima do exílio, da errância, do abandono, da mendicância e da desqualificação na nossa vivência coletiva de modernidade”. Dentro do enfoque de desqualificação encontra-se o anonimato e suas conseqüências como manifestações da “grande decepção de uma modernidade que ofereceu a todos a promessa da emancipação universal mas que não a cumpriu”.

Verdadeiro senhor
Dentre tantas negativas, uma afirmativa se destaca: “Sexo, o meu sexo sim: o meu sexo está livre de qualquer ofensa, e é com ele-só-ele que abrirei caminho entre eu e tu, aqui”. O corpo em sua sexualidade, sem pecado, sem juízo, acaba sendo o verdadeiro senhor e condutor desta que o narrador designa epopéia libidinal. É o ponto nevrálgico da escrita desse sujeito, sua afirmação enquanto ser, se não autônomo, pelo menos desejante e possuidor de uma radical humanidade. A violência que caracteriza o ato erótico sexual permeia todo texto em suas transgressões e gozos. Nisso o personagem se reconhece, ou melhor, encontra a linguagem mais próxima para se saber e se constituir em seus abismos e labirintos.

Sexo e busca de completude através da fusão erótica com o outro, beira o plano do Sagrado, com ele dialoga e, muitas vezes, confunde-se. “A mão nos botões não é um gesto menos nobre do que o da mão sobre a Bíblia. Ambas tocam num fetiche, seja o botão, seja a Bíblia, para dar início aos trabalhos de realimentar nossa fome infinita.” A realimentação desta fome infinita pode se dar pelo ato erótico, pela espiritualidade do Sagrado ou pela criação artística. Mais que simples gestos, as mão que tocam o fetiche se manifestam em cerimônia, seja sobre a Bíblia, sobre o corpo amante, ou sobre a palavra e a linguagem. A cerimônia propicia a mediação entre dois mundos diferentes e, muitas vezes, antagônicos.

Neste sentido, Arnold Van Gennep, em Os ritos de passagem, avalia que “entre o mundo profano e o mundo sagrado há incompatibilidade, a tal ponto que a passagem de um ao outro não pode ser feita sem um estágio intermediário”. Acredita ainda que: “qualquer pessoa que passe de um para outro acha-se assim, material e mágico-religiosamente, durante um tempo mais ou menos longo em uma situação especial, uma vez que flutua entre dois mundos”. O protagonista do romance vive nessa situação especial, situa-se no limiar, no entre-lugar da travessia. “Me sentia em transição. Não era mais homem sem me encarnar no papel de mulher. Eu flutuava, sem o peso das determinações.” Esse estado transitório para o personagem é quase que permanente. Vivencia através da narrativa diversos ritos, as estações da vida: infância, adolescência, mocidade, maturidade. Atravessa a linha tênue entre a vida e a morte, além da transmutação sexual da condição masculina para a feminina.

O espaço vazio de uma casa no meio do nada dramatiza esta flutuação: “Era triste ficar dentro de casa. Não havia praticamente nada dentro… Acudiu-me a idéia de que essa privação serviria de merecimento para a minha alforria da condição feminina, ou mesmo da masculina. Não haveria uma terceira condição?” O homoerotismo vivenciado pelo personagem em suas experimentações do feminino e masculino, em errâncias e buscas, não é apenas uma abordagem temática, trata-se de uma condição de sujeito, em sua humanidade, demasiada humana, que ganha cidadania e legitimidade a partir da expressão poética.

As situações-limite vividas por esse sujeito contemporâneo problematizam a incompatibilidade de diferentes mundos entre os quais precisamos transitar, sem descanso. Sexo, amor, arte são instrumentos que mobilizam a ocupação de um tempo que escoa por entre os dedos, numa compulsão que só com a morte pode ter sossego. “Mais inveja senti do engenheiro: ao contrário de mim, ele não precisaria mais planejar a sua ocupação do tempo, liberto enfim de todos os impasses.”

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