Dom Casmurro

abril 2014 / Dom Casmurro / W. G. SEBALD

Texto publicado na edição #168

W. G. SEBALD

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert Vertigem, Os emigrantes, Os anéis de Saturno, Austerlitz: apenas quatro romances, lançados em onze […]

> Por W. G. SEBALD

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

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Vertigem, Os emigrantes, Os anéis de Saturno, Austerlitz: apenas quatro romances, lançados em onze anos, entre 1990 e 2001, foram suficientes para fazer do alemão W. G. Sebald um dos maiores nomes da literatura europeia do fim do século 20. E então, no auge de sua produtividade, aos cinquenta e sete anos, no dia 21 de dezembro de 2001, enquanto dirigia seu carro, um aneurisma o matou. E, como ocorre com muitos romancistas, Sebald era também um grande poeta (para ser exato, foi com um livro de poemas, Nach der Natur, de 1988, que ele estreou). O Sebald poeta, no entanto, ao contrário do romancista, é um quase desconhecido no Brasil.

Pouco antes de morrer, Sebald publicou For years now, livro com 23 poemas escritos originalmente em inglês e concebido em parceria com a artista plástica Tess Jaray. E estava trabalhando num outro com 33 poemas, também em parceria com um artista plástico, neste caso seu amigo de infância Jan Peter Tripp. Este, em alemão, chamado Unerzählt, seria publicado postumamente em 2003. São duas edições belíssimas, ambas com poemas muito curtos, nas quais as imagens têm vida e peso próprios. Em 2008, surgiria um terceiro volume de poesias, chamado Über das Land und das Wasser, uma compilação de trabalhos escritos ao longo de toda a vida de Sebald, organizada por Sven Meyer. Estão ali 88 poemas, incluindo dois livros anteriormente preparados, mas não publicados (Schullatein, de 1975 e outro, de 1981, do qual a coletânea empresta o nome), além de composições avulsas, algumas previamente publicadas ao longo dos anos em jornais e revistas, outras totalmente inéditas.

Nos poemas de Sebald estão presentes todas as obsessões que marcam o conjunto de sua obra: a escrita é densa, por vezes hiperbólica; há a busca por recuperar a memória perdida dos anos da Guerra; há o esforço de encarar a culpa alemã pelo Holocausto; há a mania por fotografias, arquivos, lendas, mitos, mapas, fronteiras, viagens; e, finalmente, há o gosto por narradores e personagens vivendo naquele estado de quase suspensão típico dos exilados, aqueles que não pertencem mais ao lugar de origem, mas tampouco se sentem integrados ao mundo onde vivem. Se fosse para definir Sebald em poucas palavras, eu diria que ele, genial e antropofagicamente, tanto na prosa quanto na poesia, digeriu e misturou a erudição labiríntica de Borges, a densidade sufocante dos narradores de Thomas Bernhard, a engenhosidade estrutural de Nabokov e, ainda, a compulsão por caminhadas de Robert Walser. Mesmo quando parecem simples, os versos de Sebald, repletos de referências, são pródigos em armadilhas para os leitores (e tradutores!).

Para esta breve amostra, pincei poemas (entre antigos e recentes) destas três publicações tardias, deixando de lado apenas o livro de estreia Nach der Natur, com seu poema único em três partes, por demais extenso para este espaço. 

LEGACY
Our memories are quite similar
but picked alive
in a position which 

accompanies objects too
as a part of this emptiness

The heartening message
that Pythagoras once
would listen to the stars
barely comes down to us now

Then let us hope
our children are learning
to dance in dark

LEGADO
Nossas lembranças são bem similares
embora capturadas vivas
numa posição na qual

acompanham também objetos
como parte deste vazio

A comovente mensagem
que Pitágoras teria ouvido
certa vez, das estrelas
mal desceu até nós

Então tenhamos fé
nossas crianças estão aprendendo
a dançar na treva


MICROPOEMAS
 


In der Dunkelheit
Über der Mündung
der Somme die Pleiaden
leuchtend
wie nirgendwo sonst

Na escuridão
Acima da foz
do Somme, as Plêiades
brilhando
como em nenhum outro lugar


Der Fruchtkorb
den die Frau
in ihrer samtenen
Armbeuge trägt
das schöne Obst
laub die Äpfel
& darüber alles
schwarz schawrz
schwarz

A cesta de frutas
que a mulher carrega
na dobra de veludo de seu braço
a adorável fruta
deixa as maçãs
& acima delas tudo
negro negro
negro


Um elf Uhr
versammelten sich
die Hakenkreuzler
auf der Theresienwiese
& begannen unter
dem Kommando
eines Offiziers
mit dem Exerzieren

Às onze da manhã
os homens com as suásticas
se encontraram
na Theresienwiese
& sob o comando
de um oficial
começaram
seus exercícios


The smell
of my writing paper
puts me in mind
of the woodshavings
in my grandfather’s
coffin.

O cheiro
do meu papel pautado
traz à minha mente
as serragens
no caixão de meu
avô.


Please
send me
the brown coat
the one I used
to wear on
my night journeys.

Por favor
mande pra mim
o casaco marrom
aquele que eu costumava
usar em minhas
caminhadas noturnas.


SOMETHING IN MY EAR
Falling asleep
on the sofa
I hear from a distance
geese on the radio
whetting their beaks
to pass the verdict 

The mildew grows
in the garden paralysis
spreads
a long succession
of minute shocks
I feel the blood
at the roots
of my teeth

As I awake
sudden cardiac
death waves
from the other side
of the abyss

ALGO EM MEUS OUVIDOS
Caindo no sono
no sofá
eu ouço, à distância
gansos, no rádio
afiando seus bicos
para passar o veredicto

O mofo cresce
no jardim a paralisia
se espalha
numa longa sucessão
de choques rápidos
eu sinto o sangue
nas raízes
dos meus dentes

Conforme eu acordo
súbitas mortes cardíacas
se espalham desde o outro lado
do abismo


NINETY YEARS LATER
Ninety years later
on a Sunday after-
noon in the month
of November I drove
south from Freiburg
across the foothills
of the Black Forest. 

All the way down
to the Belfort Gap
low motionless clouds
above a landscape
deep in shadow,
the hatched patterning

of vineyards on the slopes.
Badenweiler looks
depopulated after
some virulent summer
epidemic. Silent
haemorrhaging in every

house, I guess, and
now not a living
soul about, even
the parking lot
near the facilities empty.
Only in the arboretum 

under giant
sequoias do I meet
a solitary lady
smelling of patchouli
and carrying a white
Pomeranian in her arms.

At the evening
draws in the sun
sinks in the West
between the clouds
and the skyline of
the Vosge hills

the last of the
fading light flooding
the Rhine plain
which shimmers and quivers
like the salty shore
of a dried out lake.

NOVENTA ANOS DEPOIS
Noventa anos depois
numa tarde de domin-
go no mês de novembro
eu dirigi para o sul
saindo de Friburgo
através das montanhas
da Floresta Negra.

Por todo o caminho
até o Passo de Belfort
nuvens baixas, paradas
sobre a paisagem
mergulhadas em sombra,
texturas que surgiam

de vinhedos nas encostas.
Badenweiler parece
despovoada após
alguma virulenta epidemia
de verão. Um silêncio
hemorrágico em cada

casa, penso eu, e
agora não há
por aí, vivalma
até mesmo o estacionamento
perto das instalações está vazio.
Somente no viveiro de plantas

sob gigantescas
sequoias eu encontro
uma solitária senhora
com odor de patchuli
e levando em seus braços
um lulu-da-pomerânia.

Conforme à tarde
se desenha no sol
mergulhando no oeste
entre as nuvens
na silhueta das
colinas de Vosge

as derradeiras luzes
empalidecendo e inundando
a planície do Reno
a qual se reflete tremeluzente
tal qual as margens salgadas
de um lago que secou.


OCTOBER HEAT WAVE
From the flyover
that leads down
to the Holland
Tunnel I saw
the red disc
of the sun
rising over the
promised city. 

By the early
afternoon the
thermometer
reached eighty-
five & a steel
blue haze
hung about the
shimmering towers

whilst at the White
House Conference
on Climate the
President listened
to experts talking
about converting
green algae into
clean fuel & I lay

in my darkened
hotel room near
Gramercy Park
dreaming through
the roar of Manhattan
of a great river
rushing into
a cataract.

In the evening
at a reception
I stood by an open
French window
& pitied the
crippled tree
that grew in a
tub in the yard.

Practically defo-
liated it was
of an uncertain
species, its trunk
& its branches
wound round with
strings of tiny
electric bulbs.

A young woman
came up to me
& said that al-
tough on vacation
she had spent
all day at
the office
which unlike

her apartment was
air-conditioned &
as cold as the
morgue. There,
she said, I am
happy like an
opened up oyster
on a bed of ice.

ONDA DE CALOR EM OUTUBRO
Desde a passarela
que leva para baixo
para o Túnel
Holland eu vi
o disco vermelho
do sol
crescendo sobre
a cidade prometida.

Ali pelo começo
da tarde o termômetro
atingiu oitenta e
cinco & uma névoa
azul e metálica
se dependurou nas
torres cintilantes

enquanto isso na Conferência
sobre o Clima na
Casa Branca o
Presidente ouviu
especialistas falando
sobre converter
algas verdes em
energia limpa e eu me deitei

em meu escurecido
quarto de hotel perto
do Parque Gramercy
sonhando através
do rugido de Manhattan
como um grande rio
correndo para
uma catarata.

Naquela noite
numa recepção
eu fiquei junto a uma
porta-balcão aberta
& tive pena da
árvore estropiada
que cresceu numa
banheira nos fundos.

Praticamente des-
folhada ela era
de espécie incerta, seu tronco
& seus galhos
enrolados com
fios de minúsculas
lâmpadas elétricas.

Uma garota veio
até onde eu estava
& disse que ape-
sar de estar de férias
ela tinha passado
o dia inteiro
no escritório
o qual, ao contrário

de seu apartamento tinha
ar-condicionado &
era tão frio quanto um
necrotério. Lá,
ela disse, eu sou
feliz como uma
ostra aberta numa
cama de gelo.

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