Ensaios e Resenhas

abril 2019 / Ensaios e Resenhas / Vozes de Portugal

Texto publicado na edição #228

Vozes de Portugal

O romance "Uma outra voz", de Gabriela Ruivo Trindade, alterna vozes em períodos históricos diversos de Portugal

> Por GABRIELA SILVA

Gabriela Ruivo Trindade, autora de Uma outra voz

Gabriela Ruivo Trindade, autora de Uma outra voz

O início do século 20 em Portugal foi um período de grandes transformações políticas. O desejo de uma república e a derrubada da monarquia eram pensados e idealizados por grupos revolucionários. Entendia-se que Portugal cresceria com uma nova forma de governo arejada e menos arbitrária. Em 1906 acontecem eleições e João Franco é eleito. No entanto, a sugestão para que o rei desfizesse o parlamento e instaurasse uma ditadura gerou dissabores na população. O regicídio do rei D. Carlos em 1908 abriria o precedente para uma nova forma de governar. A Jovem República inicia em 1910.

Os anos que se seguiram foi de extrema confusão política e corrupção. Havia a Primeira Guerra Mundial e a questão do envolvimento de Portugal à custa das colônias africanas. O ponto culminante do período foi o ano de 1926, em que António de Oliveira Salazar foi chamado para a pasta das finanças. O professor de matemática de Coimbra tomou o poder de forma tentacular e em 1933 decretou o Estado Novo — tempo de censura, de guerras coloniais, de atraso industrial e político, somente terminaria em 1974, com o Movimento das Forças Armadas e a Revolução dos Cravos, início da retomada da democracia. Portugal ainda levaria alguns muitos anos para conseguir se estabilizar.

O romance Uma outra voz, de Gabriela Ruivo Trindade, tem como cenário o Portugal deste tempo. Da monarquia à liberdade política da década de 70 do século 20, registrando momentos importantes que são vividos pelas personagens. O romance rendeu o Prêmio Leya de 2013 e foi distinguido com o Prêmio Pen Clube para primeira obra, em 2015.

O livro resulta não apenas da capacidade criadora de Gabriela, que já trazia na bagagem publicações e prêmios, mas um cuidadoso trabalho de pesquisa. Ao basear-se numa figura da própria família, João Francisco Carreço Simões, a autora constrói uma obra que alterna vozes em períodos históricos diversos. Supostamente a partir de um diário de João, encontrado entre papéis velhos e documentos, na sua casa em Estremoz, Gabriela reconstitui as gerações da família, as relações com a comunidade, o crescimento da cidade e os afetos e amores que vão se configurando ao longo da narrativa. Segundo palavras da autora em um dos epílogos, recuperar a história no diário era como restaurar um quadro, dando-lhe as devidas cores e permitindo que a imagem seja percebida em toda a sua beleza.

As vozes que constituem o texto se espalham pelos capítulos. Narrados em primeira pessoa, nos dão a impressão de um relato, de uma presença na história que ultrapassa a ficção. São memórias de indivíduos particulares, em suas existências em intersecção com a história de Portugal. A figura central, do Ti Mariano, João José Mariano Serrão (inspirado em João Francisco Carreço Simões), um homem solitário, mas constituído de extrema humanidade e caráter é o elemento que liga todas as narrativas e mostra-se como o fio condutor em Uma outra voz.

São ao todo seis vozes que formam a narrativa: José Eduardo, que se tornaria médico e partiria para a guerra na África; Lídia, irmã de José Eduardo; Álvaro, o primo que está em Lisboa na época da Revolução dos Cravos e é ferido na manifestação antifascismo de 1978; Filomena, mãe de José Eduardo; Lídia, que conta sua história e dos filhos; e, por fim, Ana Rumina, prostituta que se torna dona do maior prostíbulo de Estremoz e era amante de Mariano.

Pedaços da história
Cada voz constrói sua narrativa com elementos que se tornariam pedaços da história de Portugal: José Eduardo, um adolescente envolvido com leitura de livros de medicina, que eram lidos escondidos devido às imagens dos corpos nus de homens e mulheres, acaba por ir para Angola lutar na guerra colonial. Lídia casa-se com o primo Luís, primeiro amor e que é morto de maneira misteriosa. Álvaro é a figura que representa José Jorge, atingido por uma bala nas costas, pela polícia, na manifestação de 1978. Filomena conta sua partida da aldeia da Casa Branca e a chegada em Estremoz, levada pelo ti Mariano. Na sua história, desanuvia-se o mistério da paternidade dos filhos: o caso com o padre e a descoberta da sua inconstância amorosa. Por fim, Ana Rumina, a prostituta que conhecera Mariano ainda menino e construíra um amor repleto de cumplicidade, principalmente política. Pela voz de “Donana” conhecemos o motivo da solidão de Mariano, seu envolvimento político, sua partida para África e a contribuição efetiva para o crescimento do vilarejo.

Às vozes dessas personagens reúnem-se trechos do diário de Mariano, encontrado por Maria da Luz, filha de Lídia, e cartas e demais textos. O diário, para além da narrativa do amor com Ana Rumina, também mostra o período vivido na África — a paisagem, a política e a sociedade dos africanos e dos portugueses colonialistas.

A personagem de Ti Mariano representa toda a potência de João Francisco Carreço Simões, um homem que foi além de seu tempo, revolucionário ao lutar pela república, envolvendo-se com revoltas e arranjos secretos para um novo momento político. Gabriela Ruivo Trindade coloca, nesses momentos, figuras históricas que perpassam as páginas do romance. O revolucionário Ti Mariano também seria o responsável pela chegada da luz elétrica em Estremoz, pela abertura de cafés e melhorias no comércio e na sociedade local.

O romance, ao entrelaçar a história pública e a particular dessas personagens, mostra como, de fato, a política afeta toda e qualquer existência — ao recordar principalmente na voz de Álvaro, que vive o 25 de abril de 1974 de maneira intensa, testemunhando o autoritarismo e as perseguições. Vive tudo intensamente e ao mesmo tempo não vive nada, apenas seguindo o amor pela melhor amiga, uma revolucionária que o levaria à rua no atentado de 1978.

O texto de Uma outra voz é repleto de muitas outras vozes e personagens, um amálgama de existências que edifica a história que nos chega através de relatos diversos. Ao ler a obra de Gabriela Ruivo Trindade, algumas narrativas são evocadas pelo leitor: a Tetralogia lusitana, de Almeida Faria, em que as personagens vivenciam a ditadura, a revolução e múltiplas vozes contam a história, entrelaçada com as suas próprias vidas, e Mistérios de Lisboa, de Camilo Castelo Branco, narrativa que nos mostra que a vida é construída por segredos, amores secretos, nascimentos e mortes.

A nova literatura portuguesa é constituída por diferentes modos de se relacionar com a história de Portugal. Há obras que se afastam completamente do percurso histórico português, outras embrenham-se na história, reavivam personagens e épocas, dando-lhes novas cores e procurando reconstituir figuras e experiências. Ao lermos Uma outra voz e os textos que compõem já o final do romance, percebemos que a grande voz, a que nos guia pela narrativa, é a de Gabriela Ruivo Trindade. É um romance para que se possa conhecer a literatura produzida já neste século 21 e suas matizes, a história e seus diferentes desdobramentos e as narrativas particulares, daqueles que viveram sua época e o mundo que lhes era possível.

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Uma outra voz
Gabriela Ruivo Trindade
Leya
336 págs.

A AUTORA
Gabriela Ruivo Trindade
Nasceu em Lisboa, Portugal, em 1970. É formada em psicologia e vive em Londres desde 2004. É autora de Uma mulher de palavra, A vaca leitora e Uma outra voz.

 

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