Ensaios e Resenhas

abril 2013 / Ensaios e Resenhas / Vozes da rua

Texto publicado na edição #157

Vozes da rua

Crônicas de António Lobo Antunes ecoam projeto literário do escritor português e a fricção entre realidade e ficção

> Por VILMA COSTA

O escritor português António Lobo Antunes, autor de "As coisas da vida"

O escritor português António Lobo Antunes, autor de “As coisas da vida”

As coisas da vida, de António Lobo Antunes, são textos curtos que trazem discussões aparentemente despretensiosas, mas de grande relevância. Em Receita para me lerem, o narrador-escritor adverte: “Aquilo a que por comodidade chamei de romances, como poderia ter chamado poemas, visões, o que quiser, apenas se entenderão se tomarem por outra coisa”. O mesmo podemos supor com relação a essas crônicas, que também podem ser compreendidas como poemas, contos, visões — o que quisermos. O que elas guardam das “velhas crônicas” é a origem de suporte jornalístico, onde foram publicadas pela primeira vez. Esse caráter talvez imponha uma relação diferenciada entre leitores e narradores.

Entretanto, Jorge de Sá, em seus estudos sobre o gênero, observa que “quando a crônica passa do jornal para o livro, amplia-se a magicidade do texto, permitindo ao leitor dialogar com o cronista de forma bem mais intensa, ambos agora cúmplices no solitário gesto de reinventar o mundo pelas vias da literatura”. Neste sentido, a mudança de contexto exige do leitor uma postura crítica mais apurada e possibilita a releitura, que na maioria das vezes a efemeridade do jornal não permite. A crônica jornalística, lançada ao lixo com as notícias do dia anterior, sofre o envelhecimento mais rápido que a selecionada e fixada em livro. Esta, entretanto, traz consigo as possíveis fragilidade, redundância e, às vezes, monotonia da escrita mais rápida, datada, com prazo de entrega e limites de laudas. A questão não é tão simples. Não se trata apenas de transposição mecânica de um suporte a outro. Isto nos leva a concordar com Cristovão Tezza, quando em entrevista à Folha de S. Paulo afirma que “sustentar portanto uma coleção de crônicas que fique de pé é tarefa de mestre”. E foi essa tarefa de mestre que Lobo Antunes assumiu em As coisas da vida.

Espelho de múltiplos reflexos
Na leitura rápida do jornal, alguns aspectos importantes podem passar despercebidos. Especulações sobre a vida do autor podem ser traçadas a partir da obra, mas deixemos isso por conta dos historiadores, biógrafos ou mexeriqueiros de plantão. O caráter autobiográfico, legitimado pela assinatura do escritor, muitas vezes minimiza a força da criação artística, que deve em primeiro plano nos interessar.

O livro é organizado por eixos temáticos predominantes, em sete grupos de textos: Descrição da infância, Retrato do artista, As coisas da vida, Spitfire dos Olivais, O entendimento humano, Esta maneira de chorar, Antes que anoiteça. Todos narrados em primeira pessoa, focalizam pontos de vista diversos. Há uma exímia atenção com o desenvolvimento dos narradores e seus pontos de vistas.

O primeiro bloco apresenta um olhar infantil do homem já adulto sobre a infância. Essa abordagem não é fixa ou linear, o foco ora está no menino, ora no adulto, presente e passado surgem sem hierarquização de valores e importância. Em um conflito de interesses entre o menino apaixonado pelas revistas infantis e os “decrépitos de quinze anos que só pensavam em revistas de criaturas nuas”, o narrador abre um parênteses para indagar a um hipotético interlocutor: “(que interesse pode ter uma revista de criaturas nuas comparadas com o Tio Patinhas?)”.

Narradores-personagens falam de si, expressam uma subjetividade lírica apaixonada e obsessiva; outras vezes descarregam humor e sarcasmo. Amor e desamor, guerra e paz, nostalgia e excitação, afetos e desafetos, passado e presente, infância e velhice, entusiasmo e apatia, encontro e separação, vida e morte não são apenas signos de um sujeito em sua humanidade mais superficial. Mas aspectos comuns a todos os nós que vivemos em busca de uma unicidade identitária impossível, no espelho estilhaçado da sociedade contemporânea.

O espelho é uma imagem que surge para falar dessa subjetividade descentrada e múltipla de narradores, personagens e leitores reais ou imaginários. “O livro ideal seria aquele em que todas as páginas fossem espelhos: refletem-me a mim e ao leitor, até um de nós saber qual dos dois somos”.

Furor e desordem
As crônicas organizadas neste livro apontam, antes de mais nada, para uma continuidade do projeto literário de António Lobo Antunes. Basta considerar as diferenças inerentes a contos, crônicas e romances — que, independentemente da nossa vontade, moldam nossas expectativas — para não exigir mais do que cada tipo de texto se propõe a oferecer, dados os seus limites concretos.

As dificuldades, ou surpresas, que possam surgir nos caminhos da leitura vêm “de não existir narrativa no sentido comum do termo, mas apenas largos círculos concêntricos que se estreitam e aparentemente nos sufocam”. Esses largos círculos incorporam afetividades líricas, junto a construções de imagens que remetem a sonhos, ilusões, lembranças e esquecimentos que se misturam à realidade experimentada em tempos diversos e não estruturados linearmente. Presente e passado, feminino e masculino, infância, adolescência e velhice, ternura e repulsa invadem a cena narrada ou expressa através da linguagem poética por vozes que se manifestam em muitas direções, em um diálogo nem sempre coerente, mas carregado de possibilidades. Cada texto é composto pelas múltiplas vozes dessas criaturas que ditam suas angústias e a suas alegrias, incluindo autor implícito e leitores possíveis.

Em Deus como apreciador de jazz, numa tomada ao mesmo tempo intertextual e metaficcional, o narrador reporta-se “àquela frase da Arte poética de Horácio que resume o que deve ser qualquer livro, ou pintura ou sinfonia ou o que seja: uma bela desordem precedida do furor poético”. Este furor poético, que precede a bela desordem desse livro, pode ser usufruído desde os títulos de cada texto, alinhados no sumário das primeiras páginas, até a abordagem dada às relações afetivas mais caras.

Espero por ti cá embaixo enquanto a paciência azul das ondas escreve o teu nome com gestos de alga na praia…, espero por ti filha,… e caminho a teu encontro, a medo, de joelhos aflitos por te explicar as girafas do Jardim Zoológicos, indiferentes ao estrondo dos altifalantes, tão ruidosos como o silêncio do meu amor por ti.

Ilusão e realidade
Em Quem me assassinou para que eu seja tão doce?, diante da lembrança amada da menina morta do passado, o narrador constata: “Não pretendo senão o impossível: um menino que me acena, um barco que chega, martelar com a mão esquerda, saber dançar tango, distinguir-te ao longe, no aeroporto, à minha espera”.

Em As coisas da vida, bem como em outros textos, as relações amorosas, suas frustrações e dores misturam narrativa, poema em prosa e um tom epistolar, na medida em que a interlocução não se dá, propriamente, com o leitor, mas sim com a amada: “ (…) não te preocupes comigo: isto passa. Passa a vontade de morrer, passa o desejo de escrever Teresa no pó dos móveis”.

Renato Cordeiro Gomes utiliza-se de termos de Marques Rabelo para traçar um perfil do cronista moderno que nos pode ser útil para pensar a produção contemporânea. Acredita ele que “o cronista estabelece então um ‘comércio entre ilusão e realidade’ para conjugar, em sua prática escritural, ‘os acontecimentos vivos da rua’ e os ‘acontecimentos da misteriosa máquina humana’”.

Ilusão e realidade negociam, portanto, espaço na produção artística e se misturam de maneira indissolúvel. Acontecimentos vivos da rua ou fragmentos resgatados da memória do vivido ganham dimensão simbólica para expressar poeticamente os acontecimentos da misteriosa máquina humana que constroem os narradores e personagens desses escritos. A nós, leitores, nada melhor do que o prazer de participar dessa aventura… Afinal, “é bom pensar em sereias enquanto a tulipa de vidro desce sobre nós uma claridadezita mansa”. Ler bons livros às vezes nos deixa como “de olhos fechados a abraçar sereias”, a entregar-nos à sedução perigosa de suas vozes.

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António Lobo Antunes

Nasceu em 1942, em Lisboa. Formado em medicina, com especialização em psiquiatria, serviu como médico exército português em Angola nos anos últimos anos da guerra naquele país, entre 1970 e 1973. Autor de uma obra extensa (Memória de elefante, Os cus de Judas, O meu nome é Legião, entre outros), Lobo Antunes recebeu diversos prêmios literários, como o Camões e o Juan Rulfo.

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António Lobo Antunes
Alfaguara
232 págs.