Ensaios e Resenhas

fevereiro 2018 / Ensaios e Resenhas / Voo sobre todos nós

Texto publicado na edição #214

Voo sobre todos nós

Em "Flor de Algodão", Santana Filho constrói tramas e desenvolve coerentemente o caráter humano

> Por Jorge Ialanji Filholini

Santana Filho, autor de Flor de Algodão.

Santana Filho, autor de Flor de Algodão.

Flor de Algodão, de Santana Filho, começa de cima. O romance se inicia do céu. O macro olhar de quem vem de fora, principalmente o leitor, desconhecido dos íntimos convívios da cidade criada pelo autor. O protagonista chega no enredo sobrevoando o município com um teco-teco. O que nos faz perceber a visão distante da situação, isento e que pode transformar o cotidiano de Flor de Algodão. E é exatamente o que acontece. Sem ansiedade e construindo serenamente a observação de seu personagem, o autor descreve a população e o ambiente de forma vagarosa, algo tão admirável na literatura. Interessante utilização de Santana para incluir o leitor em sua narração. Não espere um romance com escrita concisa, nada escapa do olhar e relato do personagem nomeado como engenheiro. Este que chega, ou cai, na cidade para retomar a construção de uma represa parada há anos.

Com a chegada do engenheiro, a desconfiança dos moradores é enorme, por isso é destacável a narrativa detalhada de Santana. Ele apresenta as pessoas com cautela. Devemos, como leitores, nos relacionar sem afobação, entrando na trama e acompanhando cada descrição que o protagonista nos aborda:

As pessoas me olhavam curiosas, formando uma ciranda em torno de nós. Eu não conhecia ninguém, estava ali pela primeira vez. Ri um riso possível, procurando com a mão livre do cumprimento, secar o suor no lenço, mistura de susto e calor empapando o meu rosto.

Susto e curiosidade são bem explorados pelo autor. Caminhamos não apenas nas descrições, mas na interpretação em relação à cidade e habitantes. Salienta-se na obra os nomes das personagens, todas, com exceção do protagonista, são denominadas por flores: Cravo do Lírio D’Água, Rosa Morena, Azaleia, Tulipa e Hortência. Pertinente metáfora que permeará a narrativa do livro. Nota-se que a represa paralisada faz com que haja seca na cidade. Flores sem água acabam murchando e morrendo. Perdem as funções naturais. Esta aridez evidencia, durante a leitura, o intenso convívio com a população. Deparamos com as mais angustiantes atitudes humanas: intrigas, amores, descontentamentos, desconfianças, arrependimentos etc.

Esta criação de mundo por Santana, bem como a aplicação de metáforas, denota em romances portugueses da pós-modernidade. Encaixa-se neste período os livros de Vergílio Ferreira, como Manhã submersa, pois há muitos relatos do narrador de Flor de Algodão sobre as atividades do monastério; José Saramago, em sua fase depois do Nobel, verifica-se a utilização de metáforas na construção das personagens e ambientes fictícios; Augusto Abelaira, em Bolor, com um estilo próprio e indefinição da narração do protagonista, trabalhando muitas vezes com as alternâncias de tempos verbais. Estes romances portugueses apontam as narrativas insólitas para legitimarem as referências por meio das críticas das realidades éticas, assim como as decadências das sociedades modernas. Em Traços pós-modernos na ficção portuguesa actual, Isabel Pires de Lima comenta sobre os textos literários do período apontado:

O ocaso da modernidade traz consigo, portanto, uma relativização da história, o seu descentramento de um sujeito unitário e racional, o sujeito epistemológico ocidental, situado num eixo como único lugar possível para interpretar ou dar sentido à história de forma objectiva […] O sujeito racional perde a sua segurança epistemológica e assiste à erosão do princípio da realidade: a realidade deixa de ser uma só, ou deixa mesmo de ser — como para Derrida —, torna-se plural, caótica, oscila, abre-se a um mundo de possíveis.

Desta forma, Santana Filho abre um universo de modo a refletir sobre o corpo social. Extrai tramas e desenvolve coerentemente o caráter humano, assim como as estruturas do município de Flor de Algodão. O plural dos relatos e descrições de mundos são possíveis em nosso cotidiano (sujeito racional), porém abordado mediante os desafios da ficção (mundo de possíveis). O romance de Santana mostra, por meio do insólito e de uma narrativa consistente, as variadas formas da personalidade da sociedade contemporânea, que muito bem se equipara aos autores portugueses mencionados.

Engenheiro, flores e segredos
O insólito de Flor de Algodão produz a liberdade de potencializar a obra literária de Santana. Há singularidade na raiz da trama, que muito bem é semeada pelo desenvolvimento das personagens. No decorrer da leitura, o engenheiro fornece um excelente papel de observador. O estrangeiro que minuciosamente constrói o alicerce do município de acordo com o seu relato, servindo de informação para o leitor. Não à toa, o personagem leva o nome de engenheiro, que pode, afinal, construir pilares, cidades, mundos. “Flor de Algodão, humana de pele e tijolo, não desconhece o poder das divindades, todavia alimenta os rebentos com o mais vermelho sangue selvagem.” Acompanhamos apenas a sua visão, consciência e opinião. Ou seja, somos colocados a acreditar em seu relato.

Mas se engana quem pensa que a problemática do romance é desenvolvida apenas dentro de Flor de Algodão. Em paralelo com a situação da cidade, o engenheiro traz um segredo que o atormenta, mistério este bem trabalhado por Santana, em aspecto de comparação a ótimos autores como Lygia Fagundes Telles e o já citado Vergílio Ferreira. Este vaivém da memória do protagonista descreve a característica do narrador-personagem. Desloca-se do ambiente terreno da narrativa e entramos no interior dos anseios subjetivos do engenheiro. Temos mais convívios sobre quem está nos narrando o enredo. Os defeitos e gravidade pessoais do protagonista. Em informações memoriais, o autor usa de tom poético para retratar o passado do engenheiro e seu misterioso segredo:

Samantha foi uma bolha de sabão levada pelo vento, desapareceu. Nunca mais a veria, Samantha não cintila mais, não está aqui, desintegrou, se liquefez, a sina inevitável dessas frágeis moléculas associadas para produzir beleza, e tão efêmera.

Santana desconcerta o engenheiro. Corrói o seu caráter e instabiliza os pensamentos do personagem. O presente age conforme as atitudes do passado. O personagem não quer transpor o seu segredo aos habitantes de Flor de Algodão, mas nós leitores sabemos e podemos desenvolver posições em relação ao que é narrado por ele. O peso de um segredo que fragiliza o protagonista, aspecto este apurado com delicadeza pelo autor:

O que eu não sabia, o que nós não sabíamos, nossa família devastada pela sua morte, era que Samantha, embora a mais esférica, a mais luminosa de todas, não passava de molécula na frágil estrutura das bolhas de sabão.

Terminamos a leitura de Flor de Algodão com o desejo de saber mais sobre aquela cidade criada por Santana Filho. Com os pés já no chão — no micro olhar — e habitante da cidade, queremos saber mais dos acontecimentos que estão além da última página. Assim como o terremoto em Pergunte ao pó, de John Fante, e no audiovisual com a sequência da chuva de sapos em Magnólia (1999), de Paul Thomas Anderson, há um fato climático que interrompe a rotina das personagens de Santana, porém o deslumbre do desenvolvimento deste acontecimento nutre a sensibilidade de como narrar bem um romance, preservando o enredo e alternando os dramas pessoais de cada membro.

O livro de Santana Filho tem fôlego e jamais cai em pieguices. Com o solo já fertilizado, fica aqui apenas uma sugestão para o autor: será um imenso prazer que Santana retorne uma vez mais a Flor de Algodão para cultivar e proporcionar a nós leitores mais tramas deste incrível universo.

 

 

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Flor de Algodão
Santana Filho
Reformatório
287 págs.

 

O AUTOR
Santana Filho
Nasceu em Balsas, no interior do Maranhão. É autor do romance O rio que corre estrelas (2012), seu livro de estreia, do volume de contos O beijinho e outros crimes delicados (2013), ambos pela Terracota. Pela Reformatório, publicou o romance A casa das marionetes (2015), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2016.

 

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