Ensaios e Resenhas

julho 2015 / Ensaios e Resenhas / Voltar às origens

Texto publicado na edição #182

Voltar às origens

Antologia apresenta a tradição das cantigas da qual posteriormente derivariam todas as literaturas lusófonas

> Por HENRIQUE MARQUES SAMYN

Um conjunto de fatores fez com que Santiago de Compostela, nos séculos 12 e 13, se tornasse uma cidade importante não apenas no âmbito ibérico, mas também no cenário europeu. À transferência para Compostela da diocese que anteriormente tivera Íria Flávia por sede cabe somar o “achado” do sepulcro do apóstolo Tiago, pelo bispo Teodomiro, no esteio de uma tradição que localizava na Hispânia a atividade predicatória de Santiago e no contexto de afirmação política do reino asturo-galaico. Desse modo, viabilizou-se a constituição de uma igreja que viria a se tornar um centro de peregrinação para todo o ocidente cristão, já num primeiro momento apartada de Toledo, que se situava em território muçulmano, e que não seria absorvida pela arquidiocese de Braga, em 1070. Logo a igreja compostelana viria a granjear um extenso patrimônio, expandindo seu território e atraindo vultosas doações — assim acompanhando o crescimento econômico da própria cidade de Santiago de Compostela, que cada vez mais se tornava um importantíssimo centro religioso, político e cultural.

Nessas circunstâncias, seria natural que o florescente trovadorismo encontrasse um ambiente propício na urbe compostelana. Tendo nascido no século 12, na Occitânia — região onde se falava a lenga d’òc, hoje correspondente ao sul da França, partes da Itália e da Espanha, onde se estima que a língua ainda seja conhecida por cerca de 6 milhões de pessoas —, a lírica trovadoresca não tardaria a expandir-se, alcançando todo o ocidente europeu. No que tange à Península Ibérica, não é de se estranhar que os mais antigos trovadores estejam ligados a Santiago de Compostela: diversos deles faziam parte de linhagens poderosas naquele momento, cuja influência se estendia às esferas de poder real e eclesiástico. Outras figuras de relevo no âmbito de emergência do trovadorismo eram clérigos e burgueses ligados à cidade.

O caminho poético de Santiago: lírica galego-portuguesa antologia mais de meia centena de cantigas compostas por trovadores e jograis — que, ao contrário dos primeiros, não tinham origem nobre — ligados, de alguma forma, a Santiago de Compostela. O valor da obra já pode ser atestado pela qualificação dos especialistas que a assinam: Yara Frateschi Vieira, professora titular aposentada de Literatura Portuguesa da Unicamp, autora de inúmeros artigos e livros acerca da lírica galego-portuguesa; a galega Maria Isabel Morán Cabanas, professora titular de Filologias Galega e Portuguesa da Universidade de Santiago de Compostela, que tem realizado estudos em torno da literatura produzida nos períodos medieval, renascentista e barroco; e José António Souto Cabo, também galego e professor titular de Filologias Galega e Portuguesa da Universidade de Santiago de Compostela, cujas investigações vêm abordando as coordenadas sociológicas e espaçotemporais da lírica galego-portuguesa.­

Importa ressaltar que, conquanto se trate de uma obra produzida por acadêmicos com larga experiência nos estudos sobre textos medievais, O caminho poético de Santiago não é um livro que se destine exclusivamente a especialistas. A obra é enriquecida por notas que trazem dados biográficos dos trovadores e jograis presentes na antologia, além de comentários sobre cada uma das cantigas; um mapa de Santiago de Compostela, em que se destacam localidades importantes para a lírica trovadoresca galego-portuguesa; uma lista de topônimos que relaciona todos os nomes de lugares referidos nas cantigas; imagens dos cancioneiros, que permitem ao leitor conhecer como algumas das composições foram preservadas nos códices; e uma extensa e valiosa bibliografia.

Texto original
A opção por não atualizar os textos, conservando-os em sua forma original, é louvável por colocar o leitor em contato com a língua em que foram produzidos, evitando intervenções que frequentemente produzem anacronismos; ademais, quaisquer problemas de compreensão podem ser superados com uma consulta ao glossário incorporado ao volume. O projeto gráfico de Flávia Castanheira e Nathalia Cury faculta uma leitura agradável; a capa, que conta com ilustrações de Rui Vitorino Santos, afasta-se das soluções convencionais, ensejando uma proveitosa aproximação do leitor contemporâneo com o rico e lúdico universo trovadoresco.

A obra divide-se em duas seções. A primeira, intitulada Os trovadores e Santiago de Compostela, traz figuras que, seja por menções nas cantigas, seja pela documentação histórico-biográfica, estão mais diretamente vinculados à urbe. Entre outros focos de interesse, pode-se ali destacar o singular caso das diversas cantigas de romaria que mencionam Santiago de Compostela — algo extraordinário porque, em geral, a obra de cada trovador ou jogral trata exclusivamente de um santuário específico. A Santiago, no entanto, são dedicadas uma cantiga de Airas Carpancho — cavaleiro da pequena nobreza cuja linhagem se ligava a Diogo Gelmires, primeiro arcebispo da Igreja de Santiago —, aliás a mais antiga cantiga de romaria documentada, na qual encontramos uma jovem que decide “fazer romaria” tanto para “fazer oraçon” quanto para ver seu “amigo log’ i”; uma cantiga do clérigo Airas Nunes, que figura uma donzela feliz por ter a oportunidade de ver o amigo que virá à cidade acompanhando o rei, que ela jamais vira — trata-se de D. Sancho IV, que visitou Santiago em 1286 em romaria, cumprindo promessa feita por ocasião da guerra contra os muçulmanos; e uma terceira cantiga, composta por Pai Gomes Charinho, que também pode guardar relação com a referida visita de D. Sancho IV: ali encontramos uma jovem que invoca o santo para que ele traga de volta seu amado, não havendo contudo menção ao motivo da romaria. Também desta primeira parte constam duas das nove instigantes cantigas de amigo compostas por Pero Meogo, nas quais elementos como o cervo e a fonte materializam um singular investimento simbólico; além de composições de Afonso Eanes do Cotom, Fernão Pais de Tamalhancos e Pero da Ponte, entre outros. Já a segunda seção do volume compila cantigas de autores que dialogam com aqueles presentes na primeira parte: os reis-trovadores, D. Afonso X de Leão e Castela e D. Dinis de Portugal; João de Gaia e João Zorro.

O caminho poético de Santiago vem cumprir o importante papel de difundir no Brasil uma produção literária que constitui, de fato, a manifestação poética da qual posteriormente derivariam todas as literaturas lusófonas — e que, apesar de sua importância, mesmo no âmbito acadêmico é conhecida apenas de forma superficial. O rigor com que a obra foi elaborada, demonstrando cabalmente o modo como a produção trovadoresca se relaciona com elementos políticos, sociais e topográficos, certamente permitirá uma melhor compreensão das cantigas de trovadores e jograis que, compondo “en maneira de proençal” ou transformando normas e convenções, sedimentaram os fundamentos de uma tradição da qual somos legatários.

 

AUTORES

Yara Frateschi Vieira
É professora titular, aposentada, da Unicamp. Autora de En cas dona Maior: os trovadores e a corte senhorial galega no século XIII (Santiago de Compostela, 1999) e Henry R. Lang: o cancioneiro de D. Denis e estudos dispersos (com Lênia Márcia Mongelli; Niterói, 2010).

Maria Isabel Morán Cabanas
É professora titular de Filologias Galega e Portuguesa da Universidade de Santiago de Compostela. Autora de Traje, gentileza e poesia: o campo semântico do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (Lisboa, 2001) e É perigoso sintetizar a Idade Média: literatura medieval e interfaces europeias na obra de Mário Martins (com José Eduardo Franco; Lisboa, 2014).

José António Souto Cabo
É professor titular de Filologias Galega e Portuguesa da Universidade de Santiago de Compostela. Autor de Rui Vasques: Crónica de Santa Maria (Santiado de Compostela, 2001) e Os cavaleiros que fizeram as cantigas: aproximação às origens socioculturais da lírica galego-portuguesa (Niterói, 2012).

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Caminho_poetico_Santiago

Yara Frateschi Vieira, Maria Isabel Morán Cabanas e José António Souto Cabo
Cosac Naify
224 págs.