Dom Casmurro

março 2014 / Dom Casmurro / Vladimir Nabokov

Texto publicado na edição #167

Vladimir Nabokov

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert Poucos escritores do século passado foram (e são) mais festejados do que Vladimir Nabokov […]

> Por VLADIMIR NABOKOV

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Vladimir Nabokov por Robson Vilalba

Vladimir Nabokov por Robson Vilalba

Poucos escritores do século passado foram (e são) mais festejados do que Vladimir Nabokov (1899-1977). Presença certa em qualquer lista dos grandes, o autor de Lolita está sempre lá, ao lado de Borges, Joyce, Proust, Beckett… E, posso estar enganado, mas, a julgar pela quantidade de biografias existentes (até sobre Véra, sua mulher, já se escreveu uma), citações e releituras (como o Encantador, da franco-iraniana Lila Zanganeh, que tanto furor causou na Flip de 2013), me parece que, hoje, nenhum outro autor desfruta do status de celebridade equivalente ao do “bruxo russo”. Mas há um lado de Nabokov que é muito menos lembrado do que os do romancista, contista, ensaísta, professor, polemista, tradutor, enxadrista e até mesmo do que o caçador de borboletas: é o poeta. E Nabokov foi poeta, como registrou em Speak, memory, antes de ser qualquer outra coisa.

A primeira vez que senti curiosidade a respeito desse lado de Nabokov foi quando, ainda adolescente, eu li Fogo pálido (o qual acabaria por se tornar não apenas o meu livro favorito de Nabokov, mas um de meus favoritos em geral). Aquele longo poema de abertura, em quatro cantos, de “John Shade”, que dá a chave verdadeira/falsa/verdadeira (arre!) para o livro, me deixou simplesmente sem fôlego. Se Nabokov conseguiu compor aquilo, ainda que em nome de seu personagem, o que será que ele poderia oferecer colocando o próprio nome embaixo? (de passagem, diga-se que o poema de Humbert Humbert dedicado à jovem Lolita Haze também não é ruim).

Curioso, logo em seguida consegui comprar um livrinho de bolso (que ainda tenho), da Penguin, The portable Nabokov, que, ao longo de quinhentas e poucas páginas, trazia uma panorâmica de sua obra, com contos, trechos de romances, textos críticos e exatos dez poemas. Aqueles eram os anos oitenta, eu era estudante, era caro e complicado importar livros no Brasil e, durante muitos anos, aqueles dez poemas foram tudo, da lírica de Nabokov, que eu conheci. Mas eles bastaram para me convencer de que, apesar de menos celebrado do que o romancista, o Nabokov poeta não era, de forma alguma, menor. Os anos se passaram, as coisas ficaram mais fáceis e fui adquirindo outros volumes (com destaque para o excelente Selected poems, edição e introdução de Thomas Karshan, NY, A. Knopf, 2012).

Pode-se dividir a poética de Nabokov em dois grupos: os trabalhos mais antigos, escritos em russo (a maior parte traduzida para o inglês pelo próprio Nabokov ou pelo filho, Dmitri), e os que foram originalmente compostos em inglês. Fora isso, como enquadrar esta obra? Da mesma maneira com o que se dá na prosa de Nabokov, reduções aqui não são fáceis. Há poemas carregados de nostalgia, há aqueles mais cínicos, há os de amor, há inúmeras referências literárias; há, por vezes, ironia, humor e, até mesmo, geladeiras. Lembrando uma definição de poesia de Alfredo Bosi, poderíamos dizer que ocorre aqui uma perfeita fusão de sentimento e imagem num tempo denso, subjetivo e histórico. Mas talvez não exista melhor descrição de seus poemas do que a dada pelo próprio Nabokov, ao comparar xadrez e arte: “Os problemas do xadrez demandam do autor as mesmas virtudes que caracterizam toda a arte de valor: originalidade, inventividade, concisão, harmonia, complexidade e uma esplêndida insinceridade.” 

I HAVE NO NEED, FOR MY NOCTURNAL TRAVELS
I have no need, for my nocturnal travels,
of ships, I have no need of trains.
The moon’s above the checkerboard-like garden.
The window’s open. I am set.

And with habitual silence — like a tomcat,
at night over a fence — across
the border streamlet, passportless, my shadow
leaps to the other, Russian, bank.

Mysterious, invulnerable, weightless,
I glide across successive walls,
and at the moonlight, the dream rushing past him,
the border guard takes aim in vain.

I fly across the meadows, dance through forests —
and who will know that there exists
in this vast country but a single living,
a single happy citizen.

Along the lengthy quay the Neva shimmers.
All’s still. A tardy passerby
my shadow in a lonely square encounters
and curses his own fantasy.

Now I approach an unfamiliar building,
the place alone I recognize…
There, in the darkened rooms, everything’s altered,
and everything upsets my shade.

There, children sleep. Above the pillow’s corner
I stoop, and they begin to dream
about the toys that, long ago, I played with,
about my ships, about my trains.

EU NÃO PRECISO DE NADA, PARA MINHAS VIAGENS NOTURNAS
Eu não preciso, para minhas viagens noturnas,
de navios, eu não preciso de trens.
A lua ilumina o jardim com-jeito-de-tabuleiro.
A janela está aberta. Estou pronto.

E com o silêncio de sempre — como um gato,
à noite, sobre uma cerca — através
do córrego na fronteira, sem passaporte, minha alma
pula para a outra margem, a russa.

Misterioso, leve, invulnerável,
eu deslizo por entre sucessivos muros,
e sob a luz da lua, o sonho passando veloz por ele,
o guarda da fronteira deveria vigiar, mas em vão.

Eu vôo pelos campos, danço através das florestas —
e quem saberá se neste vasto país
existirá um único ser vivo,
um único cidadão, feliz.

Ao longo do comprido cais o Neva rebrilha.
Tudo está quieto. Com um tardio transeunte
numa praça deserta, minha sombra se depara
e com sua própria fantasia o enfeitiça.

Agora me aproximo de uma construção estranha,
o lugar, em si, eu reconheço…
Lá, nos quartos escurecidos, tudo está mudado,
e tudo irrita a minha sombra.

Lá, crianças dormem. Sobre o canto das almofadas
eu me inclino, e elas começam a sonhar
com brinquedos com os quais, há muito tempo, eu brincava,
com meus navios, com meus trens.

 

RAIN
How mobile is the bed on these
nights of gesticulation trees
when the rain clatters fast,
the tin-toy rain with dapper hoof,
trotting upon an endless roof,
traveling into the past.

Upon old roads the steeds of rain
Slip and slow down and speed again
through many a tangled year;
but they can never reach the last
dip at the bottom of the past
because the sun is there.

CHUVA
Como se move a cama nestas
noites de árvores que gesticulam
quando pipoca forte a chuva,
brinquedo de lata, a chuva, com garbosos cascos
trotando por sobre o teto sem fim,
viajando para o passado.

Por sobre velhos caminhos o galope da chuva
escorrega, reduz a marcha, de novo acelera
atravessando muitos, confusos anos;
mas ele não consegue jamais dar o mergulho
no ponto mais profundo do passado
porque o sol está lá.

 

HOTEL ROOM
Not quite a bed, not quite a bench.
Wallpaper: a grim yellow.
A pair of chairs. A squinty looking-glass.
We enter — my shadow and I.

We open with a vibrant sound the window:
the light’s reflection slides down the ground.
The night is breathless. Distant dogs
with varied barks fractures the stillness.

Stirless, I stand there at the window,
and in the black bowl of the sky
gows like a golden drop of honey
the mellow moon.

QUARTO DE HOTEL
Nem bem uma cama, nem bem um banco
Papel de parede: um amarelo feio
Um par de cadeiras. Um espelho estrábico.
Nós entramos. Minha sombra e eu.

Nós abrimos com estardalhaço a janela:
os reflexos da noite se espalham pelo chão.
A noite não respira. Com latidos variados,
cachorros ao longe quebram o ar parado.

Imóvel, eu fico lá, na janela,
e no negro bojo do céu
arde, como uma gota dourada de mel
a tenra lua.

 

LUNAR LINES
Spell “night”. Spell “pebbles”: Pebbles in the Night.
Peep, crated chicks on lonely station! This
Is now the ABC of the abyss,
The Desperanto we must learn to write.

LINHAS DA LUA
Diga “noite”. Diga “seixos”: Seixos na Noite.
Espie, pintos encaixotados numa estação solitária! Isto
É agora o ABC do precipício,
O Desperanto que precisamos aprender a escrever.

 

THE REFRIGERATOR AWAKES
Crash!
And if darkness could sound, it would sound like this giant
waking up in the torture house, trying to die
and not dying, and trying
not to cry and immediately crying
that he will, that he will, that he will do his best
to adjust his dark soul to the pressing request
of the only true frost,
and he pants and he gasps and he rasps and he wheezes:
ice is the solid form when the water freezes;
a volatile liquid (see “Refrigerating”)
is permitted to pass into evaporating
coils, where it boils,
which somehow seems wrong,
and I wonder how long
it will rumble and shudder and crackle and pound;
Scudder, the Alpinist, slipped and was found
half a century preserved in blue ice
with his bride and two guides and a dead edelweiss
a German has proved that the snowflakes we see
are the germ cells of stars and the sea life to be;
hold
the line, hold the line, lest its tale be untold;
let it amble along through the thumping pain
and horror of dichorlodisomethingmethane,
a trembling white heart with the frost froth upon it,
Nova Zembla, poor thing, with that B in her bonnet,
stunned bees in the bonnets of cars hot roads,
Keep it Kold, says a poster in passing, and lo,
loads,
of bright fruit, and a ham, and some chocolate cream
and three bottles of milk, all contained in the gleam
of that wide-open white
god, the pride and delight
of starry-eyed couples in dream kitchenettes,
and it groans and it drones and it toils and it sweats —
Shackelton, pemmican, penguin, Poe’s Pym —
collapsing at last in the criminal
night.

O REFRIGERADOR ACORDA
Crash!
E se a treva tivesse som, o som seria como o deste gigante
acordando na casa de torturas, tentando morrer
e não morrendo, e tentando
não berrar, e logo berrando
que ele iria, que ele iria, que ele iria fazer o seu melhor
para ajustar a sua negra alma à inadiável demanda
do único e verdadeiro congelamento,
e ele arqueja e ele suspira e ele resfolega:
gelo é a forma sólida de quando a água congela;
um líquido volátil (veja “Refrigeração”)
a ela é permitido passar por serpentinas de
evaporação, onde ela ferve,
o que de alguma maneira parece errado,
e eu me pergunto por quanto tempo
ele irá roncar e estremecer e crepitar e martelar;
Scudder, o alpinista, escorregou e foi achado
preservado no gelo por meio século
com sua noiva e dois guias e uma edelweiss morta
um alemão provou que os flocos de neve que nós vemos
são células germinais de estrelas e de vida marinha;
segure
na linha, segure na linha, para que o conto dele não seja contado
deixe que marche direto através da enorme dor
e horror do diclorodiqualquercoisametano,
um coração branco estremecendo com as bolhas do gelo sobre ele,
Nova Zembla, pobrezinha, com aquele B em seu boné,
abelhas atordoadas nos capôs dos carros no calor das estradas
Keep it Kold, anuncia um pôster que passa, e car,
cargas de frutas brilhantes, e um presunto, e algum creme de chocolate
e três garrafas de leite, tudo acomodado dentro do lampejo
daquele branco e muito aberto
deus, o orgulho e deleite
de casais de olhos radiantes em copa-cozinhas de sonho,
e ele geme e ele zumbe e ele labuta e ele transpira —
Schackelton, carne-seca, pinguim, o Pym de Poe —
finalmente desfalecendo na criminosa
noite.

 

SPRING
The engine toward the country flies,
A crowd of tree trunks, shying, nimbly
goes scurrying up the incline:
the smoke, like a white billow, mingles
with birches’ motley Apriline.
Velour banquettes inside the carriage
of summer covers are still free.
A yellow trackside dandelion
is visited by its first bee.

Where once there was a snowdrift, only
an oblong, pitted isle is left
beside a ditch that’s turning verdant;
of springtime smelling, not grown wet,
the snow is overlaid with soot.

The country house is cold and twilit.
The garden, the joy of doves,
contains a cloud-reflecting puddle.
The columns and the aged roof,
also the elbow of the drainpipe —
there’s need of a fresh coat for all,
a pall of green paint; on the wall
the merry shadow of the painter
and the ladder’s shadow fall.

The birches’ tops in their cool azure,
the country house, the summer days,
are but the same recurring image,
yet their perfection grows always.
From exile’s lamentations distanced,
lives on my every reminiscence
in an inverted quietude:
What’s lost forever is immortal;
and this eternity inverted
is the proud soul’s beatitude.

PRIMAVERA
A locomotiva através dos campos voa,
Uma montanha de pedaços de árvores passa fugindo, veloz
indo apressada até o declive:
a fumaça, como vagalhões brancos, se mistura
com abrilíneas bétulas em colchas.
ainda estão livres as coberturas de verão
dos bancos aveludados dentro do vagão.
Um dente-de-leão amarelo, na beira dos trilhos
É visitado por sua primeira abelha.

Onde antes havia um monte de neve, somente
uma ilhota, retangular e perfurada, restou=
ao lado de uma vala que vai verdejando;
de odores primaveris, ainda por crescer,
a neve vai sendo coberta por fuligem.

A casa de campo está sombria e fria.
no jardim, a alegria dos pombos,
há uma poça refletindo as nuvens.
As colunas e o teto envelhecido,
e também os cotovelos das calhas —
é necessária alguma pintura fresca para tudo isso,
uma camada de tinta verde; na parede
a sombra jovial do pintor
e a sombra em queda da escada.

O topo das bétulas em seu frio azul-celeste,
a casa de campo, os dias de verão,
sempre a mesma, e recorrente, imagem,
ainda que sua perfeição cresça, sempre.
Do exílio, os lamentos se distanciam,
vivem em cada reminiscência minha
numa invertida quietude:
aquilo que para sempre de perdeu é imortal;
e essa eternidade invertida
é a beatitude da orgulhosa alma.

 

I LIKE THAT MOUNTAIN
I like that mountain in its black pelisse
of fir forests — because
in the gloom of a strange mountain country
I am closer to home.

How should I not know those dense needles,
and how should I not lose my mind
at the mere sight of what peatbog berry
showing blue along my way?

The higher the dark and damp
trails twist upward, the clearer
grow the tokens, treasured since childhood,
of my northern plain.

Shall we not climb thus
the slopes of paradise, at the hour of death,
meeting all we loved things
that in life elevated us?

EU GOSTO DAQUELA MONTANHA
Eu gosto daquela montanha em sua negra peliça
de florestas de abetos — porque,
na melancolia de uma estranha terra montanhosa,
estou mais perto de casa.

Como deveria eu não conhecer aquele agulheiro de árvores?
e como deveria não perder a cabeça
à mera visão daquele tapete de folhas mortas
exibindo tristeza ao longo de meu caminho?

Quanto mais para o alto, as trilhas retorcidas
de treva e depressão, mais límpidos
crescem os sinais, guardados desde a infância,
de minha planície, ao norte.

Não poderemos, então, na hora da morte
escalando as encostas do paraíso,
encontrar todas as coisas amadas
que, em vida, nos enlevaram?

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