Dom Casmurro

junho 2012 / Dom Casmurro / Viviane de Santana Paulo

Texto publicado na edição #146

Viviane de Santana Paulo

Poemas de Viviane de Santana Paulo

> Por VIVIANE DE SANTANA PAULO

Ilustração: Theo Szczepanski

em Évora

era um muro em algum lugar no vilarejo
o muro adorando falar de fronteiras   mas sob o seu linguajar próprio
daquilo que ele escondia do outro lado dele
dos joelhos raspados e arranhados das crianças
das pedras soltas sem obrigação de impedir nada    dos buracos
por onde com um olho se descobria o terreno baldio inocente
brotando mato livre e flores silvestres    dos passarinhos sem saber
de muro nenhum   dos besouros gordos e de outros insetos invasores
que ovularam ali no interior mole de um pedaço de madeira largada
e umas florzinhas brancas vigorosas e atrevidas   que sobrevoavam
por cima do muro   espiavam algo além e regressavam
ao terreno abraçado pelas pedras brincando de ciranda

 

 

Berlin, U2

dentro do vagão entra um mendigo vendendo o jornal de rua
possui os olhos vermelhos e pesados     murmura algo ininteligível

uma estranha oração?   na próxima estação entram dois ciganos
um tocando acordeão o outro corneta e um menino com o copo
de plástico colhendo metal    alguém não consegue mais falar ao celular
nas janelas transparentes riscadas passam os sladys da cidade
um atrás do outro e os braços longos de aço dos gigantescos guindastes
o mendigo saiu sem ganhar nada   a música barulhenta e desafinada acaba
abrupta quando as portas de novo se abrem
uma moeda cai no chão e vai rolar no vão entre o trem e a plataforma
como um réptil fugindo de algum risco
não tão rápido  mas com a certeza do caminho
os músicos partem e o menino atrás
tentando recuperar o perdido apenas com o olhar
também assim é o adeus

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