Ensaios e Resenhas

dezembro 2014 / Ensaios e Resenhas / Virginia, leitora

Texto publicado na edição #176

Virginia, leitora

Ensaios desnudam o pensamento múltiplo de Virginia Woolf e sua paixão pela leitura

> Por GUILHERME PAVARIN

Sra. Woolf era Adeline Virginia Stephen quando, aos 23 anos, escreveu que o riso — o incontido, de dentes arreganhados — preserva nossa humanidade. Ela o compara a uma faca. Ao nos rendermos à risada, podamos nossas almas; recordamos que não somos heróis ou vilões completos. “Se esquecemos de rir”, escreve, “vemos coisas fora de proporção e perdemos nosso senso de realidade”. Para reforçar a teoria, a autora segue com humor tão fino quanto filosófico: “felizmente os cães não podem rir porque eles mesmos se dariam conta, se pudessem, das terríveis limitações de ser um cão”.

É aí que, em meio ao tom elevado, o inesperado toma forma no rosto do leitor: lábios descontraídos, talvez um espasmo, som arfante; eis as lâminas: o riso de enxergar a própria fraqueza. Rimos de nós. Do outro.

Não é por acaso que esse texto, intitulado O valor do riso, fora eleito para nomear a coletânea de ensaios em português de Virginia Woolf. Publicado em 1905 pelo jornal inglês Guardian, o relato, uma meditação sobre a seriedade dos escritores do século 20, traz desde o título a chave muitas vezes esquecida para compreender a obra da inglesa: o humor ímpar; a capacidade de, no trágico, levar ao leitor um riso imprevisto e por vezes desconfortável.

A ficção de Virginia é lembrada por muitas qualidades: a complexa psicologia dos personagens; o fluxo brilhante de narração; a elegância das palavras e frases; o uso constante de ponto e vírgula e reflexões; a melancolia das questões suspensas; o tom ácido e crítico. Quase nunca lemos ou ouvimos sobre seu senso de humor. É como se não existisse. Ou como se ficasse no segundo plano de vários eclipses.

Nos textos não ficcionais a intenção de provocar o riso é mais nítida. Não que ela busque, de lápis em mãos, anedotas para o público gargalhar. (Se tentasse, seria um desastre.) O humor da autora está na observação e no esmiuçamento do atípico, nos detalhes imperceptíveis de pessoas e textos. Ela analisa frases que revelam vaidade patológica dos autores; nota a “cara pálida do relógio” ao falar do medo da própria ansiedade; descreve incongruências entre a roupa e a voz de pessoas; clama pelo fim dos resenhistas — sendo ela própria uma. A graça está por todos os cantos. É o verniz e ao mesmo tempo o interior de suas criações. E essa habilidade parece ser natural ou, pelo menos, algo que ela desenvolveu desde cedo como Adeline e aprimorou quando se tornou Virginia Woolf.

Impossível deixar de notar também que, já antes de adotar o sobrenome Woolf, Virginia possuía meios similares de explorar os temas na ficção e nos ensaios. Sua partida é sempre de acontecimentos pequenos e insignificantes, como uma ida à rua (do ensaio Músicos de rua, de 1905, presente no livro citado) ou medição da meia (no romance Rumo ao farol, de 1927). A partir do prosaico, ela ergue mundos. Ou como diz melhor o crítico e filólogo Erich Auerbach, em Mimesis, sobre a ficção da inglesa: “todo o peso repousa naquilo que é desencadeado, o que não é visto de forma imediata, mas como reflexo e o que não está preso ao presente do acontecimento periférico liberador”. Ao se desdobrar em várias — por meio de raciocínios, teses, relatos, personagens e antíteses — Virginia pesquisa uma (ou várias) realidade(s) objetiva(s). E temos de concordar: fazer isso fora da ficção é mais difícil do que parece.

Criação e evolução
Filha do escritor e historiador Leslie Stephen, Adeline Virginia cresceu rodeada de livros. (O avô paterno também era renomado historiador: James Stephen.) Do pai ela herdou o gosto por leituras de biografias e, ainda garota, escrevia textos para o jornal fictício que mantinha com suas irmãs. Na época, a formação universitária era vedada às mulheres, mas ela contou com o privilégio de ser educada em casa. Teve aulas particulares de grego e latim e, para suprir qualquer falha no cronograma escolar, era leitora dedicada. Começou a carreira de resenhista no Times Literary Suplement em 1905, meses depois da morte do pai. Em poucos anos se tornou uma das críticas mais respeitadas da Europa.

Os efeitos das leituras de Virginia podem ser conferidos em todo o livro. Mesmo quando trata de nada literários, como comprar um lápis, as referências caem com naturalidade sobre a folha. Não é, porém, a incontestável cultura que faz da inglesa uma grande ensaísta, e sim o modo como ela é capaz de fugir do óbvio em gêneros simplórios como — note a autocrítica — resenhas. Suas análises de livros são quase como um gênero novo, uma narrativa condensada de aforismos, descrições, parágrafos digressivos, reflexões e marcações poéticas. (Na dúvida formal, sempre chamamos de ensaio.)

Num dos mais belos textos da coletânea, Veneza, a autora resenha um livro histórico sobre a cidade italiana. Com tom de agradável espanto, ela traça o perfil arquitetônico, descreve a mentalidade festiva da população, as peculiaridades dos artistas e, ao tratar do declínio econômico por aquelas bandas, personifica a região em busca da comoção; compara com “a perda de uma grande alma”. A autora talvez seja a única com habilidade de extrair, de um relato objetivo, uma beleza poética e, vá lá, informativa e edificante. “Os sons e visões do mundo exterior podem ser achados aqui (em Veneza), mas apenas em ecos graciosos, como se ao passar pelas águas eles tivessem sofrido alguma mutação pelo mar”. Note que não é só um mergulho no tema. Ela se transporta para lá.

Quando escreveu esse texto, Virginia tinha 27 anos. Morava em Londres e frequentava as reuniões do Grupo de Bloomsbury, um círculo de escritores, pintores, críticos e intelectuais. Ela e a irmã Vanessa eram as únicas mulheres autorizadas. Nesses encontros de debates profundos e banais, Virginia conheceu seu marido Leonardo Woolf, também escritor e de quem adotaria o sobrenome para o resto da vida. (Pode parecer paradoxal em relação a sua postura feminista, mas não é. Mais abaixo trataremos do tema.) Depois do casório, aos 30 anos, sua produção literária aumenta. Contos, ensaios, cartas, romances. Arrisca-se em tudo. É também quando seus ensaios se tornam mais maduros e suas críticas, mais confiantes.

Os temas mais recorrentes são, é claro, os livros. Com o decorrer dos anos, a inglesa busca servir como uma espécie de oráculo. Um oráculo sem respostas, ok. Em textos como Ficção moderna, Como impressionar um contemporâneo, O leitor comum e Poesia, ficção e futuro, ela gasta longas linhas para tratar de todo o ecossistema literário: do resenhista ao editor; do leitor ao autor. Ela caça inconsistências, sugere novos métodos de análise e de escrita, critica os críticos e quem critica os críticos. Imersa nessa espiral, faz e refaz o trajeto com outros pontos de vistas contrários aos seus. Assim como na ficção, os ensaios da autora não trazem verdades. Buscam a reflexão, doa a quem doer; canse a quem cansar.

As opiniões também mudam de ensaio para outro. Se quando jovem Virginia diz ter apreciado o esforço de James Joyce com Ulysses, anos mais tarde chama de pretensioso e mal acabado. Sua paciência com os escritores contemporâneos parece quase esgotar a ponto de, por mais de uma vez, declarar que a geração estava perdida. (O que nos faz refletir sobre o ciclo desse discurso. Sempre a geração atual é a pior, não?)

Por outro lado, é possível ter acesso a uma essência imutável de Virginia. Repete-se quase como um mantra a expressão “literatura sincera”. Segundo ela, os autores deviam se afastar do materialismo. O ideal, afirma, seria uma forma mais espiritual de abrir questões interiores, um pouco parecido — porém menos santificado — com os russos. Um grande exemplo dessa postura seria Jane Austen, escritora por quem tinha grande devoção. Ao tratar do processo de maturação da autora de clássicos como Orgulho e preconceito, Virginia analisa como Jane teve de criar os mesmos cenários, os mesmos dilemas e a mesma trama diversas vezes até encontrar a atmosfera sublime. Era, a bem dizer, um texto sobre Woolf também: ela colocava sua obra em constante maturação. Pode-se dizer que muito do experimentalismo de Virginia vem dos exemplos de Jane Austen. Tentativa e erro. Tentativa, erro e sublime.

Por uma literatura feminina
São famosas as preocupações de Virginia com as questões de gênero. (Orlando, a obra que a tornou aclamada, tem como protagonista um homem que se metamorfoseia em mulher.) Tida como uma feminista engajada, ela se correspondia com várias autoras, leitoras e tantas outras mulheres fora do circuito das letras para tratar dos direitos da mulher. Nos ensaios, essa inclinação se apresenta de duas formas. A primeira são as resenhas de livros biográficos ou epistolares em que apareçam mulheres de personalidade forte. Virginia resenhou várias, sempre de forma criativa e curiosa. A segunda são os textos voltados para a inclusão feminina, a exemplo de Mulheres e ficção, de 1929, ponto alto da coletânea. Além de traçar um panorama histórico, Virginia projeta relações econômicas e sociais para o aumento ou diminuição da prática literária feminina. Tem ares de estudo.

Não só: nesse texto há uma espécie de manifesto. Virginia diz que, para a escrita feminina ser respeitada e, digamos, inalcançável aos homens, não deve ir de encontro ao texto de protesto, amargo — como o senso comum e o instinto guiariam. É preciso, diz, de sinceridade, coragem e observação impessoal e desapaixonada. Escreve:

E assim, se nos for lícito vaticinar, as mulheres do futuro escreverão menos, mas melhores romances; e não apenas romances, mas também poesia e crítica e história. Ao dizer isso, por certo olhamos bem à frente, para aquela era de ouro e talvez fabulosa em que as mulheres terão o que por tanto tempo lhes foi negado — tempo livre e dinheiro e um quarto para si.

É de se notar que o discurso de Virginia é mais brando do que se vê hoje em manifestos feministas. Sua proposta de luta pelos direitos é tão elegante quanto sua prosa. Ela reconhece os avanços alcançados pelas mulheres inglesas e crê com naturalidade que o futuro será melhor. A questão que fica é: o cenário evoluiu como deveria? Caso fosse viva, o que Virginia Woolf diria sobre as produções literárias femininas de hoje? E como se posicionaria? Teria o mesmo sobrenome do marido que tanto amava e sempre a apoiou?

Exercitar as respostas dessas questões é sem dúvida uma maneira de elevar qualquer discussão de gênero. Virginia, como pode ser conferido em O valor do riso, era o mais inteligente dos oráculos. Já sabia que não teria a resposta — e nem por isso deixava de pensar.

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Virginia Woolf

Man Ray, Virginia Woolf, Museum Ludwig, ML/F 1977/0618

Filha de pai nobre e intelectual, Virginia Woolf (1882-1941) cresceu com livre acesso à biblioteca paterna. Começou sua carreira como resenhista na Inglaterra em 1905 e, em poucos anos, transformou-se numa das críticas mais respeitadas da Europa. Seus artigos inventivos estão reunidos em O valor do riso. É considerada uma das maiores romancistas de todos os tempos. Publicou clássicos da literatura como Orlando (1928), Ao farol (1927) e Mrs. Dalloway (1925).

A velha ideia era que a comédia representava as fraquezas da natureza humana e a tragédia retratava os homens como maiores do que eles são. Para pintá-los de um modo verdadeiro será preciso chegar a um meio-termo entre as duas; o resultado é algo muito sério para ser cômico, muito imperfeito para ser trágico, e a isso podemos chamar de humor. O humor, como a nós foi dito, é negado às mulheres. Trágicas ou cômicas elas podem ser, mas a mistura específica que constitui um humorista é para encontrar-se somente em homens.

Virginia_Woolf_Valor_riso_176

Virginia Woolf
Trad.: Leonardo Fróes
Cosac Naify
512 págs.