Vidraça

outubro 2011 / Vidraça / Vidraça_janeiro_2011

Texto publicado na edição #129

Vidraça_janeiro_2011

“Ah, esse negócio de descrever uma folhinha caindo da árvore em quatro páginas, ninguém tem mais saco pra ler isso, […]

> Por LUÍS HENRIQUE PELLANDA

Vera Fischer, escritora

“Ah, esse negócio de descrever uma folhinha caindo da árvore em quatro páginas, ninguém tem mais saco pra ler isso, não. As coisas são rápidas nos meus livros.”
Vera Fischer sobre o seu estilo literário, em entrevista à coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo.

Escrita eletrônica
Foram 39 edições desde o seu lançamento em São Paulo, em 1975, até 1988, ano que marcou o fim de sua publicação em papel, único suporte viável disponível à época. Para muitos — Luiz Ruffato, entre eles —, a revista literária Escrita, editada heroicamente pelo jornalista Wladyr Nader, foi de longe a mais importante da história do país, sendo diretamente responsável pelo boom que caracterizou a literatura brasileira daquela década. Para se ter uma idéia da relevância da Escrita, em especial no que se referia ao investimento em novos autores, basta conferir uma pequena lista de escritores que, ainda inéditos, foram revelados nacionalmente pela revista: Adélia Prado, Paulo Leminski, Cristovão Tezza, Silviano Santiago, Domingos Pellegrini, Ivan Ângelo e Beatriz Bracher, entre muitos outros. Pois 35 anos após fundar a Escrita, Nader retomou sua vocação de descobridor e/ou incentivador de talentos literários, reativando uma versão eletrônica da sua criação: o Escritablog, no ar desde outubro de 2010. Os tempos são outros, mas a motivação é a mesma. Confiram: http://escritablog.blogspot.com.

Vera entre nós
Vera Fischer está entre nós. É a nova habitante do Planeta Literatura. Produziu dez romances este ano, sem maiores dificuldades. Para ela, escrever é moleza, conforme revelou à coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo: “Como tenho muita imaginação, vou criando personagens”. Seu título de estréia é Serena, o primeiro de uma série de livros com nome de mulher. Depois deste, virão Donatela, Valentina e Pietra, adiantou a escritora novata, na mesma entrevista. A obra de Fischer fala de tudo — viagens a Europa, perfumes caros, estilistas famosos, sexo oral, seqüestros —, mas desde que este “tudo” envolva gente rica. “Meus personagens nunca são pobres, são sempre ricos”, contou Vera. “Eu não sei escrever pra pobre. Detesto.” Como será recebida a obra fischeriana? Esperemos o Jabuti e o Prêmio São Paulo do ano que vem.

Cauã e Rodrigo
De acordo com a coluna de Ancelmo Gois, em O Globo, o ator Cauã Reymond, o Danilo da novela Passione, comprou os direitos para o cinema de dois livros do escritor, músico e jornalista carioca Rodrigo de Souza Leão, morto no ano passado, aos 43 anos. As obras que poderão virar filme seriam Todos os cachorros são azuis e Me roubaram uns dias contados.

Beleza exterior
Há quem acredite que não existe escritor bonito. Ou mesmo que beleza exterior e boa literatura não são compatíveis. A estes descrentes, uma excelente pedida é conferir o tumblr Tô gato?. Uma descrição do endereço? Nada melhor do que a própria apresentação da página: “O que pensam os gigantes da literatura antes de sair pra balada, inspirados pelas orelhas de seus próprios livros”. No Tô gato?, você encontrará autores como Italo Calvino, José de Alencar, Hemingway, Jane Austen, Tolstói, Kerouac, Osman Lins, Camus, Camões e muitos outros, todos em poses muito atraentes e galantes. Confiram: http://togato.tumblr.com.

Os melhores da APCA
A Associação Paulista de Críticos de Arte divulgou em dezembro os vencedores do seu Prêmio APCA de literatura, concedido aos melhores de livros de 2010. Na categoria Romance, o vencedor foi Minha mãe se matou sem dizer adeus, de Evandro Affonso Ferreira; na categoria Conto, Ficção interrompida, de Diógenes Moura; na Poesia, A duração do dia, de Adélia Prado; na Infanto-juvenil, Sou eu! e O nervo da noite, de João Gilberto Noll; na Ensaio/crítica, Ideologia e contra ideologia, de Alfredo Bosi; na Biografia, Memórias de um historiador de domingo, de Boris Fausto; na Tradução, Paulo Cezar de Souza, pelas Obras completas de Freud. O júri do prêmio foi composto por Dirce Lorimier Fernandes, Luiz Costa Pereira Jr., Sérgio Miguez e Ubiratan Brasil.

Cunhambebe III
Outro prêmio entregue neste fim de ano foi o terceiro Cunhambebe, que contemplou o melhor livro de literatura estrangeira publicado no Brasil em 2009. O vencedor foi Junot Diaz, americano nascido na República Dominicana, com o romance A fantástica vida breve de Oscar Wao, traduzido por Flavia Anderson para a editora Record. Os Cunhambebes anteriores, referentes aos anos de 2007 e 2008, foram conferidos às obras As benevolentes, de Jonathan Littell, e Putas assassinas, de Roberto Bolaño. No júri, Alberto Mussa, Álvaro Costa e Silva, Eduardo Simões, Marcos Strecker, Miguel Conde, Rachel Bertol, Ronaldo Correia de Brito e Ubiratan Brasil.

João Paulo Cuenca

Cuenca versus Vigna
O escritor e jornalista Sérgio Rodrigues, do blog Todoprosa, promoveu em dezembro uma eleição online para escolher, entre seus leitores, quais teriam sido os melhores livros de 2010, nas categorias ficção nacional e ficção estrangeira. Entre os gringos, concorreram 2666, de Roberto Bolaño (que venceu fácil, com 198 votos); Solar, de Ian McEwan (96 votos); Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas (86 votos); Vício inerente, de Thomas Pynchon (61 votos); e Léxico familiar, de Natalia Ginzburg (40 votos). Entre os brasileiros, a briga foi bem mais emocionante, e acabou sendo decidida apenas nos últimos instantes da votação. O vencedor foi O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de João Paulo Cuenca, com 340 votos, seguido de perto por Nada a dizer, de Elvira Vigna, com 289 votos — mas que encabeçou a lista durante quase toda a disputa. Os outros concorrentes foram Um erro emocional, de Cristovão Tezza (87 votos), Desgracida, de Dalton Trevisan (84 votos) e Azul-corvo, de Adriana Lisboa (45 votos).

A tentação das listas
Oficialmente, a primeira década do novo milênio se acabou, e a tentação das listas de melhores domina a imprensa cultural. Algum problema? Nenhum, fora as inevitáveis polêmicas que, ainda bem, acompanham esse tipo de brincadeira. E uma das relações mais interessantes já foi publicada pela revista Bravo!, em dezembro. Para o júri formado por Almir de Freitas, Paulo Roberto Pires e Paulo Werneck, na década passada os dez livros estrangeiros fundamentais (lançados no Brasil) foram, pela ordem: Austerlitz, de W. G. Sebald; 2666, de Roberto Bolaño; De verdade, de Sándor Márai; Neve, de Orhan Pamuk; A marca humana, de Philip Roth; Reparação, de Ian McEwan; Liquidação, de Imre Kertész; Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas; O iceberg imaginário e outros poemas, de Elizabeth Bishop; e Plataforma, de Michel Houellebecq. E segue o rol dos brasileiros, a começar, também, pelo vencedor: O filho eterno, de Cristovão Tezza; Em alguma parte alguma, de Ferreira Gullar; Budapeste, de Chico Buarque; Cinzas do Norte, de Milton Hatoum; Nove noites, de Bernardo Carvalho; O pão do corvo, de Nuno Ramos; Meio intelectual, meio de esquerda, de Antonio Prata; Esquimó, de Fabrício Corsaletti; Pornopopéia, de Reinaldo Moraes; e Crônicas inéditas, de Manuel Bandeira.

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