Vidraça

janeiro 2013 / Vidraça / Vidraça

Texto publicado na edição #154

Vidraça

  Bem-vindo, João Em março, estréia no Rascunho a coluna “Nossa América, nosso tempo”, do crítico João Cezar de Castro […]

> Por GUILHERME MAGALHÃES

“Procurarei escutar o contemporâneo, buscando mostrar a vitalidade de novas formas de crítica e a força de certos escritores que merecem ser mais bem estudados.”

“Procurarei escutar o contemporâneo, buscando mostrar a vitalidade de novas formas de crítica e a força de certos escritores que merecem ser mais bem estudados.”

 

Bem-vindo, João
Em março, estréia no Rascunho a coluna “Nossa América, nosso tempo”, do crítico João Cezar de Castro Rocha (foto). Professor de literatura comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o crítico carioca perseguirá um olhar mais atento para a literatura feita no continente, sem esquecer das questões que permeiam o contemporâneo e o exercício da crítica literária. Rocha é autor de Crítica literária: em busca do tempo perdido? (Argos, 2011); Exercícios críticos — Leituras do contemporâneo (Argos, 2008) e Literatura e cordialidade: o público e o privado na cultura brasileira (EdUERJ, 1998), entre outros. Nesta rápida conversa, ele traça um panorama da crítica feita atualmente no Brasil e comenta o momento literário singular que vivemos e o tom que pretende imprimir aos textos publicados no Rascunho a partir do próximo mês:

Qual seu objetivo com a coluna?
Pretendo tratar de dois núcleos de idéias. De um lado, e esse era o propósito inicial, refletir sobre autores e temas hispano-americanos; daí, o título “Nossa América”. Trata-se, entre nós, de lacuna lamentável e que diz muito do quanto ainda somos colonizados intelectualmente. Estamos sempre preocupados com o que se passa em certos países europeus e atentos às novidades da universidade norte-americana, e nessa corrida maluca pela impossível atualização gastamos toda nossa energia. A coluna será deliberadamente anacrônica. Discutirei autores clássicos hispano-americanos, em geral desconhecidos no Brasil, assim como proporei leituras de nomes contemporâneos. De outro lado, o calor da hora é irresistível! Sempre viajei muito, e tive contato com sistemas universitários diversos e modelos muito distintos de vida literária. Com base numa comparação nada sistemática, me parecem propriamente risíveis os lamentos que escuto a toda hora e de pessoas que respeito pela inteligência e pela obra: “a crítica acabou”; “os escritores contemporâneos pouco valem”, etc., etc., etc. Transformar o tédio da repetição infinita em método não resolve problema algum. Por isso, minha coluna será propriamente esquizofrênica e também será dedicada ao debate das circunstâncias do “nosso tempo”. Isto é, procurarei, na contramão da “melancolia chique”, escutar o contemporâneo, buscando mostrar a vitalidade de novas formas de crítica e a força de certos escritores que merecem ser mais bem estudados. 

Você afirma que a América Latina possui locais privilegiados de discussão literária. A que se deve essa especificidade?
Não penso numa “essência” particular e misteriosa, mas proponho a constatação de que ainda possuímos locais possíveis para a discussão da literatura no espaço público. Este ponto é decisivo: vivemos um novo horizonte que ainda não sabemos como ampliar simplesmente porque, presos a conceitos do passado, não podemos apreciar o que ocorre diante dos nossos olhos. Refiro-me à multiplicação de encontros literários em todo o país; à possibilidade inédita de escritores iniciantes viverem de literatura (não de direitos autorais, mas do movimento existente no país e que gira em torno do texto literário); à multiplicação de blogs que se dedicam à crítica literária; à criação de canais do YouTube em que jovens comentam e discutem suas leituras; à presença crescente de autores na esfera pública. Essa circunstância nada tem a ver com uma inesperada ressurreição da vida literária, pois ela dependia do círculo fechado dos que já se dedicavam à literatura. A circunstância contemporânea é nova, é inédita, pois há um fenômeno literário que pouco a pouco se torna um agente atuante no espaço público. O que faremos com esse novo dado? Seguiremos no cômodo elitismo de partícipes exíguos de uma utópica cidade letrada? Ou desenvolveremos formas múltiplas de linguagem, a fim de atingir um público composto essencialmente por não especialistas? Minha opção é clara: ser um esquizofrênico produtivo; poliglota de uma única língua. O objetivo é potencializar o momento presente, a fim de evitar que a multiplicação dos encontros literários reduza a literatura à lógica do espetáculo.

Como a crítica literária brasileira tem se inserido nesse contexto? Há de fato uma crise da crítica? Ou seria dos críticos?
A questão é delicada e, por isso mesmo, deve ser tratada com sutileza. O próprio da crítica, desde Immanuel Kant, é viver em crise! O crítico (der Kritiker) sempre principia pelo estabelecimento dos seus próprios limites para o conhecimento de um objeto determinado. Nem sempre estamos prontos para ler o romance que começamos, a tela que contemplamos, o filme a que assistimos. O bom da tarefa do crítico é que ele deve sempre renovar seu repertório, questionando seus pressupostos. Infelizmente, isso acontece pouco com os críticos que são professores universitários, pois muito rapidamente nos encastelamos em nossos pequenos nichos de poder institucional e hermenêutico. (Veja que também me incluo no time, para o bem ou para o mal.)Em sentido kantiano, uma análise que não produza crise não é suficientemente crítica. Não é tarefa do crítico, por exemplo, afirmar, como se fosse uma pitonisa amargurada: “o romance brasileiro contemporâneo é precário”; “a crítica nada vale”. Nesse caso, o crítico transfere o problema exclusivamente para o objeto, em lugar de perguntar-se se ele está preparado para ler o que se escreve hoje em dia. Talvez não esteja; talvez ele ainda viva na nostalgia dos dourados anos de sua juventude e acredite que o melhor já passou…

“Et in Arcadia ego” poderia ser um bom mote para esse tipo de crítica. Já é hora de aceitar o desafio de ser contemporâneo do nosso próprio tempo: é o que buscarei com os artigos da coluna.

 

Rubem Braga. Foto: Célio Jr./Divulgação

Rubem Braga tem seu centenário comemorado em 2013

Novo velho Braga
Comemorando 100 anos do nascimento de Rubem Braga, o Grupo Editorial Record prepara um ano com antologias, edições em capa dura e novas publicações do cronista, falecido em 1990. A José Olympio lança neste mês Retratos parisienses e reedita Na cobertura de Rubem Braga. O primeiro reúne 31 textos inéditos em livro escritos quando Braga foi correspondente em Paris. No segundo, o jornalista e escritor José Castello reconstrói vida e obra do cronista com depoimentos de escritores e intelectuais. Também em fevereiro sai pelo selo Galerinha Record o infantil O menino e o tuim. Em março, a Record lança Rubem Braga, o lavrador de Ipanema, seleção de 14 textos de amor à natureza, e uma edição especial com 200 crônicas escolhidas.

 

jandique

Curitibana
Com o objetivo de encontrar, publicar e divulgar os artistas curitibanos, o primeiro número da revista trimestral Jandique traz textos de Manoel Carlos Karam, Luiz Felipe Leprevost, Assionara Souza, Alexandre França, Fabiano Vianna e Eduardo Capistrano, com ilustrações de Daniel Gonçalves e carta crítica do escritor Carlos Machado. A escolha dos seis autores se deu através de um conselho editorial, que será formado a cada novo número. Com tiragem de 1 mil exemplares, a Jandique #1 traz também entrevista com os irmãos Tizzot, da editora e livraria curitibana Arte & Letra, onde acontece o lançamento da revista, dia 23, às 15 h.

Oficinas
Estão abertas as inscrições para as oficinas culturais que a editora 8Inverso realiza a partir de março em sua sede, em Porto Alegre (RS). Os cursos abrangem diferentes áreas da literatura e do trabalho editorial, como crônica, conto, ilustração e roteiro para quadrinhos, entre outras. O escritor Caio Riter, o cronista Rubem Penz, o quadrinista Maurício “Maumau” Rodrigues e a ilustradora Martina Schreiner estão entre os ministrantes. Todas as oficinas possuem limite de dez vagas e as inscrições acontecem somente pelo site.

Na internet
Estreou no último dia 25 o site Posfácio (antigo Meia palavra), com visual renovado e mudanças na equipe. O site já parte com quase 1 mil resenhas de variados títulos de literatura — nacional e estrangeira —, além de colunas sobre o mercado editorial, política e comportamento. Nessa nova fase, o espaço também contará com análises de cinema e música.

Lote novo
Apostando em nomes com apelo na web, a editora paulistana Lote 42 chega com a proposta de conectar seus livros e autores às redes sociais. O primeiro livro da casa está previsto para março: Já matei por menos reúne crônicas da jornalista e blogueira Juliana Cunha. Também estão nos planos da Lote 42 para este ano uma HQ nacional e um livro reunindo o melhor da produção de um jornalista cultural de São Paulo bastante ativo nas redes sociais, cujo nome a editora mantém em segredo.

 

Ana Martins Marques é a vencedora do prêmio de poesia da Biblioteca Nacional

Ana Martins Marques é a vencedora do prêmio de poesia da Biblioteca Nacional

Versos premiados
Da arte das armadilhas, livro da mineira Ana Martins Marques (foto), é o novo vencedor do Alphonsus de Guimaraens, prêmio de poesia da Fundação Biblioteca Nacional. O anúncio foi feito no último dia 25, um mês após a vitória de Poesia 1930-62, volume crítico da obra de Carlos Drummond de Andrade que, segundo o edital da premiação, não poderia ter sido inscrito já que apenas o autor ou a editora, mediante assinatura deste, pode inscrever uma obra. Drummond está morto há 25 anos, e Bernardo Ajzenberg havia recebido o prêmio como detentor dos direitos autorais. Da arte das armadilhas foi também finalista de poesia do Portugal Telecom 2012, perdendo para Junco, de Nuno Ramos.

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