Sujeito oculto

outubro 2015 / Sujeito oculto / Viagem ao fim do dia

Texto publicado na edição #185

Viagem ao fim do dia

Em algum lugar, na indiferença da funerária, está o corpo da filha. Está sendo preparado para a despedida.

> Por ROGÉRIO PEREIRA

Ilustração: Tiago Silva

Ilustração: Tiago Silva

Os pinheiros em fila não impedem a chegada do vento gelado. O descampado verde nos aguarda a todos. Estaciono o carro com cuidado como se possível fosse ser invisível ao menos uma vez. Meu irmão não está. Foi ao mercado comprar café. A noite será longa. Café é uma maneira de disfarçar o desconforto da espera. O gramado irregular se estende por uma longa distância até os pés dos pinheiros ao fundo. O cemitério é novo. Poucos túmulos maculam a grama com suas plaquinhas de bronze. As datas de nascimento e morte comprovam a incerteza da vida. O fim de tarde é frio e cinzento. O inverno não se preocupa com a morte alheia. Permaneço algum tempo a olhar para longe. Nuvens se espraiam por trás das árvores. Logo, a noite chegará. Há poucas pessoas no pátio. Conheço alguns de tempos que não existem mais. O nome de muitos me foge. Minha memória se esfarela.

Algo explodiu dentro da cabeça. O estrondo silencioso da morte a arrastou para a UTI. Recebi a notícia num domingo à tarde. No supermercado, larguei o kiwi na gôndola. Estava verde. Olhei para o carrinho quase vazio a compartilhar comigo a tragédia familiar. Minha sobrinha — filha do meu irmão — tinha 16 anos. A barriga volumosa abrigava uma menina. Uma criança a carregar outra durante nove meses. No parto, a explosão. A filha nasceu. A mãe morreu. Foram necessários dois meses — infinitos sessenta dias. A morte e suas extravagâncias. Sem pressa, esculpiu um corpo estranho, diferente, triste e o jogou entre flores num caixão apertado. Após algumas cirurgias, o fim numa madrugada. Eu não estava lá.

Meu irmão chega com um pacote nas mãos. Traz café, pão e queijo. Quer alimentar, dar algum conforto, àqueles que resolveram lhe fazer companhia. Em algum lugar, na indiferença da funerária, está o corpo da filha. Está sendo preparado para a despedida. Desde a morte já se passaram muitas horas. A noite começa a se insinuar. Aos poucos, o rumor de vozes aumenta. Chegam amigos e parentes. Pequenos grupos se formam. Alguns riem com certa vergonha. Outros, apenas ficam em silêncio. Um ao lado do outro. Eu permaneço parado, estático no mesmo lugar, sem saber onde colocar as mãos. Sou péssimo anfitrião da morte.

Tenho uma foto dela em casa. É uma criança de cinco anos. Está no meu colo e sorri com vontade. Do sorriso à morte, pouco mais de dez anos. Alguns dias depois do enterro, um amigo me disse “o que acontece com as mulheres da tua família?”. Não acontece nada. Elas simplesmente morrem antes do tempo. Caem do pé antes do outono e se espatifam no gramado ralo.

O frio é desanimador. Entro no carro. Já é quase noite. Não sei a que horas o corpo chegará. Agarro-me a um livro de título apropriado: Morreste-me. Leio sem entender nenhum silêncio que as letras me entregam. Jogo o livro no banco de trás e resolvo ir ao encontro dos demais. Não há nenhuma saída possível quando a morte é a única possibilidade.

Quando uma sobrinha se aproxima, espanto-me. Carrega um bebê de poucos dias no colo. Sua filha nasceu há menos de um mês. Olho a criança e não consigo não pensar na suposta maldição que nos ronda. Algo vai explodir naquela pequena cabeça. Carregamos uma bomba entre as poucas ideias.

Meu irmão caminha lentamente. Seu olhar bovino nos alcança. Faz um breve carinho na neta enrolada em muitas mantas no colo da mãe. Estende-me a mão sem energia. Pergunta se está tudo bem. Respondo com silêncio. Nossos diálogos carregam poucas palavras. Vai demorar?, pergunto. Já era para ter chegado, ele responde sem me olhar. Tem café lá dentro. Acabei de fazer. Já vou lá. Até que veio bastante gente. É. Ele retorna. Temos o mesmo jeito de caminhar: o corpo meio encurvado, os braços desajeitados. Sovamos o mundo com nossa distância desde que nascemos. A distância só aumenta.

Na apertada sala, encho um copo plástico de café. Há crianças em volta. A mesa abriga pão, margarina e queijo. Decido comer. Não sei o que fazer. Não há nada a fazer. As pessoas continuam espalhadas. Crianças correm indiferentes à morte. Alguns homens me cumprimentam pelo nome. Sinto vergonha. Não lembro o nome deles. Fisionomias são figuras embaçadas, desfocadas. A morte teima em me devolver ao lugar de onde nunca saí. Será que eles também irão ao meu enterro?

O carro funerário se aproxima devagar. A noite envolve tudo. Todos se movimentam. Um burburinho se forma. Após manobras precisas, estaciona de ré à porta da capela do cemitério. Meu irmão caminha em direção à filha — um camelo cansado e estropiado. Outros homens agarram as alças restantes do caixão. Eu permaneço estático, sem saber onde colocar as mãos. Carregam o caixão e o depositam sobre a laje, entre coroas de flores ordinárias. Um funcionário abre a tampa do caixão. No fogão, a chaleira esquenta mais água para o café. A noite será longa.

A vida, às vezes, só traz escuridão.

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Algo explodiu dentro da cabeça. O estrondo silencioso da morte a arrastou para a UTI. Recebi a notícia num domingo à tarde. No supermercado, larguei o kiwi na gôndola. Estava verde. Olhei para o carrinho quase vazio a compartilhar comigo a tragédia familiar. Minha sobrinha — filha do meu irmão — tinha 16 anos. A barriga volumosa abrigava uma menina.