Ensaios e Resenhas

fevereiro 2012 / Ensaios e Resenhas / Viagem a lugar nenhum

Texto publicado na edição #107

Viagem a lugar nenhum

Houve um tempo em que José Saramago era celebrado como a grande voz do romance português. Em um pequeno texto […]

> Por GREGÓRIO DANTAS

José Saramago por Ramon Muniz

Houve um tempo em que José Saramago era celebrado como a grande voz do romance português. Em um pequeno texto escrito em 1983, e que serviu de orelha para a edição brasileira do romance Memorial do convento (Bertrand Brasil), o escritor goiano José J. Veiga referia-se a Saramago como um escritor que precisava ser descoberto “com urgência” pelos brasileiros. Havia um entusiasmo legítimo e contagiante por parte dos leitores que, nos anos seguintes, descobririam romances significativos como O ano da morte de Ricardo Reis e O evangelho segundo Jesus Cristo.

Cerca de 25 anos depois, Saramago se tornou um dos escritores mais populares do mundo, premiado com o Nobel e adaptado para o cinema. Mas a recepção de seus últimos livros está longe daquele antigo entusiasmo. Um pouco por culpa do autor, que já há um bom tempo tem trazido a público uma produção bastante irregular; um pouco também por questões extraliterárias que, normalmente, são os piores motivos para se condenar qualquer romance.

Tem sido bastante comum, por exemplo, que a cobertura da imprensa em torno da obra de Saramago se concentre demasiado em questões como a orientação política do autor e suas declarações mais ou menos infelizes a respeito, principalmente, de política internacional. São questões bastante pertinentes ao crítico literário, desde que tal orientação política interfira na obra. Mas muitas vezes elas parecem gerar uma antipatia ideológica pelo autor que pouco repercute na análise do texto literário.

Além disso, Saramago já foi, vez ou outra, incluído em certa classe de vendedores do prêmio Nobel — como Toni Morrison, V. S. Naipaul e Orhan Pamuk — que, supostamente, teriam sido agraciados com o prêmio mais por questões políticas do que efetivamente literárias. Talvez haja um pouco de razão nestes argumentos. Mas como todas as idéias prontas, há que se duvidar delas, e não propagá-las como verdades inquestionáveis. Principalmente porque não se deve condenar o autor de romances como O ano da morte de Ricardo Reis ao inferno da mediocridade literária, ao qual ele definitivamente não pertence.

O retorno
A viagem do elefante, recém-lançado no Brasil, é uma boa oportunidade para os mais desconfiados tentarem se reconciliar com a ficção de José Saramago. Talvez seja este o seu melhor livro desde o Nobel, em 1998. O que, convenhamos, não quer dizer muito, já que, nestes dez anos, suas criações decepcionaram: livros como Ensaio sobre a lucidez e Intermitências da morte fracassaram pelo tom pretensioso e moralizante das fábulas mais conservadoras. Não à toa, são textos em que a visão política do autor contamina de modo mais evidente sua literatura. Depois vieram as Pequenas memórias, um livro interessante pelo que tinha, exatamente, de despretensioso (embora parecesse ser o resultado falhado de uma grande autobiografia que o autor vinha anunciando há muito tempo). E, agora, A viagem do elefante vem sendo recebido como um “retorno” do autor a algumas das qualidades que fizeram dele um dos mais lidos no mundo.

O enredo trata de um acontecimento insólito. Em 1552, o arquiduque austríaco Maximiliano II recebeu um elefante como presente de casamento, enviado por “dom João, o terceiro, rei de portugal e dos algarves, e de dona catarina de áustria, sua esposa e futura avó daquele dom sebastião que irá pelejar a alcácer-quibir e lá morrerá ao primeiro assalto, ou ao segundo, embora não falte quem afirme que se finou por doença na véspera da batalha”. Logo de início, o narrador já mostra a que veio: o tom jocoso se revela no uso das iniciais minúsculas, na indiscrição com que flagramos o casal real na intimidade da alcova (onde, como sabemos, são tomadas as decisões políticas mais importantes), e na sem-cerimônia com que a cena se transforma em um comentário pouco lisonjeiro à memória do ilustre Dom Sebastião.

Nenhum destas figuras históricas irá protagonizar o romance, papel que cabe ao tal elefante, Salomão, e ao seu guia (ou cornaca), chamado Subhro: juntos, empreendem uma longa viagem rumo à Áustria, devidamente protegidos pela escolta real. Mas que o leitor não espere uma viagem de grandes descobertas ou de iluminação pessoal: nem os personagens que encontram pelo caminho, nem os conflitos enfrentados na viagem são muito aprofundados. Antes, eles parecem muitas vezes apenas servir de pretexto para o narrador exercitar sua vocação para as digressões e comentários mordazes. E, como há muito não se via nos livros de Saramago, o narrador parece de fato se divertir enquanto conta sua história. Sem moralismo, sobra humor, que não poupa ninguém. Afinal, “bem vistas as coisas, um arquiduque, um rei, um imperador não são mais do que cornacas montados num elefante”.

É bastante significativo que a história tenha recebido o subtítulo de “conto”. Não por uma questão terminológica (já que se trata, essencialmente, de uma novela), mas por filiar o livro àquele modelo de conto imortalizado pelos irmãos Grimm, e a que chamaríamos de “contos de fadas”: histórias muitas vezes protagonizadas por animais, e com um sentido moralizante mais ou menos explícito. Em seu célebre estudo sobre as “formas simples”, André Jolles explica que, apesar de os enredos serem frívolos, e os heróis dos contos não serem necessariamente modelos de virtude, essas histórias carregam sempre um sentido moral, e nos mostram as coisas como elas deveriam ser. Neste sentido, Saramago fez uma referência irônica à tradição. A viagem do elefante não é um conto de fadas, nem uma fábula didática; pelo contrário, a viagem do título parece ir do nada a lugar nenhum, fruto de um capricho, e sem discursos moralizantes. Moral, se a há, talvez esteja em uma simples mas triste constatação: “a dura experiência da vida tem-nos mostrado que não é aconselhável confiar demasiado na natureza humana, em geral”.

Nem fábula nem romance histórico
Se A viagem do elefante não é uma fábula no sentido mais estrito do termo, também não se trata propriamente de um romance histórico: não há, como em Memorial do convento, por exemplo, a ambição de fazer uma minuciosa reconstrução histórica. Até porque o passado não pode ser reconstituído linearmente e sem sombras, como faz a chamada história oficial:

O passado é um imenso pedregal que muitos gostariam de percorrer como se de uma auto-estrada se tratasse, enquanto outros, pacientemente, vão de pedra em pedra, e as levantam, porque precisam de saber o que há por baixo delas. Às vezes saem lacraus ou escolopendras, grossas roscas brancas ou crisálidas a ponto, mas não é impossível que, ao menos uma vez, apareça um elefante.

Mas isso o leitor de Saramago já bem o sabe. Como também sabe que seu narrador, mesmo nos romances históricos, é sempre nosso contemporâneo, e mantém uma distância crítica dos eventos que narra, comentando-os à parte com o leitor, chamando-o para a conversa como quem chama a um comparsa. O narrador convoca o leitor para rebaixar personagens históricos e seus feitos aos pequenos caprichos e idiossincrasias cotidianas. Também faz uso de ditos e fábulas ou adota um tom sério, ensaístico ou proverbial, como quem vai promover uma reflexão filosófica grave e de grandes proporções. Mas não o faz. O leitor mais ingênuo pode ser enganado, e sentir-se edificado com tamanha “sapiência”, quando na verdade o próprio narrador parece mais comprometido em escrever “pelo simples gosto de escrever as palavras e dizê-las de modo saboroso”, conforme nos é dito em História do cerco de Lisboa.

Este sabor parece ter sido parcialmente recuperado em A viagem do elefante, por um narrador consciente dos recursos que manipula: desculpa-se da vulgaridade de algumas expressões, comenta a providência de certas onomatopéias, comete pequenas contradições (como anunciar que se evitará anacronismos, sem contudo evitá-los), além de demonstrar um pudor evidentemente falso para com seus personagens (ao propor, por exemplo, que “desviemos a vista” enquanto um personagem tem um acesso de disenteria). Além disso, assume que a digressão é sua principal estratégia de composição:

Essas observações talvez venham a ser consideradas desnecessárias pelos leitores mais interessados na dinâmica do texto que em manifestações pretensamente solidárias, e de certa maneira ecumênicas (…). Quando o cérebro divaga, quando nos arrebata nas asas do devaneio, nem damos pelas distâncias percorridas, sobretudo quando os pés que nos levam não são os nossos.

Por tudo isso, o leitor mais rigoroso, em busca de um romance que se revele novos caminhos na ficção do autor, sairá decepcionado: essencialmente, A viagem do elefante não traz nada de novo à obra de Saramago. Procedimentos, temas e tipos são bastante familiares, sem que se demonstre, contudo, a complexidade de personagens icônicos de seus outros romances, como Ricardo Reis, Baltazar Sete Sóis, Jesus Cristo ou a mulher do médico. Mas o livro certamente agradará aos leitores fiéis de José Saramago, saudosos de uma narrativa mais leve, menos pretensiosa: ao contrário dos últimos romances, é um livro que se lê com prazer, o que (não nos esqueçamos) pode ser também uma das funções dos romances.

A viagem do elefante há de interessar, também, aos biógrafos que um dia estudarão a relevância da delicada situação de saúde enfrentada pelo autor durante a redação deste livro. E a quem pensa que esse romance será uma virada na obra de Saramago, anunciador de uma nova fase, mais “leve”, o autor avisa: não se enganem. Em entrevista recente, concedida ao programa Espaço Aberto, da Globonews, Saramago disse que seu próximo livro deve ser “sério” como os anteriores. Esperamos que não.

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JOSÉ SARAMAGO

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Nasceu em Azinhaga, em 1922. Foi serralheiro mecânico, tradutor e jornalista, e desde 1976 dedica-se exclusivamente à literatura. Vencedor do prêmio Camões, foi também o primeiro escritor em língua portuguesa a vencer o prêmio Nobel de Literatura, em 1998. É autor de Levantado do chão, O ano da morte de Ricardo Reis, O evangelho segundo Jesus Cristo, A caverna, dentre outros.

No fundo, há que reconhecer que a história não é apenas selectiva, é também discriminatória, só colhe da vida o que lhe interessa como material socialmente tido por histórico e despreza todo o resto, precisamente onde talvez poderia ser encontrada a verdadeira explicação dos factos, das coisas, da puta realidade. Em verdade vos direi, em verdade vos digo que vale mais ser romancista, ficcionista, mentiroso. Ou cornaca, apesar das descabeladas fantasias a que, por origem ou profissão, parecer ser atreitos.

12696 - Viagem do elefante

José Saramago
Companhia das Letras
264 págs.