Sob a pele das palavras

agosto 2018 / Sob a pele das palavras / Vermelho, de João Guimarães Rosa

Texto publicado na edição #220

Vermelho, de João Guimarães Rosa

Encena-se uma sexualidade ativa, corporal, transbordante, libidinal, quente, viva, latejante, pulsional

> Por WILBERTH SALGUEIRO

É uma pomba
— parece uma virgem.
De debaixo das plumas, vem o jorro
enérgico, da foz de uma artéria:
e a mancha transborda, chovendo salpicos,
a cada palpitação.

Cresce, cresce,
parece que meus olhos a tocam,
e que vem aos meus olhos
passando por meus dedos,
viva, tão viva,
que quase grita…
Ardente e berrante…
Como deve ser quente!…
Mancha farta, crescente, latejante,
dói-me nos olhos e me irrita…

Cresce, cresce,
tão depressa,
que chega a mudar o gosto na minha boca…
Tenho-a agora presa nos meus olhos,
quente, quente,
e no entanto a pomba já está fria,
e colorada, como uma grande flor…

Em Magma, livro de Guimarães Rosa premiado em 1936 em concurso da ABL (mas só publicado em 1997), há sete poemas cuja sequência evidencia um cromático arco: Vermelho, Alaranjado, Amarelo, Verde, Azul, Anil, Roxo. Neste primeiro da série, há uma iniludível tensão erótica a percorrer o poema: desde o título, Vermelho — sabidamente ligado a sangue, fogo, proibição, amor, pecado, luxúria, intensidade —, tudo nos versos transpira sexualidade: [a] “de debaixo das plumas” da pomba-virgem, jorra algo (em nenhum instante se fala em “sangue”, no sentido de estar a ave-pomba ferida); [b] transborda em mancha, “chovendo salpicos”; [c] algo (a mancha?) “cresce, cresce”, passa pelos dedos; [d] “quase grita” (a mancha?), “ardente, berrante, crescente, latejante”; [e] esse “cresce, cresce” continua; e [f] “chega a mudar o gosto na minha boca…”; [h] com um dêitico “agora” — que atualiza a presença do sujeito —, à sensação de “quente, quente” [i] vem opor-se o frio da pomba, colorada (isto é, colorida e, em especial, colorida em vermelho — daí, por exemplo, “colorau”), e “como uma grande flor”; [j] as reticências finais, em sexta ocorrência, arrematam o clima sensual, mas ligeiramente interditado.

Encena-se uma sexualidade ativa, corporal, transbordante, libidinal, quente, viva, latejante, pulsional. A “pomba” do primeiro verso — comparada de imediato a uma virgem — pode-se ler como “pênis” e como “vulva”, ambas as acepções encontradas no Aurélio e no Houaiss. (Recorde-se, aliás, o nome da personagem azevediana Pombinha, de O cortiço — jovem, lésbica e prostituta.) Já a flor, “fria”, faz retornar um tópos clássico na literatura, que recria, antropomorfizando, no imaginário poético, este “órgão sexual da planta” — a flor! Em síntese, do jorro enérgico da pomba virgem à frieza final da flor, parece que presenciamos uma solitária e insinuante ação erótica, mormente onanista.

Em Grande sertão: veredas, Riobaldo declara: “Noite essa, astúcia que tive uma sonhice: Diadorim passando por debaixo de um arco-íris. Ah, eu pudesse mesmo gostar dele — os gostares…”. Entre os poemas de Magma e a obra-prima de 1956, o arco-íris se refez, mas o erótico lá e cá algo se corresponde: ao mito de Íris, mensageira da deusa Juno, vem juntar-se a lenda de que aquele que atravessa pelo fenômeno natural muda de sexo. Semelhante astúcia, com outras tintas, estava já nos sete poemas do arco-íris de Magma. Em todos, explodem alegóricos sentidos eróticos. Sem dúvida, Vermelho, o primeiro, entrega-se mais. Roxo, o último do arco, trata do olhar de uma esposa para o marido morto. Se Vermelho abre a série com o vigor de Eros se realizando, Roxo fecha com a força de tânatos. Sintomaticamente, ao corpo “vivo”, e depois “frio”, da pomba-sexo de Vermelho vem somar-se o corpo do “esposo morto”, devassado pelos olhos e pelo toque da viúva: impressiona que em Roxo, além do “corpo” e de imagens afins, haja tantas palavras repetidas de Vermelho: “agora”, “olhos”, “passou”, “dedos” e as tantas reticências. Tais repetições só fazem confirmar a ligação temática entre os poemas, visto estarem as cores vermelho e roxo nos extremos do arco-íris.

Embora a bandeira do arco-íris só tenha se tornado estandarte do movimento gay em 1978, a simbologia de liberdade sexual se comprova já no folclore popular. A crença de passar sob o chamado “arco-de-deus” — e tornar-se “outro” — é já bem antiga. Inspirado nessa tradição, Rosa faz nosso herói Tatarana, num só golpe, dar pistas de um segredo vital e sonhar com um futuro de felicidade (que, no momento em que narra, sabe inexistente). Mesmo sabendo dessa impossibilidade, Riobaldo fala e esta fala tem um poder quase mágico, performativo, de materializar o desejo, posto que o espaço literário é, para recorrer à célebre síntese barthesiana, este “fulgor do real”: “Noite essa, astúcia que tive uma sonhice: Diadorim passando por debaixo de um arco-íris. Ah, eu pudesse mesmo gostar dele — os gostares…”. Caetano Veloso, compositor de O quereres, também fez a canção Rei das cores, em que provoca: “Quais são as cores que são suas cores de predileção?”. Vermelho, roxo, rosa — qualquer maneira de cor vale a pena.

Não se trata, tão somente, de querer interpretar um poema à luz de um romance, e vice-versa, mas articular um dado cultural presente nuclearmente em ambos. Importa também evidenciar o interesse, por parte de Rosa, pela simbologia sexual que atravessa o fenômeno do arco-íris: em 1936, compõe sete poemas, um para cada cor do arco; em 1956, neste romance-mor de nossa literatura, resgata a mesma imagem para pensar/inventar uma solução para uma paixão impossível (no contexto jagunço), vontade que toma conta do corpo (qual o diabo no suposto pacto): “Que vontade era de pôr meus dedos, de leve, o leve, nos meigos olhos dele. (…) E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços. (…) Eu tinha súbitas outras minhas vontades, de passar devagar a mão na pele branca do corpo de Diadorim. (…) minha repentina vontade era beijar aquele perfume no pescoço”. A pomba do poema parece alçar-se à figura-neblina de Diadorim/Deodorina, pênis e vulva que confunde e abala o narrador de Grande sertão.

Rosa, nos poemas e no romance, recria dois arco-íris: na versão poética, as cores do arco-celeste mais escondem as paisagens interiores que as realça; já no Grande sertão, maduro, poderá dizer, na voz de Tatarana: “O senhor espere o meu contato. Não convém a gente levantar escândalo de começo, só aos poucos é que o escuro é claro.”, e ainda declarar a “sonhice” gestada com “astúcia”, após ouvir do amado amigo que “tudo há-de resultar bem”. Conforme quer Freud, em A interpretação dos sonhos, estes “revelariam a verdadeira natureza do homem, embora não toda a sua natureza, e constituiriam um meio de tornar o interior oculto da mente acessível a nosso conhecimento”. Se, para Theodor Adorno, “o sonho é negro como a morte” (Sueños), de forma semelhante o desejo do eu lírico em Vermelho — desejo de intensidade, gozo e transgressão — encontra (vinte anos depois) mórbida correspondência na frustração do narrador do romance, que aos poucos esclarece o drama que foi e é sua baldada vida amorosa. Riobaldo descobre (qual o poeta de Vermelho) que vida, amor e arco-íris são ilusão de ótica.

Bem antes de revelar ao ouvinte que seu amigo, pelo qual nutria verdadeira paixão, era mulher, Riobaldo ambivalentemente antecipa a informação, quando diz: “O senhor mesmo, o senhor pode imaginar de ver um corpo claro e virgem de moça, morto à mão, esfaqueado, tinto todo de seu sangue”. No poema, virgem também é a pomba; e tinto/vermelho é o tom que colore os versos. Lidar, pois, com as cores requer mais atenção e precisão: elas estão em tudo, pulsando, atraindo nossos olhares e significando todo o tempo. Porque na cor está o corpo. A literatura — este arco-íris incessante — mistura as tintas às letras. Às vezes, então, nesse decantar, damo-nos conta, enrubescidos, daquilo que, colorindo, hibernava ao nosso lado (e não estranhávamos). E, quiçá, coremo-nos em rosa: “Coração — isto é, estes pormenores todos”.

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