Dom Casmurro

novembro 2012 / Dom Casmurro / Vera Lúcia de Oliveira

Texto publicado na edição #151

Vera Lúcia de Oliveira

Poemas de Vera Lúcia de Oliveira

> Por VERA LÚCIA DE OLIVEIRA

aquela cidade comia a gente pelo intestino
aquela cidade tinha boca para devorar o mundo todo de onde viera
aquela cidade tinha fome que não se saciava, ele agora para alimentá-la
dera para atravessar as noites num farol vendo os carros implorando os carros

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a rua é um universo
encolhe o mundo
do nosso tamanho
encolhe as misérias
a cada um seu beco
a cada bêbado seu gargalo
a cada cão seu chute
a cada chão um patrão

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as frutas amolecem e se desfazem no calor
são como nós, alguém vem e come e quando não
cismam que vamos estragar o resto da fruteira

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havia o rumor
de estar por dentro
batendo um pulso
comunicando
a outro pulso
notícias do mundo

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mal amada de muito amada
minha mãe me enrolou em seu corpo
moro hoje num quarto pobre, passo
os dias limpando, passo as noites ouvindo
um ruído de traças comendo o mundo

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esse cão que me segue
é minha família, minha vida
ele tem frio mas não late nem pede
ele sabe que o que eu tenho
divido com ele, o que eu não tenho
também divido com ele
ele é meu irmão
ele é que é o meu dono

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bicho se é por destino sina ou sorte
só faltando saber se bicho decente
bicho de casa, bicho de carro, bicho
no trânsito, se bicho sem norte na fila
se bicho no mangue, se bicho na brecha
se bicho na mira, se bicho no sangue

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meu país é do lado de fora que ele mais dói
meu país tem calçada chiqueiro bueiro onde
gente compete com bicho e perde
meu país tem mercado avenida rua semáforo
onde com pouco se compra um corpo

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