Quase-diário

outubro 2011 / Quase-diário / Vendo o comunismo acabar

Texto publicado na edição #130

Vendo o comunismo acabar

18.08.1991 Moscou. Poderíamos ter ficado em Praga. Faltava ver Brueghel (Colheita do feno — aquele único Brueghel que nos faz […]

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

18.08.1991
Moscou. Poderíamos ter ficado em Praga. Faltava ver Brueghel (Colheita do feno — aquele único Brueghel que nos faz falta) e Lucas Cranach. Saímos tristes com isso. Não era preciso ter chegado a Moscou ontem à tarde. Poderíamos ter ficado em Praga para ver as casas de Dvorák e Smetana.

No último dia, vimos a casa de Kafka (anotações no bloco azul). Vimos também uma exposição sobre o Gulag: traumática, pois era em Praga, a caminho daqui. E uma frase sempre me vem: “Como esses comunistas brasileiros puderam conviver com isso? Não nos contaram nada! E Prestes? Era mesmo um energúmeno!”.

Penso: se os russos tivessem declarado guerra aos Estados Unidos, perderiam rapidamente. É um desastre o que vejo já por aqui.

Penso: agora sei por que Napoleão voltou das portas de Moscou…

As ruas são sujas. Detritos, remendos nos asfaltos, prédios velhos, casas decadentes e as pessoas mal vestidas, meio sujas. Parece Terceiro Mundo. E pensar que muitos morreram por este ideal…

No hotel onde estamos — Intourist — na rua Gorki, há uma multidão de gente e hóspedes. Na porta, choferes de táxi disputam quem sai. O preço seria 25 ou 30 rublos (igual a um dólar). Pois cobram cinco dólares. Você pechincha, pode sair por dois dólares. Ludmila , que é russa acabou de pagar 50 rublos.

Prostitutas pelo hotel. Estão mancomunadas com os funcionários. Distribuem-se por categorias: as mais lindas no restaurante e as outras nas escadas e corredores. Soviéticos não podem entrar aqui, só estrangeiros (e as putas, é claro). Aquelas caixinhas que na rua Arbat custam 500 ou 1.000 rublos aqui valem 500 ou 1.000 dólares.

Tudo se parece muito com Cuba.

Filas por todas as partes, sobretudo no Pizza Hut, McDonald’s e Baskin-Robbins. Mas só estrangeiros podem entrar.

Parece muito com Berlim Oriental que conheci antes da queda do Muro. Só que tem mais gente.

Garçons e pessoas que atendem, sempre de mau humor e desatentos. A comida é baratíssima no hotel: cinco dólares para vinho, branco e dois tipos de caviar (vermelho e preto).

Lá fora, na rua, um conjunto animado de rock. Pessoas aplaudem: “Rock around the clock”. Os cantores têm mais de 30 anos e vestem jeans. Fernando Sabino que começou a tocar numa banda aos 70 anos faria sucesso aqui.

É um espanto: é necessário um visto para ir a Stalingrado. Um visto para ir ao próprio país. No escritório do hotel uma moça da Tailândia desanimada, querendo voltar ao seu país, chegou há um dia e está desesperada, não entende nada, não pode viajar nem fazer turismo.

Em frente ao hotel, um grupo de crianças mendigando, descalças, tipo ciganas. Os porteiros/guardiães são em geral ex-combatentes.

Fomos à Praça Vermelha ontem à noite e hoje de tardinha. É imponente. Belíssima. Não tem nada a ver com o resto da cidade. A bandeira vermelha tremulando. Embaixo o túmulo de Lenin, um guarda e a multidão de turistas.

O problema é que não há indicação em nenhuma língua estrangeira, tudo em caracteres cirílicos.

Nossa sensação é de incômodo e desconforto. E de pena deste povo. Quanto tempo perdido nessa revolução, que será apenas um parêntesis idealístico e brutal na história!

E o que se perdeu?

A alegria que se perdeu?

O talento que se perdeu?

Não apenas as vidas, porque as vidas se perdem às vezes, mas o que se perdeu — humilhados e ofendidos na recordação desta casa de mortos ou semivivos.

(NOTA: Três dias depois, houve um golpe contra Gorbachev, precipitaram-se as coisas que estão narradas em Agosto 1991: estávamos em Moscou — livro que escrevi com Marina Colasanti).

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