Ensaios e Resenhas

janeiro 2013 / Ensaios e Resenhas / Variação e fuga

Texto publicado na edição #153

Variação e fuga

"Com Roland Barthes", de Leyla Perrone-Moisés, é um rico painel sobre o pensador francês

> Por PERON RIOS

Roland Barthes: variações sobre um tema. É com tal procedimento que Leyla Perrone-Moisés nos apresenta seu livro mais recente, Com Roland Barthes, lançado pela editora Martins Fontes em setembro de 2012. Trata-se de uma partilha de saber e afeição: ensaios produzidos pela autora desde a década de 1960 até 2005, intercalados pelas cartas remetidas por Barthes, nas quais percebemos como a singular amizade entre ambos se consolidava. O volume traz, como relevante anexo, algumas entrevistas concedidas por Leyla a jornalistas de vários veículos da imprensa brasileira e a estudantes.

Antes de tudo: se detalhes de toda edição nunca devem, como já foi hábito entre nós, ser tomados por simples invólucros daquilo que é supostamente sua essência (o texto), aqui tal afirmação ganha evidência. A imagem da capa se perfaz da superposição de sobrescritos escolhidos cuidadosamente por Barthes, em sua correspondência com a escritora paulista, signo do desejo estético que o habitava. Do mesmo modo, suas cartas, sempre redigidas de próprio punho, mostram uma delicada atenção com a correspondente, detalhe que nos é oferecido pelos fac-símiles das missivas. Eis o que Leyla nos informa a respeito:

A gentileza de Barthes se revelava também no fato de escrever quase sempre à mão e na escolha de belos selos para o envio de suas cartas. Estas cartas têm uma beleza visual análoga à de seus originais manuscritos e à de suas pinturas, que têm sido mostradas em exposições.

Com Roland Barthes é um título, como justifica a própria Leyla, referente ao “trabalho em comum” (palavras de Barthes) desenvolvido pelos dois teóricos, através do convívio de mais de 20 anos, pessoalmente ou por escrito. A escritora foi, sem dúvida, a mais fiel embaixadora do pensamento barthesiano no Brasil, inclusive pelo empenho em traduzir vários de seus trabalhos para o português. Fidelidade que alimentou na autora mais uma vontade hermenêutica e pedagógica do que a extração de maior posicionamento crítico em relação ao mestre.

Divide-se o conjunto em três etapas. A primeira, “Descoberta e encontro”, agrega os ensaios de aproximação, as primeiras considerações em torno do work in progress do semiólogo, ainda em sua fase estruturalista. Uma leitura menos apressada irá perceber dois movimentos paralelos, no decorrer do livro: as transformações ideológicas de Roland Barthes, em seus constantes “deslocamentos” de olhar, e o amadurecimento reflexivo da própria Leyla Perrone-Moisés, no fluxo de sua atividade crítica.

No artigo de abertura, por exemplo, intitulado Uma necessidade livre e publicado em 1968, Leyla glosa algumas declarações formuladas pelo teórico Pierre Macherey. Segundo ele, a expressão “criação literária” é bastante inadequada, pois supõe a obra como um mistério, uma religião, e com origem num fiat lux ordenado pelo autor. A escritora expressa, diante disso, a sua discordância, argumentando que criação também pode acolher o sentido de invenção. Dezesseis anos depois, no admirável ensaio A criação do texto literário, que irá compor o volume Flores da escrivaninha(1990), ela recua em suas observações e estabelece uma distinção importante entre o ato criativo e o inventivo, cabendo ao primeiro uma manifestação de “modo divino e absoluto” (o que retoma Macherey, portanto) e considerando o segundo uma conseqüência do “engenho humano”.

Ao analisar, em 1968, aquerela de Macherey com os estruturalistas (dentre os quais se situava Roland Barthes), a professora paulista elucida os mal-entendidos em torno da referencialidade do texto literário, salientando que a escritura produz uma realidade segunda que não está à revelia da primeira e que forma e fundo não são categorias dissociadas, mas interpenetram-se e, dialeticamente, se solicitam. Já em Roland Barthes, o infiel, a luz reflexiva recai sobre a permanente inconstância do francês, seu cariz camaleônico frente às modalidades discursivas do ofício crítico. A respeito disso, em outro ensaio (A linguagem de Barthes), Leyla expressa tal fenômeno de modo magistral:

A cada leitura, mesmo a mais amigável, Barthes sofre a ameaça de se ver engolido pelo imaginário de outrem, o risco de ser transformado em estátua de sal. Ser de fuga, Barthes se furta, cedendo a seus seguidores lugares desertados.

Ao mesmo tempo, ela reconhece algumas “linhas de força”, invariantes no fluxo das metamorfoses. Uma delas é o teor escritural da produção barthesiana, de sua vocação (mais do que de pesquisador) de escritor, razão pela qual, para ele, escrever é um verbo intransitivo. Daí sua considerável opacidade, que lhe valeu a pecha de crítico hermético. A outra constante, como afirma Louis-Jean Calvet, é a renitente “desmistificação da ideologia”, o desmascaramento das naturalizações, dos discursos que, por força de circulação, fizeram-se verdades. Encerra o primeiro bloco do livro uma exposição de cartas, datadas de 1968 a 1974. Nelas encontramos a gratidão de Barthes à sua tradutora, que planejava para o público brasileiro as edições, pela Perspectiva, de Crítica e verdade e dos Ensaios críticos. Ali também poderá ser lida a insatisfação do autor, no que concerne aos seus livros, com a imprensa francesa — incidentes relativamente remediados pelos periódicos de fora (ele o afirma a propósito de um inteligente ensaio de Leyla sobre o S/Z). Nada mais natural, dada a resistência daquele contexto cultural francês, lastreado na “velha crítica” de Raymond Picard e no método da explicação de texto.

A segunda seção, “Passando o anel”, se caracteriza por textos de divulgação mais militante da produção barthesiana. A tarefa de Leyla Perrone-Moisés é, bem analisada, de alfabetização teórica, de esclarecimento semântico das palavras-chave para a crítica literária. Tal lida é indispensável — apesar de seu perfil aparentemente elementar —, ainda mais quando em nosso quadro docente a autora representa, juntamente com um Roberto Acízelo de Souza, uma minoria que demonstra zelo pela especulação lúcida e translúcida, infensa ao manejo babelizante das nomenclaturas (que não fabrica a Babel feliz, a que Barthes se refere, em O prazer do texto). Na realidade, Leyla parte da etapa reflexiva que Platão sempre nos demanda, ao começarmos um debate: afinal de contas, do que estamos falando? Os ajustes de linguagem são a limpeza do terreno — inicial e obrigatória — para o jogo aberto da crítica literária. A ensaísta desempenha este papel, por exemplo, quando observa o mau uso que alguns teóricos fazem do substantivo jouissance. Termo psicanalítico por excelência, designa, no circuito conceitual de Roland Barthes, menos o conforto da fruição, como foi tantas vezes compreendido, do que a dissolução do Ser, caracterizada pelo gozo, na acepção sexual da palavra. É fundamental entender a diferença desses verbetes operatórios, pois se aplicam a realidades literárias conflitantes. O prazer se afina, com maior adequação, aos textos da literatura tradicional, ao passo que a experiência-limite do gozo relaciona-se especialmente às escrituras de vanguarda, que Barthes por muito tempo privilegiara.

O mesmo letramento terminológico se dá na elucidação da palavra écriture, causadora de infinitas controvérsias, tendo em vista a polissemia, incrementada por Barthes, no idioma francês. Em dois textos importantes sobre o tema (Escrita ou escritura? e Deslocamentos da noção de escritura), a professora nos ensina que, buscando esvaziar o antigo parâmetro de literatura, Barthes nega-a, substituindo-a pela idéia de escritura. Leyla apresenta um quadro de polaridades que o termo compõe, como escrevência (referencial e transitiva) x escritura (opaca e intransitiva) ou escritura (código transbordante, rizomático) x literatura (código classificado, estanque, assimilado). Escrita, que para muitos é o vocábulo mais coerente por não incorrer em galicismo, significa muito pouco em virtude de sua genericidade, pois, na concepção barthesiana, ele nada mais é do que o hiperônimo em que toda essa disputa epistemológica repousa. É importante ressaltar, porém, que na fase final de sua vida o semiólogo retomará o nome literatura, vitimado por um violento desgaste, revigorando-o com a noção escritural. Tal procedimento não deixa de ser uma emergência do conhecido fenômeno que a psicanálise classificou como o assassinato do Pai e da Lei, agora em sintonia com a Teoria Literária.

Leitor de signos
No texto inédito A cozinha do sentido, Leyla Perrone-Moisés discorre sobre o Barthes efetivamente semiólogo, que esquadrinha os signos presentes nas receitas da revista Elle, em cotejo com os elementos da culinária japonesa. Impressiona a perspicácia do ensaísta ao estabelecer um vínculo forte e homológico entre os modelos da composição culinária e os da linguagem verbal. Numa época de encantamento pessoal com culturas do Oriente, ele é contundente com os modelos do lado de cá de Greenwich. Ao contrário da cozinha nipônica, o crítico acredita que a culinária de Elle, metonímia do Ocidente, se baseia no nappé, na cobertura, no mascaramento, no disfarce. Em linguagem verbal, isso corresponderia à retórica vazia mas inflada, de ornamentos e imposturas, largamente usada nos discursos de manutenção ideológica e de poder. É nesse momento de sua produção que algumas metáforas inteiramente inesperadas saltam-nos aos olhos: “o estereótipo talha como o leite” ou, ainda, “o escritor é uma cozinheira atarefada que deve mexer constantemente as panelas da linguagem para que esta não grude”.

Leyla ressalta, portanto, que “quando fala de culinária, Barthes os pratos como textos”. Aliás, a vocação deste leitor de signos lato sensu (pintura, cinema e vestuário) será comentada na parte posterior do livro, em “Inéditos 3 — Imagem e Moda”, subdivisão do capítulo “Apresentações da ‘Coleção Roland Barthes’”. O segmento se encerra com missivas que tratam de novas traduções realizadas pela brasileira: Roland Barthes par Roland Barthes e a aula inaugural no Collège de France, Leçon. Além disso, o âmbito pessoal do pensador se deslinda a partir de preocupações de sua interlocutora (indagando sobre a pouca saúde da mãe do escritor, fator essencial para a produção posterior do nosso personagem).

Os textos da terceira etapa do livro (“Depois de Barthes”) constituem um retrospecto. Revelam um Roland Barthes que se preparava para outras mudanças, algumas já sugeridas em sua extraordinária Aula, de 1977. Naquele momento, percebendo os indícios do declínio da literatura do passado, propõe o retorno à sua valiosa herança. Outras mudanças também se anunciavam, como a querência da legibilidade e o acréscimo de um certo gosto clássico a seu espírito moderno. O livro teve ainda o cuidado de expor o perfil do Barthes professor, que recusa a centralidade do discurso e a concentração do poder sobre si mesmo, elemento representativo de outra coerência de caráter. Igualmente essencial é a leitura dos ensaios em que vislumbramos as relações do escritor com Derrida (que estabeleceu os limites do estruturalismo quando este se encontrava no auge), Sartre e Blanchot. Aqui, o desaparecimento da literatura assoma como um dos tópicos fundamentais. Diante da desfaçatez argumentativa dos estudos culturais e do seu desamor pelo fato literário, pode-se dizer que os quatro foram verdadeiros visionários.

Para finalizar, é necessário observar que o apêndice com algumas entrevistas realizadas com Perrone-Moisés, de2003 a2008, parece ter uma função curiosa e sintomática: a de constituir uma justificativa da publicação do próprio livro, tal é a incompreensão — verificada em muitas perguntas inteiramente ingênuas — a circular em torno do escritor que, temeroso da estátua, fez da fuga seu recurso permanente.

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Leyla Perrone-Moisés

Leyla Perrone-Moisés. Foto: Divulgação

É professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e pesquisadora do Núcleo de Pesquisas Brasil-França, do Instituto de Estudos Avançados da USP. Autora, dentre outros títulos, de Falência da crítica (1973), Roland Barthes, o saber com sabor (1983), Altas literaturas (1998) e Vira e mexe, nacionalismo (2007).

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Leyla Perrone-Moisés
Martins Fontes
216 págs.