Ensaios e Resenhas

dezembro 2011 / Ensaios e Resenhas / Vaidade revelada

Texto publicado na edição #123

Vaidade revelada

A polêmica chegou antes do romance. Há muitos anos circulava pelos bastidores literários, em tom de fofoca, que Miguel Sanches Neto, […]

> Por MAURÍCIO MELO JÚNIOR

Miguel Sanches Neto, autor de Chá das cinco com o vampiro

A polêmica chegou antes do romance. Há muitos anos circulava pelos bastidores literários, em tom de fofoca, que Miguel Sanches Neto, se valendo da proximidade que teve com o escritor Dalton Trevisan, escrevia um romance revelando todas as inconfidências do Vampiro de Curitiba. E não eram poucos os protestos, as indignações, os debates sobre ética, caráter, defesa da individualidade.

Romance pronto e publicado, morrem as polêmicas, pelo menos para quem o ler. Chá das cinco com o vampiro, antes de ser uma invasão velada à privacidade de Dalton Trevisan, um livro oportunista na esteira das comemorações ocultas e desautorizadas dos 85 anos do escritor, se amolda como uma reflexão sincera sobre a vaidade.

Partamos do enredo.

Roberto Nunes Filho passa a infância e a adolescência em Peabiru, no interior do Paraná, assistindo às bebedeiras do pai, à passividade da mãe e à solidão de uma tia solteira, Ester, que mora cercada de livros. Todos vivem do arrendamento das terras deixadas como herança pelo avô e, para fugir do tédio da cidade de vidinha besta, o moço lê os livros emprestados pela tia. Daí decorre tudo.

Depois de brigar com o pai e sofrer uma desilusão amorosa, Roberto muda-se para Curitiba, bancado pela tia, para estudar jornalismo. Envolvido com os literatos da cidade, abandona o curso e torna-se colunista literário de um jornal e romancista.

Durante dez anos, o moço circula nesse ambiente e dele tira seus prazeres. No entanto, paulatinamente, descobre a superficialidade que envolve tal círculo social. Todos parecem representar personagens de livros que sequer chegam a escrever, todos carregam indiscutíveis certezas da própria genialidade, mesmo diante de textos medíocres, incompreensíveis ou mesmo ilegíveis. Todos arrotam o cadinho de intimidade que dizem ter com o escritor Geraldo Trentini, a encarnação literária de Dalton Trevisan.

Aliás, quem tiver maiores intimidades com o cenário cultural de Curitiba poderá descobrir cada um dos homens, cada uma das mulheres que se escondem nos personagens de Miguel Sanches. Os que ganharam dimensão nacional com seu trabalho são facilmente identificados, como Valter Marcondes, um espelho onde se reflete Wilson Martins, e o contista Geraldo Dalton Trentini Trevisan.

Posta de lado esta base, digamos, de inspiração, o romance se dimensiona por dois pressupostos bem modernos. O primeiro é a reflexão que deita sobre a vaidade. O segundo se pauta pela inquieta e também lírica condição que envolve os grupos familiares. Claro que se trata de temas recorrentes, motes excessivamente explorados por escritores em todo mundo, e daí o perigo do pastiche. Sanches consegue sair ileso, ou quase, do caminho. Sua trama, embora traga certa morosidade inicial, ganha fôlego à medida que se desenvolve e termina como um texto profundamente belo e consistente. E o apoio para se chegar a tal proeza está nos tais pressupostos bem modernos anteriormente mencionados.

Sangue novo
Dizendo um pouco mais sobre a vaidade, o Geraldo Trentini de Miguel Sanches é a representação dela. É um personagem complexo, que criou em torno de si uma áurea mítica bem conveniente. Por uma determinação da timidez, no inicio da carreira de escritor, optou por deixar sua obra caminhar com independência, liberta da vida de seu autor. Esta condição o ensinou o quanto isso poderia favorecê-lo. Assim se mostrou sempre como alguém de difícil relacionamento, com amigos de ocasião, avesso à publicidade, mas que está sempre disposto a quebrar tal privacidade diante de uma mulher jovem e bela, diante de alguém que possa trazer sangue novo, novas tramas, novos personagens para sua literatura cada vez mais lida e comentada.

Naturalmente, aí se desenvolve o limo da vaidade. Tudo que gira em torno do escritor passa por um estranho e imprevisível mecanismo de seleção. As ruas por onde caminha, os lugares que freqüenta, as opções pessoais. A aproximação de Roberto com Trentini nasce daí. O jovem vagabundo o aborda dizendo ter escrito um estudo sobre sua obra. Trentini se interessa em ler e, diante dos elogios, manda o texto para um jornal. Nasce aí o crítico Roberto Nunes.

Estas obsessões levam Trentini a fabricar uma vida familiar difícil, opressiva. Ele tem péssima relação com os vizinhos — só se pacifica com o dono de uma sauna na vizinhança quando isso ajuda sua escrita —, despreza a esposa de anos, só abre as portas da casa para uma mulher bonita e jovem provocando a irritação da única filha que conserva à distância. Ou seja, Trentini é uma espécie de personagem própria, e isso tudo o liga ainda mais a Roberto, com quem termina brigando.

As relações familiares do jovem Roberto não são também nada fáceis. O pai vive bêbado, frustrado por ter fracassado como jogador de futebol. A mãe se refugia nos afazeres domésticos, não tem qualquer perspectiva. Ester, a tia, foi arrastada de volta a Peabiru depois de tentar viver uma grande paixão em Curitiba. A partir daí passou a viver entre seus livros, com sua solidão. Um quadro de frustrações e mediocridades, enfim.

O adolescente Roberto, neste ambiente, vive duas intensas paixões. A primeira, meio impossível, pela tia e a segunda, em parte correspondida, por Marta, que prefere se casar com um fazendeiro próspero.

Tanto a Curitiba de Trentini quanto a Peabiru de Ester são microcosmos que refletem as impossibilidades e as conveniências humanas. Há uma busca velada pelo sucesso — que pode vir em forma de prestígio, poder, prazer ou mera vaidade — e quem não consegue de alguma forma atingi-lo é excluído de qualquer sentido. Chá das cinco com o vampiro poderia ser mais um romance a refletir sobre isso, o que seria banal. Sua diferença está na forma como o autor embaralha suas cartas. Nada é dito de maneira direta, apenas a trama vai abrindo janelas para reflexões e conclusões.

Destarte, antes de sugar o sangue e a vida de um vampiro, Miguel lhe dá humanidade, o fotografa pela rica complexidade que oferece como matéria literária, afinal como homem, o vampiro, nascido do barro tal qual Lair Ribeiro, se move por vaidades e obsessões em busca de sucesso e prazer. Então melhor ficar mesmo com seus contos e com a inspiração que provocou em Miguel Sanches Neto.

Print Friendly

MIGUEL SANCHES NETO

Nasceu em 1965, em Belo Vista do Paraíso (PR). Em 1969, mudou-se para Peabiru (PR), onde passou a infância. Doutor em letras pela Unicamp, é autor de romances como Chove sobre minha infância, Um amor anarquista e A primeira mulher, e do livro de contos Hóspede secreto. Desde 1994, é colunista do jornal curitibano Gazeta do Povo. Recebeu o Prêmio Cruz e Sousa (2002) e o Binacional das Artes e da Cultura Brasil-Argentina (2005). Vive em Ponta Grossa (PR).

Meus contos, no período de maior influência de Geraldo, só podiam ser uma tentativa de reprodução. Assim como outros autores com um estilo muito pessoal, Geraldo pode ser apenas imitado. Era o que eu estava fazendo em meus textos trentinianos. Mas havia outra parte de mim que continuava fugindo deste estilo. Eu era e não era seguidor de Geraldo, e essa situação me angustiava.

Miguel_Sanches_Neto_Cha_Vampiro_123

Miguel Sanches Neto
Objetiva
236 págs.