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junho 2018 / Rodapé / Uns braços, de Machado de Assis

Texto publicado na edição #218

Uns braços, de Machado de Assis

Machado adensa sua personagem, tornando-a complexa

> Por RINALDO DE FERNANDES

O conto Uns braços tem um foco narrativo voltado sobretudo para as figuras de Inácio e de D. Severina. A personagem de D. Severina é elaborada de forma ambígua, como a maioria das heroínas machadianas, permitindo uma reflexão acerca da moral hegemônica, burguesa. A moral, sabemos, pressupõe o estabelecimento de normas, regras — e portanto é reguladora de condutas. Ela é necessária para a organização social — não há grupo social que não estabeleça uma moral, um conjunto de normas. Ao mesmo tempo que é necessária e cumprida, a moral também é descumprida, transgredida. Onde há regra há ruptura de regra. O problema em Uns braços é o modo como Machado faz D. Severina lidar com essa questão. Para a esposa de Borges, não será fácil transgredir a regra — e portanto trair o marido com o adolescente Inácio. Porque a principal regra que a moral do casamento institui é a da monogamia. Mas D. Severina deseja o rapaz. Ora, para aquele que pensa em descumprir com a moral há basicamente duas coisas: ou a ruptura, ou seja, ir às vias de fato; ou a punição. A punição não é fácil para o indivíduo. E Machado sabe disso, adensando sua personagem, tornando-a complexa. D. Severina quer o rapaz, mas reprime até o pensamento, quer matar até a ideia de que ela foi à rede dele para buscar alguma forma de dar expressão ao desejo dela — isto porque procura criar um mecanismo de compensação interior, dizendo a si mesma que esteve ali como “meio irmã, meio mãe”. Mata o impulso erótico, não o obedece, pelo menos no plano consciente.

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