Ensaios e Resenhas

janeiro 2020 / Ensaios e Resenhas / Unidos pela escrita

Texto publicado na edição #237

Unidos pela escrita

Reunião da correspondência entre Yukio Mishima e Yasunari Kawabata retrata uma amizade atravessada pela literatura

> Por RAFAEL GUTIÉRREZ

Yasunari Kawabata, autor de Dançarina de Izu

Yasunari Kawabata, autor de Dançarina de Izu

Em uma carta datada de 27 de maio de 1961, Yasunari Kawabata faz um “pedido despudorado” para seu amigo Yukio Mishima: “[…] lhe peço: não me importo que seja bem simples, mas você concordaria em escrever-me uma recomendação? Vou pedir que enviem seu texto à Academia, juntamente com os outros documentos necessários, depois de tê-lo traduzido para o inglês ou francês”. Kawabata se refere a uma recomendação para a Academia do Prêmio Nobel de Literatura. Sete anos depois, em 1968, Kawabata se tornaria o primeiro japonês a ganhar o Prêmio.

Na resposta de Mishima, ele envia o que chama de “esboço” escrito diretamente em inglês. “Nas obras do senhor Kawabata”, escreve Mishima, “a delicadeza se une à elasticidade, a elegância a uma consciência das profundezas da natureza humana; sua claridade oculta uma tristeza imensurável, são obras modernas e ainda assim inspiradas diretamente pela filosofia solitária dos monges do Japão medieval”. Mishima termina sua recomendação afirmando que Kawabata, mais do que qualquer outro escritor japonês, estaria qualificado para o prêmio.

As duas cartas, assim como o texto integral da recomendação de Mishima, fazem parte do livro Kawabata—Mishima. Correspondência 1945–1970, publicado pela editora Estação Liberdade em 2019, com tradução do japonês de Fernando Garcia, introdução de Shoichi Saeki e posfácio de Donatella Natili.

A primeira das cartas, de Kawabata para Kimitake Hiraoka (nome de batismo de Yukio Mishima) é de 8 de março de 1945. A última da correspondência é de Yukio Mishima para Yasunari Kawabata com data de 6 de julho de 1970, cinco meses antes de seu suicídio na sala de comando do Acampamento Ichigaya das Forças de Autodefesa do Japão.

O conjunto de textos retrata 25 anos de uma intensa amizade atravessada inteiramente pela literatura. O que começa como uma típica relação de admiração e respeito entre um aprendiz (Mishima) e um mestre (Kawabata), vai se transformando rapidamente em uma relação de intimidade, e a hierarquia que podia existir no início parece se inverter a favor do aprendiz, tal como demonstra o episódio da recomendação para o Prêmio Nobel ou comentários posteriores de Kawabata, como na carta de 23 de setembro de 1963: “Recebi ontem o seu O marinheiro que perdeu as graças do mar, que me foi enviado por Kamakura. Comecei a ler ontem tarde de noite e terminei hoje, invejo sua argúcia e penso que gostaria de me inspirar em você, mas nunca poderei atingir seu patamar”. Embora Mishima seja bem mais novo que Kawabata — mais de 20 anos —, sua precocidade e intensa produção o colocaram muito cedo no centro da vida intelectual e literária do Japão de mediados do século 20.

Personalidades distintas
Suas personalidades contrastantes — um tímido e contido, o outro excêntrico e aberto — fica de entrada em evidência na troca de cartas. Em geral, Mishima é muito mais expressivo, inclusive quantitativamente é ele quem mais escreve. Sobretudo nos primeiros anos da correspondência entre ambos, quando o jovem autor confessa abertamente para seu mestre suas dúvidas, angústias e desejos. Em carta de julho de 1945, Mishima, então com 20 anos, comenta brevemente o contexto de intensificação da guerra e seu translado para o Arsenal de Koza, na Faculdade de Direito da Universidade de Tóquio, onde deve exercer sua nova função como bibliotecário. Uma função perfeita para ele, diz, pelo tempo que poderia dedicar à escritura: “A guerra só faz se tornar mais violenta, de modo que minha escrivaninha para trabalhos de literatura começou repentinamente a se estreitar. Só resta espaço para um mero maço de papéis. Mesmo para usar a caneta meu cotovelo esbarra em algo, e não posso movimentá-lo como quero. Não sei se trabalhar como um louco em tempos assim de fato satisfaria aos deuses da literatura. Tenho apenas a consciência fervorosa de que satisfaço a algo ou alguém”. E em outra mensagem de julho de 1947 confessa: “E se eu realmente tivesse em mim um demônio, o que me impediria de abandonar a escola e o lar e lançar-me por inteiro a uma vida de literatura de acordo com meu alvedrio?”.

Já Kawabata, ao longo da correspondência, aparece mais reservado. Suas cartas, embora afetuosas, revelam pouco sobre seus pensamentos, intimidade (além de detalhes sobre sua saúde) ou, inclusive, sobre seus métodos de trabalho, frustrando um pouco a curiosidade do leitor. Pelo contrário, sempre generoso, parece mais preocupado em comentar ou fazer elogios da obra de seu amigo: “Minhas saudações. Recebi com muita alegria sua obra O martírio de São Sebastião. Acredito ser outro trabalho seu que traz um sorriso ao peito”. Só de maneira fugaz conseguimos captar alguma referência a sua própria obra, como na carta de 15 de fevereiro de 1953: “Li com profundo interesse o debate na Multidão [debate entre Katsuichiro Kamei, Yoshie Hotta e Yukio Mishima sobre a criação literária que incluía uma crítica da obra Após o ferimento de Kawabata]. Por achar insípido ter minha verdadeira forma tão bem compreendida e dissecada, imagino que logo terei de passar por uma metamorfose”.

Ao longo da correspondência fica claro também o desejo nos dois escritores de serem traduzidos e divulgados no ocidente, mas, ao mesmo tempo, uma certa dúvida sobre a forma em que suas obras poderiam ser recebidas e interpretadas. Kawabata escreve em outubro de 1956: “Aparentemente sairá também a tradução para o francês de meu Mil tsurus, baseada na tradução alemã. Mas o que será de obras como O país das neves e Mil tsurus uma vez traduzidas para o Ocidente? Ouço dizer que as editoras e os book reviewers encontram problemas para interpretar as obras da forma adequada”. Na resposta de novembro daquele ano, Mishima comenta de modo mais irônico sobre o assunto e sobre sua relação com os tradutores de sua obra: “Os estadunidenses não são assim tão estúpidos e creio que entenderão o que precisa ser compreendido. Por outro lado, os europeus é que têm a cabeça dura, e temo que lhes falte uma capacidade de compreensão flexível o bastante para a literatura japonesa […] Cortei laços com o tradutor Weatherby, pois discutia demais sobre assuntos financeiros. Agora precisarei encontrar um novo tradutor. Não chego a crer que todos os estrangeiros sejam neuróticos como Weatherby a respeito de dinheiro”.

O Brasil não fica fora do campo da experiência de Mishima, embora seja mais generoso com os brasileiros e sua língua. O escritor visita o Brasil em 1952 depois de passar uma temporada em Nova York. Fica hospedado na fazenda de Toshihiko Tarama, neto do Imperador Meiji, que havia emigrado ao Brasil em 1947. Desde Lins, no interior de São Paulo, Mishima escreve para Kawabata comentando sobre o modo de ser dos brasileiros: “Já quanto à América do Sul, me apraz sobremaneira o nível de descontração dos brasileiros. Não há um bando tão simpático como esse, mesmo considerando os japoneses que aqui vivem, agradáveis com seu ares de despreocupação […] Em relação à língua nativa, o português, apesar de ter muitas vogais, a pronúncia é muito próxima do japonês, de modo que não soa assim tão superficial mesmo quando nós japoneses a falamos […] o português é muito mais condizente conosco”. No final da carta, Mishima comenta que chegará ao Rio antes de Carnaval e que depois pretende continuar para a Argentina, mas não há mais referências sobre esta viagem.

Contexto
Entre a troca de cartas dos escritores podemos conhecer alguns detalhes do mundo literário japonês da época. Destaco dois: o primeiro, a existência de um torneio de Go entre literatos. Em novembro de 1953, Kawabata está participando do torneio e conta que teve o azar de enfrentar Sakakiyama (campeão entre os escritores e autor de diversas histórias relacionadas ao jogo), mas que conseguiu ganhar, perdendo posteriormente para o mestre Shofu. O próprio Kawabata é autor de um grande romance sobre o jogo, O mestre de Go. Segundo, a prática conhecida como kandzume à qual Mishima se refere ironicamente como “enlatado”. O kandzume consiste no costume das editoras de reservarem um quarto de luxo em algum hotel para que os escritores trabalhassem em retiro, sem restrições; prática que Mishima deve “sofrer” no verão de 1951 e sobre a qual comenta: “Nunca passei um verão tão divertido […] dancei, andei a cavalo, passeei de barco e, além de beber, consegui trabalhar ainda o dobro em relação ao ano passado”.

Apesar de estarem atravessando um conturbado momento político, não aparecem nas cartas referências explícitas a respeito. Nesse sentido, tanto as notas como as biografias cronológicas dos autores e o posfácio que acompanham a edição da correspondência funcionam em conjunto como um bom suporte ao leitor para reconstruir o contexto japonês do pós-guerra e o lugar destes escritores nesse campo de forças.

Entrelinhas é possível encontrar certas ideias que parecem antecipar o que seria um desfecho trágico no caso de Mishima, como destaca Donatella Natili no posfácio. Em uma das primeiras cartas da correspondência, de 18 de julho de 1945, Mishima escreve: “Não é possível, talvez, reconhecer também na literatura a existência de limites da experiência, limites não ultrapassáveis e que fogem do domínio da experiência literária (como Rilke a entendia)? Não chegará o momento em que serei obrigado a fazer a escolha penosa de realizar, fora do âmbito da literatura, as minhas visões literárias fatalistas?”.

No caso de Kawabata, não há muitos indícios que permitam prever sua decisão pelo suicídio em abril de 1972. Talvez alguma pista se esconda na última mensagem para Mishima — de 13 de junho de 1970: “Embora as pessoas todas digam que tenho aspecto saudável, parece que ao menos meu espírito envelhece […] é tal como você diz; é duro, não é mesmo?”.

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Kawabata—Mishima. Correspondência 1945–1970
Yasunari Kawabata e Yukio Mishima
Trad.: Fernando Garcia
Estação Liberdade
256 págs.

 

OS AUTORES
Yasunari Kawabata
Nasceu em Osaka, em 1899. Primeiro japonês a receber o Prêmio Nobel de Literatura, é considerado um dos maiores representantes da literatura oriental do século 20. É autor de Beleza e tristeza (1964), Kyoto (1962), A casa das belas adormecidas (1961), entre outros. Suicidou-se em 1972.

Yukio Mishima
Nasceu em Tóquio, em 1925. Uma das personalidades mais populares do Japão no século 20, estreou na literatura aos 19 anos de idade. É autor, entre outros, de Confissões de uma máscara (1948), Sol e aço (1970) e da tetralogia Mar da fertilidade (1969-1970). Suicidou-se em 1970.

 

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